terça-feira, 26 de maio de 2015

CORTARAM A CABEÇA DO SUJEITO


CORTARAM A CABEÇA DO SUJEITO
Oi, pessoal
Estou passando pra dar um alô, já que há dias a gente não se vê. Tô com a coluna fodida, gente. E escrever com dor é foda. Corre-se o risco de ser abatido em pleno voo ficcional. Não rola nada.
O médico afirmou que a bicha tá baleada e que preciso me mexer: faça atividades físicas, Tião. Segundo ele, jogar piúba de cigarro fora, levar copo pra boca e ziguezaguear - como querendo pegar galinha - são sentenças quintas-colunas. Pura perda de tempo. Esses médicos saem com cada uma! Então cambalear é perda de tempo? Quem já viu! Quando muito, perde-se o equilíbrio.
Mas tô melhor. A Rochelle, minha fisioterapeuta, dana uns choques nas minhas costas, bota uma luz vermelha no ossinho do encontro e manda-me levantar pernas e bumbuns (esse só um, é lógico). Conte 10, conte 20. Conte mais 10, mais 20. Não alivia não, a danada. Conto, mas aqui acolá enrolo ela. Mesmo assim, não é que já tô bom? É uma danada a danada da Rochelle.
Tava quase bom, pra ser sincero. A culpa da piora foi da Tribuna do Norte de hoje, 26 do 5 de 15. Tá lá três noticinhas, pegadinhas, logo na capinha:
- Kalina Leite, recebe hoje comissão...
- A empresa responsável pela construção da cadeia Pública de Ceará-Mirim, entrou com...
- Proposta apresentada ontem pela CDL Natal ao prefeito, prevê estacionamento...
Porra! Ninguém merece! Fiquei com pena das cabeças decapitadas, dei um murro na mesa e ai, ai, ai. A coluna deu um estalo, juro. Doeu, viu? Cortar a cabeça de uma proposta até que é compreensível. De uma empresa, idem. Agora, cortar a cabeça de nossa secretária de Segurança aí também é demais também. Até porque a bonita cabeça dela (hômi!) tá trabalhando com a cabeça. Fosse ao menos a cabeça da bandidagem, desses que ficam atirando na cabeça do povo, aí, aí...
Me diz uma coisa, François. Não tem mais aquele negócio de sujeito e predicado, não, é? Quer dizer que a esculhambação do país botou quente na gramática, foi? Agora pode meter vírgula em tudo que é canto, é? Liberou geral, então!
Tô pensando, meu nobre, mandar esses caras meterem uma vírgula naquele canto. Mas uma vírgula de inclinadinho bem grande e pontudo.
Té mais.
Tô indo lá pra Rochelle.

 Maio/15

TC

segunda-feira, 11 de maio de 2015

SANSÃO, DALILA E O ACHADO DAS BOTAS DO JUDAS NOS CAFUNDÓS DUM GRANDE RIO DO NORTE- BRASIL (Quinto conto surreal do TC)


SANSÃO, DALILA E O ACHADO DAS BOTAS DO JUDAS NOS CAFUNDÓS DUM GRANDE RIO DO NORTE- BRASIL
(Quinto conto surreal do TC)

O primeiro personagem desta história (história, sim) chega a pé aos arredores de certo povoado. Pingo do meio dia, arreia o matulão, coça a cabeça, dá uma assuntada e aproveita a sombrinha dum pé de araçá para tirar um cochilo. Acorda, faz alongamentos e fica olhando o lugarejo lá embaixo.
Não mais de cinquenta casas, supõe.
Que energia é esta que está me empurrando para o cafundó do mundo, amado Senhor, pergunta-se o andarilho.
O nome dele é Sansão.
Sansão tem um quezinho religioso e anatomia atlética. Está longe, porém, da descomunal força do bíblico juiz de Israel. Já no equilibrismo, certamente superaria o xará matador de leão, já que fora artista de circo. Era especialista em trapézio e saltos mortais. Abandonou a profissão para fugir do assédio feminino: caixão de músculos, negro de cabelo esvoaçante, olhos verdes de olhar intenso, simpático, brincalhão, a mulherada vivia pegando no pé dele. Daí ele ter posto os pés na direção do anonimato. Havia anos Sansão vivia a vida velha de viajante.
Sansão passava a poucos quilômetros do que estava chamando de cafundó do mundo quando a potente energia o fez parar em certa encruzilhada e o mandou seguir pela estradinha a direita. Agora coçava a barbicha e avaliava se valia a pena descer para o lugarejo. A intuição dizia sim, desça; a razão respondia não, volte. Sansão sentia-se meio aperreado, algo semelhante à excitação sentida nas luas grandes, o que não era o caso: a lua só estaria cheia no sábado, dali a quatro dias.
Seja o que Deus quiser, falou alto o aluado Sansão, e começou a descer a ladeirinha que o levaria ao vilarejo.
O nome do vilarejo