quinta-feira, 18 de junho de 2015

AS MOCHILAS DA CLAUDETE

AS MOCHILAS DA CLAUDETE

A raivosa mulher não deixou o sorridente homem entrar. O papo e a entrega da mochila se deram no portão da casa dela:
Tome! Cansei, disse a cara por acolá. Por acolá e por acolá, pois nem sequer olhou pra cara do homem.
O homem, o agora cara de amélia, não entendeu nada, já que, quatro horas atrás, estavam numa boa. Até namorar namoraram. Então a Claudete o chamou com urgência, urgentíssima. Mas, como bom cabrito, o cara de amélia não berrou. Mas riu, apesar dos pesares, ao ver uma garrafa de cerveja quente na mochila:
Que é isso, perguntou, olhando mais detidamente pra dentro da sacola. Minha Nossa Senhora, Clau. Exijo uma explicação. Olhe pra mim!
Não posso. Cansei de ser a outra, seu fuleiro, respondeu ela, abrindo a mochila mental de certos termos.
Taí sua bola de futebol, seu giz de sinuca, sua garrafa de cerveja, seu bloquinho de anotações e seus amigos bonequinhos. Não são com essas coisas que você se justifica com a mulher quando chega tarde em casa? Tava comigo mas diz que tava tomando uma cervejinha com os amigos, tava jogando sinuca, numa reunião e por aí vai. Não é assim? Afe! Ninguém merece!
Apesar dos pesares, a risada do infeliz dobrou. Dobrou e ele dobrou a cobrança. Que a Claudete tinha pouca instrução, era meio avoada, tinha parafusos a menos, ele sabia muito bem. Mas a danadinha se tornara a mulher da vida dele. Só que Kallil queria discrição enquanto não se separasse formalmente da mulher. Por isso, verdade seja dita, dava realmente aquelas desculpas para a esposa. Mas sempre conversava sobre esse assunto com a Claudete. Não devia, pois, ser essa a causa da fúria dela.
Olhe pra mim, Clau. O que está acontecendo?
A cara por acolá:

quarta-feira, 10 de junho de 2015

E AÍ?

E AÍ?

Olá, nobreza,
Vou colar três trechinhos de Toinho, seu Danado, romance que será publicado SÓ DEUS SABE QUANDO. O primeiro é um desabafo de furiosa leitora. Os outros são fragmentos do que ela tacha de perversão. Leiam e julguem.
E aí?

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... deixei de postar em razão de um comentário de certa leitora. Declarou ela que eu financiava a desagregação familiar, promovia a indecência sexual, bancava a poligamia. Disse ainda que dava graças por não conhecer tão desprezível verme. Terminou afirmando que meus escritos eram puros excrementos e que fediam tal qual a lombriga da traição. Pior viria na assinatura. Escreveu ela: até nunca mais, seu pervertido tarado. Num acesso de fúria, explodi o blogue e fui beber cachaça. Isso aconteceu num domingo. Até hoje tenho o costume de me embriagar no último domingo do mês.
Recebi a maior aprovação que um autor pode receber. Só que a fúria me impediu de entender o louvor. Passados alguns dias, fiquei certo de que as crônicas arranhavam o espírito da leitora e deixavam-na inquieta. Ela lia e ficava remoendo as palavras. Precisamente o que autor espera de leitor.

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... a terrível suspeita foi me invadindo, mas sob controle durante as ações preliminares. Por fim, o bicho subiu feito um foguete. Subiu, tentou se estabilizar, deu uma sacudida e passou uns cinco segundos descendo. Em seguida aprumou-se. Aprumou-se, mas ficou balançando, na maior oscilação. Nossa, Mirainha, era só o que eu sabia falar.
- Tenha calma. Relaxe. Isso é normal. Vai passar, homem. É a primeira vez que fica assim, seu danado?
Não tive coragem de fitá-la. Simplesmente balancei o sim. Sentia um nó na garganta, estava impotente pra tudo. Não suportava tamanha turbulência. Morria de vergonha de Mirainha. Até que ás lágrimas me murcharam de vez. Voltara a ser criança. Tão criança, que Mirainha julgou necessário aninhar-me nos peitos, ficar massageando-me o cabelo lourinho e repetir o “tenha calma, vai passar”. Mas não havia massagem que fizesse minha moral sorrir.
“Amarelasse legal, Toinho”, brincou mais tarde a Mirainha.
Foi no aconchego mamário daquelas asas que fui indo, fui indo e terminei pegando uma madorna.
O destrave do trem de pouso pôs-me em alerta. A aeronave voava baixinho. Estávamos chegando a Cristal, o pressentimento estava indo embora. Nunca tive tanto medo de morrer.
O avião aterrissou, descemos. Pedi desculpa a Mirainha pelo contratempo e implorei compreensão a fim de que ela guardasse segredo de tudo. Já imaginaram se os colegas soubessem que, com medo de o avião cair, eu havia chorado nos peitos dela?
- Essa foi a última vez que viajei de avião, Mirainha.
- Nossa, Toinho. Pois adorei a tua fobia. Não existe nada mais lindo para uma mulher do que ver um homem chorar nos seios dela. Teus uis e ais deixaram-me encharcada do mais primitivo prazer e lembraram-me antiga promessa: ser aviadora.
Achas, seu danado, que serei capaz de fazer subir um avião?

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... bom, para resumir a história, caro Toinho, estamos no apartamento dela, horizontalmente febris, salivas misturadas, ofegando na mesma passada, equipamentos testados e aprovados, aguardando tão somente a sirene do Ovídio para explodirmos, e eis que a poetisa se levanta e começa a declamar, não sem antes dizer que os versos seriam dela:
           “Um delírio divino, uma dança sagrada, conduzida num fluir tranquilo e suave, uma ondulação interminável através do qual os corpos fazem apenas o que deve ser feito um para ou outro, levando-os