quinta-feira, 16 de abril de 2015

PASSANDO A LIMPO OS CONSELHOS DO DRUMMOND

Olá, gente,
Deixem-me contextualizar este sem-futuro aqui debaixo. Seguinte. Papo de Homem é um porreta saite de leitura. Só tem texto matador. Lá tem uma página com Drummond, sentado, pensativo, e a reprodução de dez conselhos literários dados a um escritor iniciante. Esse escritor chama-se Alípio. O texto faz parte de A Bolsa e a Vida, coletânea de crônicas escritas pelo Drummond entre 1953 e 1962.
Bom, estava relendo as instruções do mestre, então me deu vontade de fazer uma brincadeira com elas. Fi-las, como dizia o Jânio Quadros, e enviei pro Papo de Homem. Sabia que seria reprovado, é evidente.
É evidente que fui. A brincadeira não foi publicada.
Agora estou postando o bicho pra vocês.
Serei reprovado de novo?
Um abraço e boa leitura,
Tião


PASSANDO A LIMPO OS CONSELHOS DO DRUMMOND

          De quando em quando me vejo remetendo umas dedadinhas (sou dedógrafo) de prosa pra vocês, mas as severas orientações do PdH me fazem recolher o dedo. O médio, normalmente. Temo algum editor, o JP, por exemplo, tachar de merda o meu texto: “Excesso de toxinas, tipo cacófatos, e carência de tônicos, a exemplo de metáforas, dão à prosa desse rapaz uma fetidez muito forte”. Não me disponho a imaginar alguém dizendo semelhante verdade, ainda que dita pelos phd em boa prosa.
Matutava assim enquanto passeava por aqui, quando me deparei com o Drummond. Fiquei tão pensativo quanto o danado, então, então... Então aconteceu. De carne e osso, mas mais osso do que carne, o Drummond gesticulou pra mim, certamente me confundindo com o Alípio.
- Há quanto tempo, meu ex-jovem! Só mesmo você para fazer me levantar. Estou sentadinho aqui há três anos. Três anos ouvindo o papo desses meninos e aprendendo com eles. Um papo maneiro, cara. Uma delícia o tempero linguístico deles. A cada expressão porreta eu me lembro que fui pedrado pelos puristas por proclamar tinha - no lugar de havia – para um poema de pedras que publiquei. Aqueles críticos, meu ex-jovem, não sabiam o que era aliteração e desconheciam o sabor das palavras.
Mas me diz, meu rapaz. O que faz aqui? Está sondando o ambiente? Desculpe a tagarelice, mas... Enfim, está seguindo a tolice de escrever? Espere. O Michel largou-me nos pés um papelzinho com dez daquelas instruções que lhe há anos lhe dei. Então faremos o seguinte. Vou lê-las uma a uma e uma a uma você me diz o que aproveitou delas. Só tem uma coisa, meu filho. E se o chamo de filho, perdoe: é balda de gente madura. Poderia chamar-lhe irmão, de tal maneira somos semelhantes, sem embargo do tempo e do pormenor físico: cultivamos ambos o real ilusório, que é um bem e um mal para a alma.
Mas, com eu dizia, só tem uma coisa, meu filho. Espero três negocinhos de seu uma a uma de aproveitamento: sinceridade, sinceridade, sinceridade.
O Drummond transpirava satisfação em reencontrar o Alípio. Não quis desapontá-lo:
- Tá legal, seu Drummond. Estou seguindo a carreira de escritor, sim. Bom, é um enorme prazer reencontrá-lo e bater papo com o senhor.
- Então vamos lá, meu ex-jovem. Diga-me o que aproveitou da instrução um.

1. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

Não levei isso ao pé da letra. Às vezes levo,
mas termino pondo na cabeça tão somente as exceções. Pondo não, procurando-as, pois elas permanecem virgens de olhos e ouvidos. Até a banalidade deixou de ser original, seu Drummond. Provei tal tese quando respondi processo por plágio. Ganhei em todas as instâncias. Arquive-se a suposta criatividade no gavetão da genialidade, proferiu o juízo final.

- Sério? Não brinca!
2. Não fique baboso se o amigo lhe disser que seu novo texto é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom, o que todo o mundo já sabia.  Mas se ele disser que seu novo texto é pior do que o anterior, pode ser que fale a verdade.
Não sigo seu conselho. Fico baboso, sim, mesmo sabendo que o amigo está mentindo. Afinal, espero que ele também fique baboso no instante em que minto pra ele. Divirto-me bastante com essas trocas de figurinhas.

3. Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito a presunção de genialidade exclusiva.

Essa regra eu sigo numa boa, seu Drummond. Inexperiente, quebrei a cara quando a quebrei. Mas me refiz e saí juntando os cacos da panelinha.

- Fez muito bem. Vejamos a sugestão quatro.
4. Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por egoísmo poupe-se qualquer espécie de sofrimento.
O senhor vai me desculpar pelo o que vou falar, seu Drummond. Não sei onde diabo andava a sua cabeça quando escreveu esse “por egoísmo”. Egoísmo é...
- Agora quem pede desculpa sou eu. Também desconheço, ex-jovem Alípio. Fui imprudente. Nem brincando o escritor deve ser egoísta. Desconsidere essa expressão, tá? Aproveito para de lambuja lhe dar um conselho. Se pensa em ser um autor tope de linha, fuja destes arvoredos: egoísmo e vaidade. Formam cada fogueira que você nem imagina. Corra e suba no desprendimento e na modéstia. São nos galhos dessas virtudes que se acomodam os autores de sucesso. Já viu, por acaso, soberba ou arrogância nos feirantes literários, nos campeões de vendas? Pois!
A propósito, o conselho cinco vai nessa direção. Escute:
5. Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.

Fiz o teste. Dez na cabeça. Aprovadíssimo, seu Drummond. Obrigado!

- De nada.
6. Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses. Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto.

Três meses naquele tempo, Mestre. Opinião, hoje, não raro, morre entre duas e três semanas. Às vezes, dura o tempo duma edição jornalística. A coerência corta dos dois lados, seu Drummond. É gilete. Quando, por conveniência, o sujeito mantém a opinião, ele diz que a manteve por princípios. Quando muda, também por oportunidade, o dito sujeito apressa-se a dizer que refletiu melhor e que só o burro não muda. Porque burro é.

            - Não é isso!
7. Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a dez anos se ficar famoso; e se não ficar não terá valido a pena.
Sabe, seu Drummond, esse conselho, o sete da mentira, é a minha cara. Embora seja ficcionista, não minto. Mentira. Minto apenas quando a vaca tosse. E, é verdade, ela sempre tosse quando recebo certos elogios. Não era, seu Drummond, mas foi só começar a escrever para eu ficar polido e misericordioso. Tornei-me refinadíssimo. Verdadeiro bundão.
- É verdade. Já percebi, ex-jovem Alípio. Está seguindo este conselho?
 8. Se sentir propensão para o gang literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.
           
Nunca senti tal propensão. Mas não posso garantir que não vá deixar alguns companheiros chateados.

            - Você me parece bastante sincero, meu rapaz.
9. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
           
Tenho evitado, sim. Mas já fui juiz uma vez. E acho que fiz justiça, seu Drummond. Dei nota máxima a todos os quesitos. Embora, por princípio moral, tivesse votado diferente se o texto em avaliação tivesse sido escrito por mim. Ou escrito por um desafeto. Nesse caso, o princípio seria outro, é evidente.
           
            Pois diga!
Vejamos o último e mais importante conselho. Ou melhor, anticonselho. Já que disse que está escrevendo, este, por óbvio, você não seguiu.
10. Leia muito e esqueça o mais que puder. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.
             
            Não só não segui, como também discordei. Como diria aquele famoso serial, vamos por partes, seu Drummond.
Esquartejemos o primeiro período: “Leia muito e esqueça o mais que puder”. Para escrever, não é preciso ler esse muito todo não, seu Drummond. Disseram isso, a citação foi sendo repetida e terminou pegando. O senhor caiu nessa, desculpe a sinceridade, seu Drummond. Leia o suficiente é suficiente. Ponto final. Agora são cabíveis duas perguntinhas. O que é ler muito? O que é ler o suficiente?
Leia muito dá a ideia de ler o dia todo, ler todo o dia e ler mais, mais e mais. Loucura total. E desperdício de raciocínio, pois grande parte das informações cairá no esquecimento. De mais a mais, é grande o risco de o leitor ficar pensando pela cabeça dos autores, já que não teve tempo de “tratar” o conteúdo lido. E a crítica é fundamental. Concorda, seu Drummond?
            Já leia o suficiente embute a ideia de limite. Leia o suficiente – ou o que lhe basta - abrange absorção, crítica e variantes do gênero. Suas sugestões são anticonselhos, entendo. No “esqueça o mais que puder” o senhor foi macarrônico, compreendo. Mas, mas... Mas prefiro algo assim: leia o suficiente e aproveite o mais que puder.
            Espostejemos seu segundo período: “Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo”. Com o devido respeito, e repetindo o feio macarrônico, essa foi outra recomendação infeliz, seu Drummond. Fez-me lembrar Rainer Rilke, pois vai ao encontro da desventura aconselhada pelo festejadíssimo poeta alemão. Rilke...
            Engraçado, seu Drummond. Assim como o senhor, Rilke dava respostas sobre literatura a um jovem. No caso, o jovem Kappus.
Disse Rilke ao Kappus: “Confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão”.
            Retórica e tudo mais à parte, uma montanha de bobagens esses dizeres do sr. Rilke. Escritos em 1903, o senhor deve saber, seu Drummond. Coisa de quem achava, e acha, literatura a arte das artes. Menos, sr. Rilke. Dá pra fazer mais em conta, não dá, seu Drummond? Literatura é manifestação artística, é certo, mas tão somente isso. A literatura não põe espada no pescoço de ninguém. Escrevamos quando quisermos e paremos quando nos der na telha. Então deixemos de lado essas, essas, essas... Bom, o senhor sabe.
            Retalhemos seu último período: “E sempre se pode deixar”. E esse o salva, seu Drummond. Bom é que entre mortos e feridos escaparam todos, posto salvar ser a essência da literatura. Perdoe-me se passei do ponto. Na ênfase e na extensão, tá?

- Como ousa ir de encontro ao Rilke, meu rapaz. Você desconhece o que é linguagem expressiva. Mas não há por que pedir perdão, ex-jovem Alípio. Ponte de vista é ponto de vista. Deu com força, hein! Agora me diga. De onde tirou esse tal de “macarrônico”? Outra coisinha. Como ficou bom da gagueira?
- Gagueira? Nunca fui gago, seu Drummond.
- Bem que eu vinha desconfiando. O senhor não é o gago e ex-jovem Alípio. Por que me enganou, senhor, senhor...
- Tião. Tião Carneiro. Desculpe, seu Drummond. Eu...
- Ah, então o senhor é o tal que escreve numa famigerada Pocilga de Ouro e que agora em março achou por bem postar um texto alterando um conto meu, o A Opinião em Palácio. A Cecília me falou desse mostrengo. Não vai longe com esse nome, sr. Carneiro. Fosse ao menos Tião Coelho? Os leitores de sua Pocilga devem... Devem... Bom, o senhor sabe.
Mas teste-se, sr. Carneiro. Mande um texto pra cá. Se os meninos aprovarem já é um bom sinal. Mas tenha cuidado com o quanto e com o que vai escrever, tá ligado? Esses guris só soltam textos matadores. Pense oito, oitenta, oitocentas vezes antes de mandar alguma coisa pra cá.
Boa sorte.

Fiquei pensando, pensando, pensando. Mandei quando cheguei na vez setecentos e noventa e nove.
Mas fui reprovado.

Abril/2015,
TC