quinta-feira, 30 de abril de 2015

BOLO COM TEXTO

BOLO COM TEXTO

“Fulano de tal, o que é a vida.” Essa é a última pergunta do excelente programa de entrevista PROVOCAÇÕES, apresentado pelo ator Antônio Abujamra. Meia noite das terças-feiras, TV Cultura, e lá está ele encarando alguém com tal pergunta. O entrevistado responde algo, nisso o Abujamra sapeca-lhe: “O que é a vida.” Outro algo de resposta e mais um “O que é a vida.” 
Na primeira “O que é a vida” já se percebe certa coisinha engraçada: a leve inibição de alguns entrevistados. Mostram-se levemente embaraçados, embora, e isto é que é instigante, estejam sabendo que a desconcertante pergunta virá. E virá três vezes. Pergunta tão simples, de resposta também simples, posto qualquer uma satisfazer à indagação, sugere recepção amistosa. Por que, então, o jeitão desconfortável do inquirido? Arte da comunicação, certamente.
Feita com olhos nos olhos, expressão corporal convincente, entonação perfeita, a pergunta “O que é a vida” chega devastadora ao último “round” e acaba nocauteando parte dos entrevistados. Na verdade, todos sentem o golpe comunicativo, mas alguns disfarçam que é uma beleza. É com tal avaliação que desligo a tevê e fico a matutar. Se o Abujamra me formulasse essas perguntas, eu riria e o responderia assim.
A vida, seu Abujamra, é comunicação, comunicação, comunicação. E acrescentaria. Comunicação
representada por seus vassalos, tais como circunstância, conveniência, interesse... Caso ele quebrasse as regras do Programa e partisse pra cima com um “como assim vassalo”, eu me livraria com este contexto:
Ora como assim! Vassalos são os paus-mandados da comunicação, senhor. Peguemos um deles. Circunstância serve. Peguemos, adicionemos a ela uma pitada de atenção, um quanto de empenho, um tanto de acaso (comunicação cósmica), mais uns tantos e quantos de outros temperos comunicativos e o contexto estará pronto para nos servir. Ou para dele nos servirmos. Contexto é danado de prestativo, senhor Abujamra. Sugira-lhe qualquer estado mental e ele já se põe aos seus pés. Ignorância e desinteresse, por exemplo. Esse casal forma baita contexto de apatia. Qual o mais nocivo? A ignorância ou o desinteresse? Não sei nem me interessa, costuma responder o apático.
Contexto, gente, é o xodó das atitudes mentais. Às vezes, vemo-nos em movimento. Noutras, na maioria, ele já está pronto para dar o bote. Querem ver?
Focado em determinado interesse, o sr. Abujamra bolou certas perguntas, deu-lhes um quê provocativo e... E estava pronto o prazeroso PROVOCAÇÕES. Contexto pronto, está à disposição de todos.
Há muito tempo, numa eleição qualquer, um candidato pegou a conveniência, juntou-lhe uma porrada de dissimulação, misturou com enganadores quês e... Estava eleito o tendencioso candidato. Contexto pronto, continua sendo utilizado.
Atualmente, assistimos à gestação de econômico e político contexto: a regulamentação do projeto de lei da terceirização. Todos os temperos da comunicação estão sendo usados. Dum lado, a panaceia da segurança jurídica. Doutro, o vírus da precarização. Qual contexto nascerá dos debates?
Quanta babaquice, dirá alguém sobre este texto. Não precisamos saber o que é contexto para entender que a vida é assim. É verdade. Mas entendê-lo pode fazer a diferença nos nossos apressados julgamentos. E, entenda, seu Alguém, a vida também é assim, cheia de julgamento. Entender, por óbvio, é diferente de concordar.
Já tentou entender o contexto criado pelo protagonista dum crime passional? E o contexto do suicida? Em algum momento, parou para pensar no contexto do casamento? Como exercício, pense no seu. Já imaginou que, nas três hipóteses, um adicional temperinho da comunicação – ou a ausência de um dos temperinhos usados - poderia ter mudado o rumo da história de alguém, ou de sua história?
Agora aceite uma sugestão. Esqueça essa tolice de contexto. Sugestão desnecessário, é? Pois diga! Falei de contexto tão somente para justificar o cabeçalho do texto. Uma senhora enrolação. Passei-lhe um quinal, dei-lhe tremendo bolo, não foi? Desculpe aí, tá?
Bolo, aliás, é ótima resposta para “O que é a vida” do Abujamra. O que é a vida, senão um gigantesco bolo preparado pela atitude, cujos recheios encontram-se na prateleira mental do ser humano.

Abril/15
TC

Obs 1. Antônio Abujamra morreu hoje, 28/04/15. Eu estava no meio do texto quando o UOL me deu a notícia.
Obs 2. Acerca do atrapalhado título Bolo Com Texto, devo explicar o seguinte. Aqui acolá, levo bolo de batata para os colegas de trabalho. Também aqui acolá ponho de cobertura um texto brincalhão. Só come do bolo quem ler, costumo brincar. Aí os danados e as danadas passam (passam, entenderam?) os olhos no papel e afiam os dentes no bolo. E hoje é dia dum aqui, acolá. Entenderam a razão do confuso título?
O bolo de batata de hoje é especial, pois simboliza meu aniversário e minha aposentadoria. Esperadíssimo, portanto. Se não o trouxesse, correria o risco de meu pedido de impeachment estar logo nas primeiras horas da segunda-feira na mesa do delegado.
E a primeira assinatura começaria com o “M” da chefe. E parece que tô vendo lá embaixo a ruma de OK, OK, OK do delegado.