segunda-feira, 11 de maio de 2015

SANSÃO, DALILA E O ACHADO DAS BOTAS DO JUDAS NOS CAFUNDÓS DUM GRANDE RIO DO NORTE- BRASIL (Quinto conto surreal do TC)


SANSÃO, DALILA E O ACHADO DAS BOTAS DO JUDAS NOS CAFUNDÓS DUM GRANDE RIO DO NORTE- BRASIL
(Quinto conto surreal do TC)

O primeiro personagem desta história (história, sim) chega a pé aos arredores de certo povoado. Pingo do meio dia, arreia o matulão, coça a cabeça, dá uma assuntada e aproveita a sombrinha dum pé de araçá para tirar um cochilo. Acorda, faz alongamentos e fica olhando o lugarejo lá embaixo.
Não mais de cinquenta casas, supõe.
Que energia é esta que está me empurrando para o cafundó do mundo, amado Senhor, pergunta-se o andarilho.
O nome dele é Sansão.
Sansão tem um quezinho religioso e anatomia atlética. Está longe, porém, da descomunal força do bíblico juiz de Israel. Já no equilibrismo, certamente superaria o xará matador de leão, já que fora artista de circo. Era especialista em trapézio e saltos mortais. Abandonou a profissão para fugir do assédio feminino: caixão de músculos, negro de cabelo esvoaçante, olhos verdes de olhar intenso, simpático, brincalhão, a mulherada vivia pegando no pé dele. Daí ele ter posto os pés na direção do anonimato. Havia anos Sansão vivia a vida velha de viajante.
Sansão passava a poucos quilômetros do que estava chamando de cafundó do mundo quando a potente energia o fez parar em certa encruzilhada e o mandou seguir pela estradinha a direita. Agora coçava a barbicha e avaliava se valia a pena descer para o lugarejo. A intuição dizia sim, desça; a razão respondia não, volte. Sansão sentia-se meio aperreado, algo semelhante à excitação sentida nas luas grandes, o que não era o caso: a lua só estaria cheia no sábado, dali a quatro dias.
Seja o que Deus quiser, falou alto o aluado Sansão, e começou a descer a ladeirinha que o levaria ao vilarejo.
O nome do vilarejo
é Araçá.
Não mais de cem cinquenta casas, como havia suposto Sansão, mas cheio de picadas, sítios e fazendas nas cercanias. Araçá, e aqui - para desespero de meu crítico e inimigo íntimo JB - abro uma vereda informativa: Araçá é conhecido pelo bom humor de sua gente, cujos sorrisos aparecem na inventividade de apelidos, gírias e afins.
Rapaz bonito, por exemplo, as meninas chamam de Pão. Tudo porque o pão da padaria de seu Zuza é o mais gostoso da região. Tão gostoso quanto o pão é a broa. Por isso os garotos chamam as meninas de Broa. Pão ganha o país, mas Broa só pega após briguentos debates. Mesmo assim deformada.
Havia debates, sim. Os caras começavam a beber e terminavam discutindo sobre o relevante tema. Como o simples Broa não colou, a rapaziada se pôs a chamar as bonitonas de Broa Zuza, em alusão ao dono da padaria. O epíteto também morreu, conquanto alguns estudiosos digam que o conhecido “Boazuda” de hoje foi parido naquele tempo. Mas o que surgiu da broa e andou mundo a fora mesmo foi “Broto”, sugestão de Chico da Serra, na época, o supervisor das reuniões.
Aposto como o JB abandonou a leitura deste texto. Alguém lhe disse que o conto deve ser seco, direto e outras coisitas, então o aloprado JB passou a levar essas falas ao pé da letra. Só falta infartar com as divagações deste transgressor. Mas não é porque estou descrevendo fatos atípicos, cujos detalhes tomam feição de conto surreal, que vou desprezar as reais sutilezas do ambiente.
Bom, depois de breve sondagem no vilarejo, Sansão entendeu que se tivesse de encontrar alguma coisa para comer seria naquela venda da esquina. Entrou, balançou a cabeça para dois cambaleantes de cachaça e ficou assistindo a uma briga de casal. Os donos do estabelecimento, pelo visto:
- Mas eu disse que ia trazer o peixe e que você chamasse o Joca das Correias pra tirar o coco. Cação só presta no coco, mulher. Você sabe disso. Se não achou o Joca, por que não foi ver se os vizinhos empestavam um coco?
- Fui, homem de Deus, mas ninguém tinha. O que você queria que eu fizesse?
- Que desse seus pulinhos e... e...
Diga, moço. Quer alguma coisa, marrento?
- Quero. Primeiro, que o senhor me informe onde eu posso fazer uma refeição. Segundo, um caldo de cana com pão doce, caso não exista esse lugar. Agora, desculpe a brincadeira, mas essa história de peixe no coco deixou-me de boca cheia d’água.
- Lugar pra comer não existe aqui não. Tá doido? Tá querendo demais, marrento. Aqui foi onde o Judas perdeu as botas. Desculpe a brincadeira também, mas se o marrento tirar um coco no coqueiro daqui do quintal, não vai precisar do caldo de cana com pão doce.
- Ótimo. Vamos almoçar peixe, então.
- O marrento tem correias pra subir?
- Não. Não, mas adoro peixe. Vou subir. Vou dar os pulinhos que a sua senhora não deu.
O bodegueiro caiu na risada. A mulher e os biriteiros fizeram coro. Sansão também riu:
- Mostre-me o coqueiro, seu...seu.
“Davi, seu criado. O coqueiro é aquele tortão ali, ó. Tem mais de trinta metros. Pode arriar um cacho”, respondeu, dobrando a risada.
Sansão cubou o coqueiro, fez uns alongamentos e pimba! Em segundos, estava no olho do coqueiro, rindo pra baixo, torcendo os talos dos cocos.
Embaixo, os aboticados olhos da pequena plateia não saíam do olho do coqueiro. Imobilizadas, as testemunhas só se mexiam para juntar coco. Mas, de queixos caídos, oficial mesmo, ficaram, quando, na descida, no meio do coqueiro, Sansão fez finca pé, rodopiou e caiu em pé nos pés dos apalermados.
Trazia nos dentes um par de botas do tempo do ronca.
Almoçaram peixe no mais solene respeito por parte dos anfitriões, como se envergonhados da zombaria do coqueiro. Acabado o almoço, Davi quis saber o nome do novo amigo. Em seguida, perdeu para a curiosidade:
- Que mal pergunto, o que o amigo Sansão faz por estas bandas?
Sansão disse que vivia fazendo bico no meio do mundo e que estava ali empurrado por uma força do além. Aproveitou o embalo e perguntou se o amigo não conhecia alguém que precisasse de seus serviços:
- Só conheço uma pessoa que pode arrumar uma ocupação pra vosmecê. É a princesa. Mas ela viajou agorinha pra capital, volta no sábado, assim me falou um vaqueiro dela. Isso aqui pra nós, a princesa é a mulher...
Davi brecou a informação, porquanto a esposa o chamava do balcão da bodega.
A princesa viajante, posso antecipar, tem uma fazenda a cinco quilômetros do povoado. Herdou-a dos pais, aos dezenove anos. Pai, mãe e dois irmãos morreram envenenados. Veneno no almoço. Dizem até que foi a princesa quem pôs o veneno. Baseiam-se no fato de ela não ter provado do almoço, já que estava caçando. Certo é que a princesa está se revelando excelente administradora, passados três anos da morte da família.
A exemplo de Sansão, a princesa sofre de terríveis excitações nos períodos de luas grandes. Sempre sofreu, mas os filhos da Candinha dizem que as mensais palpitações não passam de remorsos advindos da tragédia familiar.
- Como eu ia dizendo, amigo Sansão, a princesa é a mulher mais gostosa deste fim de mundo. Minha nossa Senhora. A ruiva é uma jumenta. Passa o tempo dando coice nas mãos da molecada. Até em mim ela já deu coice, amigo Sansão.
O exagero erótico de Davi tem nome. É a segunda personagem central desta história.
O nome dela é Dalila.
Já desconfiava, não? Sabe como o Sansão e ela vão terminar? Não? Mas homem! Para que serviu, então, o monte de pistas espalhadas no texto?
Bem, Sansão agradeceu a acolhida e, encabulado, foi conhecer o vilarejo. Encabulado, posto o formigamento ter desaparecido na subida do coqueiro. À noite, Sansão dormiu na capela. No dia seguinte, quinta-feira, perambulou pelos arredores, almoçou numa granja e pernoitou no cemitério. Na sexta-feira, na calçada da capela, mal conseguia cochilar, porquanto as meninas ficavam olhando pra ele, como a reverenciá-lo.
Embora tenha ficado curioso com a tal princesa, Sansão decide ir embora no sábado. Prefere trabalhar numa cidade. Mesmo porque a excitação intempestiva o abandonara. Pensava assim, até Davi o arrancar da madorna:
- Sabe, amigo Sansão, você precisa me tirar duma enrascada. O Araçá todo tá chamando a gente de mentiroso. É uma mangoça só. Ninguém acredita no que você aprontou no coqueiro. Quero que faça aquilo na frente do povo. A gente cobra uma mufunfinha, você sobe no coqueiro, desce daquele jeito e pronto. O que me diz?
- Aquilo é muito simples, homem de Deus. Faremos assim, Davi. Consiga três paus de sete metros, faça uma trave na frente da bodega e diga ao povo que amanhã, oito horas da noite, eu ficarei meia hora me apresentando na trave. Arrume uma maneira de cobrar. O apurado a gente racha. O que me diz?
Davi só faz abrir sorridente balançado de cabeça. Acertados os detalhes, sete horas, e o terreiro da mercearia já está coalhado de gente. Sansão se dirige à bodega quando sente a extrema excitação. Normal, pensa, pois se dá conta da lua cheia.
Sete e meia, Sansão checa a trave, aprova e se alonga. Músculos à mostra e calça justinha exibem avantajada anatomia e faz a mulherada gemer. Sansão se retira e espera a regressiva contagem de Davi. Dali a minutos:
- 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já.
Feito uma flecha, Sansão aparece e fica fazendo acrobacia no improvisado trapézio. Uma manobra, um urro de delírio. Estatelada é pouco para exprimir o estado de espírito da assistência. Nem sequer escutam o barulho dum jipe. O jipe de Dalila. Alvoroçadíssima, Dalila não sente dificuldade em acomodar-se na frente de todo o mundo. Acomoda-se no momento em que Sansão fica em pé na trave.
Sansão a viu, mirou-a e começou a cair de costas, como se estivesse desmaiando. O “oh” de aflição cedeu lugar ao “ah” de alívio quando um duplo mortal deixou Sansão frente a frente com Dalila:
- Uau!
- Uau!
“Uau”, tornou a articular Dalila.
“Uau”, respondeu Sansão.
“Uau”, aprovou a ruivona de olhos azuis.
“Uau”, concordou o negrão de olhos verdes.
Os eloquentes uaus emudeciam a plateia. A lua iluminava a cena histórica. Uma chuvinha se aprontava.
Uau, um passinho, olhar fixo no parceiro, um encurvado de submissão. E assim, a sequência se repetindo, foram se envergando e se aproximando. E o povo se aperreando. Já se percebia o balbuciar de rezas. Terços nas mãos, lágrimas nos olhos e tremores nos lábios dominavam o ambiente quando o casal ficou do tamanho de um menino de cinco anos.
Até que, atingido o limite de envergamento, ouviram-se os clamorosos “sangue de Cristo tem poder”. O ápice ocorreu quando a dupla ficou de quatro pé, os pelos se levantaram e Dalila escancarou a paixão:
MIAU!
Miou, pulou no trapézio e dali alcançou o telhado da bodega.
Sansão triplicou o MIAU e fez o trajeto de Dalila.
Ficaram miando e quebrando telhas até o sol nascer. Na rua, população desperta, quem comia solta era a resenha do episódio.
A missa dominical enche a capela. Terminada a missa, a galera jovem se cumprimenta:
E aí, gato, tudo bem?
Beleza, gata!
Pense num povo criativo. Já lhe chamaram de gata?
É isso. Até outro dia.
Miau, gata.

Maio/15
TC. Ou melhor, TG