segunda-feira, 20 de abril de 2015

A TERCEIRIZADA DA LUÍSA

A TERCEIRIZADA DA LUÍSA

Luís e Luísa são casados. Ele com ela, que fique claro. Mas a harmonia entre os nomes habitou-se a divorciar-se dos donos na convivência do dia a dia. A forma como o casal vê a vida costuma desenhar o “D” do desacordo e o “A” da arenga. Sem mais nem menos, o dois abraçam os conflitos e terminam se agarrando mentalmente. Mas sempre acabam mentalmente agarrados.
Luís é paciente, racional, metódico, despreocupado. Luísa é renitente, emocional, desligada, irrequieta.
Mas o homem só se comporta assim em casa. No trabalho (Luís é vigilante), o despreocupado Luís é o sujeito mais ranzinza e afobado do mundo. A mulher é enfermeira. No hospital, porém, a irrequieta Luísa é a caixa da paciência e a compreensão em pessoa.
Luís adora ler. Luísa detesta leitura. Mas Luís ainda não aprendeu a ler o corpo da mulher. Perde-se nas curvas. Já Luísa lê de cor e salteado o corpo do marido. Não se perde nem a pau. Luís e Luísa estão apaixonados. Um pelo outro, que também fique claro.
Luís e Luísa são terceirizados. Do mesmo patrão, diga-se, embora as empresas tenham nomes diferentes. Uma delas, ressalte-se, terceiriza os serviços de Solange, a babá dos dez aninhos de Laís, a filha do casal. Ainda que sem culpa, adveio de Solange o último entrevero familiar. Começou assim:
O celular chama, Laís pula dos braços do pai, atende, fala um tempinho, passa pra ele:
“É a mãe. Tá trazendo uma pizza”, diz a filhota:
- Oi, querido. Chego já. Tô esperando o busão. A doida da Suzana me viu, puxou-me pra beber chá numa livraria e quase não me larga. Tô levando... Que bolsa mais... Nossa... Misericórdia. Acho...
- Que foi, Lu? Bolsa! Você tá nervosa, gaguejando. Que foi, Lu? Tá sendo assaltada, é?
- Vire essa boca pra lá, amor. É que essa bolsa tem bolso que não presta. Não tô achando o celular. Acho que deixei no café. Bicho tão caro. Vou ver se acho. Escute...
- Espere, Lu. Você tá ligando do seu...
- Mesmo! Ah uma jaula.
Foi Luísa chegar ao apartamento para filha e pai caírem na risadeira. Luísa quis pegar ar, mas logo, logo aderiu à gozação. Mas também logo, logo soltou os cachorros. Quem estalou os dedos pra eles foi o marido:
- Sabe da maior, Lu? A Solange vai nos deixar.
- Quê? Como assim nos deixar. Ela não é terceirizada? Não pode. A menos que...
- Isso mesmo. Ela vai sair da firma, montar a própria agência e terceirizá-la para uma empresa que já é terceirizada pelo empregador com quem hoje temos contrato, entendeu? Disse que já tem oito funcionárias. Mas prometeu mandar uma boa babá pra Laís, já que ela ficará no escritório, administrando a empresa.
- Isso é um tremendo ninho de gato, Luís. E você não disse nada? Aceitou assim, assim, assim... Ô homem morto nas calças. Quer dizer...
“Calma, querida. Todo o mundo tem o direito de crescer na vida. Você tá sendo injusta comigo”, argumentou Luís, querendo abraçá-la.
- Crescer na vida um cacete. Vá pra lá! Você é um bundão, Luís.
Só restou ao pobre do Luís ficar de boca aberta com a brutal reação de Luísa. De boca aberta, o queixo do atônito caiu em razão do novo comportamento da esposa: não passaram dois minutos, o semblante de Luísa foi se suavizando, suavizando e pimba. Só sorrisos, Luísa jogou o apalermado marido no sofá e danou-se a beijá-lo. Luís, é evidente:
- Perdão, amor. Como dizia minha mãe, tem mal que vem para o bem. Minha nossa. Preste atenção. Você e eu somos terceirizados. De certa forma, a educação da Laís também. A vida da gente tá toda terceirizada, querido. Daí que acabo de ter uma ideia. Vamos abrir uma empresa e terceirizá-la.
- Pirou! Sua mãe pirou, Laís. Empresa de quê, mulher de Nossa Senhora? Vamos fazer o quê?
- Fazer amor, homem de Deus.
Amor! Aquilo que de melhor a gente faz na vida. Ninguém, no mundo, faz um amor melhor que o nosso. Demanda não nos faltará. Já tenho o nome da empresa:
LUS DO ÊXTASE – ESPECIALISTA NA MAIS PRAZEROSA ATIVIDADE MEIO.
Vamos terceirizar o nosso casamento, amor.

Abril/2015
TC