quarta-feira, 10 de junho de 2015

E AÍ?

E AÍ?

Olá, nobreza,
Vou colar três trechinhos de Toinho, seu Danado, romance que será publicado SÓ DEUS SABE QUANDO. O primeiro é um desabafo de furiosa leitora. Os outros são fragmentos do que ela tacha de perversão. Leiam e julguem.
E aí?

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... deixei de postar em razão de um comentário de certa leitora. Declarou ela que eu financiava a desagregação familiar, promovia a indecência sexual, bancava a poligamia. Disse ainda que dava graças por não conhecer tão desprezível verme. Terminou afirmando que meus escritos eram puros excrementos e que fediam tal qual a lombriga da traição. Pior viria na assinatura. Escreveu ela: até nunca mais, seu pervertido tarado. Num acesso de fúria, explodi o blogue e fui beber cachaça. Isso aconteceu num domingo. Até hoje tenho o costume de me embriagar no último domingo do mês.
Recebi a maior aprovação que um autor pode receber. Só que a fúria me impediu de entender o louvor. Passados alguns dias, fiquei certo de que as crônicas arranhavam o espírito da leitora e deixavam-na inquieta. Ela lia e ficava remoendo as palavras. Precisamente o que autor espera de leitor.

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... a terrível suspeita foi me invadindo, mas sob controle durante as ações preliminares. Por fim, o bicho subiu feito um foguete. Subiu, tentou se estabilizar, deu uma sacudida e passou uns cinco segundos descendo. Em seguida aprumou-se. Aprumou-se, mas ficou balançando, na maior oscilação. Nossa, Mirainha, era só o que eu sabia falar.
- Tenha calma. Relaxe. Isso é normal. Vai passar, homem. É a primeira vez que fica assim, seu danado?
Não tive coragem de fitá-la. Simplesmente balancei o sim. Sentia um nó na garganta, estava impotente pra tudo. Não suportava tamanha turbulência. Morria de vergonha de Mirainha. Até que ás lágrimas me murcharam de vez. Voltara a ser criança. Tão criança, que Mirainha julgou necessário aninhar-me nos peitos, ficar massageando-me o cabelo lourinho e repetir o “tenha calma, vai passar”. Mas não havia massagem que fizesse minha moral sorrir.
“Amarelasse legal, Toinho”, brincou mais tarde a Mirainha.
Foi no aconchego mamário daquelas asas que fui indo, fui indo e terminei pegando uma madorna.
O destrave do trem de pouso pôs-me em alerta. A aeronave voava baixinho. Estávamos chegando a Cristal, o pressentimento estava indo embora. Nunca tive tanto medo de morrer.
O avião aterrissou, descemos. Pedi desculpa a Mirainha pelo contratempo e implorei compreensão a fim de que ela guardasse segredo de tudo. Já imaginaram se os colegas soubessem que, com medo de o avião cair, eu havia chorado nos peitos dela?
- Essa foi a última vez que viajei de avião, Mirainha.
- Nossa, Toinho. Pois adorei a tua fobia. Não existe nada mais lindo para uma mulher do que ver um homem chorar nos seios dela. Teus uis e ais deixaram-me encharcada do mais primitivo prazer e lembraram-me antiga promessa: ser aviadora.
Achas, seu danado, que serei capaz de fazer subir um avião?

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... bom, para resumir a história, caro Toinho, estamos no apartamento dela, horizontalmente febris, salivas misturadas, ofegando na mesma passada, equipamentos testados e aprovados, aguardando tão somente a sirene do Ovídio para explodirmos, e eis que a poetisa se levanta e começa a declamar, não sem antes dizer que os versos seriam dela:
           “Um delírio divino, uma dança sagrada, conduzida num fluir tranquilo e suave, uma ondulação interminável através do qual os corpos fazem apenas o que deve ser feito um para ou outro, levando-os
além da fronteira do êxtase na direção do plano sutil da multifacetada experiência mística.”
            Pulei da cama, Toinho. A esperada explosão surgiu em forma de desaforo. Fiquei vestindo a calça, tirando o terno da civilidade e lavando a roupa suja:
- Sabe de uma coisa, D. Ovídia, pegue o seu enviesado através, cubra a multifacetada de sua multifaceta, fique se multifacetando sozinha, pois o Ovídio vai embora.
            E fui. Com dois minutos estava arrependido, é certo, mas...
            Implico demais com o infeliz do através e com a droga da multifacetada. Ô duas palavrinhas chatas. Tenho de me livrar dessa besteira, amigo. Outra coisa. Esse poema é do Platão, Toinho. Aí chega a poeta, apropria-se da obra e ainda joga os palavrões na boca do cara. Platão jamais pronunciaria as duas indecências, seu danado.


            Junho/15
TC