segunda-feira, 20 de julho de 2015

NA CADEIRA DA DENTISTA

NA CADEIRA DA DENTISTA

Atenta e meiga. Além de linda. Ela tem o poder de me transformar. De destemido em receoso, de prosador em introvertido. Não me deixa falar, verdade seja dita. Mas adora a minha boca. E eu adoro a dela. Adoro é pouco. Amo tudo dela. E ela tudo de mim. Somos casados. Eu com ela e ela comigo, que fique claro.
Como fez especialização na Alemanha, e para me humilhar, é normal a Dra. Tânia me receber assim:
“Hallo herr Silva!”. E completa, com o olhar castanho vermelho de ironia: “Wie geht es dir?”.
Saúda e começa o ritual: dispensa a auxiliar, pede que eu me deite na horrorosa cadeira, prende meus braços com fita adesiva, beija-me na boca, tranca o consultório e dar início a escavação dentária.
O cerimonial nos excita, confesso. Sempre termina ela tirando a brancura da bata e vestindo a baita candura.
Tânia sabe que tenho medo de dentista. Sou policial, estou acostumado com barulhos de bala, mas morro de medo dos barulhinhos de dentistas. Naquele dia, acabávamos de almoçar, Tânia não mais consentiu a protelação. Faz sete meses, amor. Seus dentes estão reclamando uma limpeza. Marquei para as três horas, viu?
Cheguei na hora. A atendente, a Gilvanete, brincou:
- Pode entrar. Hoje é dia, hein! Fazer o quê?
Falou e sorriu, o olhar na maior mangoça. Achei até que a zombaria não provinha apenas de meu jeitão de preocupado. Estirei a língua pra ela e entrei.
            A doutora me cumprimentou em português. Em português, mas o castanho e o vermelho presentes:
- Olá, Sr. Silva. Como está? Deite-se, por favor. Abra a boca, por gentileza.
Receoso e taciturno, rasgo a boca, fecho os olhos, acendo as narinas. E escancaro a libido. A mangação chegou na gargalhada dela. Decorridos vinte minutos, a luz lá em cima guiando-lhe os instrumentos na minha boca, ela diz:
- Esse paciente ama a sua dentista?
Meus olhos disseram sim. Também o disseram as mãos tamborilando na cadeira.
            Estranhava, porém, Tânia ter me cumprimentado em português, ter deixado livre as minhas mãos, preferido não me beijar e esquecido de fechar a porta. Ela desprezara parte da cerimônia. Mas permanecia a pressa em se desfazer da bata. Desfazia-se e fazia-se luxuriosa. Levantou-me com um beijo e foi fechar a porta.
Não fechou: um marginal a empurrou com uma pistola 380.
Abstenho-me de transcrever

terça-feira, 14 de julho de 2015

O TROCO DE ÓCIO



O TROCO DE ÓCIO

Oi, pessoal,
Tá completando um mês que a gente não se fala. É que eu andava ocupadíssimo com certa tarefa: plantar um pé de ócio. Verdadeira odisseia, gente. Começou por encontrar a muda. Não que não exista aqui em Natal. Existe aos montões. Só que os donos escondem. Então consultei o Dr. Gugo. Onde encontrar um pé de ócio:
“Planta da família das sonoláceas, de clima tropical, facilmente encontrável em jardins e praças de regiões com baixa umidade e secura”. Dadas as características, peguei uma sacolinha de pano e viajei para o Planalto Central. A ideia era me hospedar na casa de meu irmão, em Santo Antônio do Descoberto- Go, e no dia seguinte colher uma muda da plantinha.
Pois bem, desembarco em Brasília, apanho um táxi e... Gente, passávamos defronte de uma praça enorme, quando vejo um jardim cheio de ócio. Pedi que o taxista retornasse, apeei-me, olhei ao lado e pimba. Entrei no jardim, peguei logo quatro mudas, botei-as na sacolinha e mandei o motorista voltar para o aeroporto. O cara caiu na risada:
- O senhor é maluco. Sorte que o segurança estava cochilando. Do contrário, estaria agora no xilindró. Pra que quer isso, homem de Deus?
- Que prédio é aquele, amigo?
- Que prédio é aquele? É a Casa Revisora, homem! E o senhor não ia pra Santo Antônio?
Pra encurtar a história, seis horas da manhã e eu já estava em casa perguntando ao Dr. Gugo como plantar um pé de ócio.
“Pegue um saquinho de pano, bote dois palmos de estrume de preguiça, prenda neles a raiz da muda, ponha mais dois palmos do estrume e enterre o saco num buraquinho. Deixe no saco um espacinho para pôr água. Em quatro dias o pé de ócio deve estar florando. Passe cinco dias colocando água. Sempre à tardinha. Não estranhe se ainda tiver água, pois o estrume de preguiça é muito vagaroso na bebida d’água”.
 Liguei para um conhecido, comprei o estrume, plantei o pé de ócio no jardim, tomei café e fui tirar um cochilo. Acordei e dei uma olhadela no ócio. Pois não é que a água tinha sumido! Caramba! O Gugo não disse que estrume de preguiça demora a beber água? Botei mais água e voltei pra rede. Acordei com uma cantoria no jardim. Eram dois bem-te-vis se esbaldando na água do ócio. Pior. Deixaram o saco todo tordo. Tornei a pôr água, ajeitei o saco e me deitei.
Depois disso só botei água que passarinho não bebe. Agora o ócio está florindo que é uma beleza. A partir de amanhã minha vida será colecionar anos e cultivar ócio. Tenho três pés ociosos. Se alguém aí quiser...
Foi o pezinho de ócio, gente, o culpado de eu não ter escrito mais nada. Não consigo ficcionar naquelas condições. A concentração vai a zero. Até tentei, mas não fui além de dois rascunhos de prosas. Fico pensando como cronistas de jornais conseguiam escrever todos os dias. Machado, Campos, Sabino, Drummond, por exemplo, escreviam direto. Tiravam dez em concentração.
A propósito, e como desintoxicante de minha xaropada, vou dar um copiar colar num texto de Humberto de Campos. O texto é de mil novecentos e quebradinhos. A linguagem é uma delícia. Manjem só.
Fiquem com o troco.
Julho/15
TC

O TROCO
(Humberto de Campos)
O Joaquim P'reira acabava de chegar da "terra" com o seu chapelão de abas largas e seu sólido jaquetão de veludo, quando "sô" Manoel Guimarães, proprietário da Padaria "Flor de Braga", o convidou para caixeiro.
- O essencial - avisou, entretanto, "sô" Manoel, - é que sejas honesto. O outro rapaz que eu cá tinha, pu-lo eu ontem na rua por m'haver deitado fora dois mil réis que dele não eram. Toma tu juízo, que, cá, comigo, prosp'rarás.
O Joaquim prometeu não bulir, jamais, em dinheiro da casa, e, dois dias depois, era admitido, com todos os sacramentos da rosca e da farinha de trigo, como caixeiro da "Flor de Braga". E estava já há uma semana no emprego, quando "sô" Manoel o chamou:
- "Sô" P'reira?
- Cá 'stou! - acudiu o Joaquim.
- Vá à casa do Almeida, no principio da rua, e receba esta conta de vinte mil réis.
E recomendou, prudente:
- Cuidado com o dinheiro!
O Joaquim pegou na conta, foi à casa indicada, recebeu uma cédula de vinte mil réis, e vinha, reto, no rumo da padaria, quando se encontrou com um conterrâneo, o Zé Moreira, a quem não tinha visto desde a chegada. Trocados os primeiros abraços, o Moreira convidou:
- Vamos solenizar o encontro! Arre, lá! Vamos cá à cervejaria!
Aceito o convite, foram os dois, beberam duas garrafas, trocaram notícias e saudades, e ia o Joaquim despedir-se, quando o Zé reclamou:
- E quem paga isso?
- Tu; ora essa!
- Mas eu cá não tenho um vintém; e se não pagares tu, iremos os dois bater à cadeia, o que é pior!
Amedrontado e arrependido, o Joaquim arrancou do bolso a cédula de vinte, pagou os mil e seiscentos da cerveja, recebeu dezoito mil e quatrocentos de troco, e ia pensando no meio de justificar-se perante "sô" Manoel, quando teve uma idéia, que pôs em pratica. Entrou na padaria pela porta lateral e, chamando o "Leão", um canzarrão que tomava conta da casa, pôs-se a brincar com ele, aos pulos, até que, de repente, soltou um grito.
- Que é isso lá? - trovejou "sô" Manoel, acorrendo.
Com os olhos em lágrimas, o P'reira contou o desastre:
- Foi uma desgraça, patrão! Imagine o senhôre, que eu vinha cá com o dinheiro na mão, uma cédula de vinte mil réis, e o cachorro avançou-me neles, e engoliu-os!
"Sô" Manoel franziu a testa, calculou o prejuízo, e, de um salto, estava diante do "Leão", empunhando uma garrafa de óleo de rícino. Auxiliado pelo Joaquim, abriu a boca ao animal, e, depois de purgá-lo, recomendou ao rapaz:
- Agora, fica-te cá, junto do bicho, à espera do dinheiro. Logo que ele o deite, segura-o. Meia hora depois estava "sô" Manoel de volta, a saber notícias do purgante:
- Já deitou o dinheiro? indagou do empregado.
O Joaquim, que esperava, ansioso, por esse momento, abriu a mão, e mostrou, desafogado:
- Todo, todo, não senhôre; até agora só deitou 18$400!
E entregou o troco da cerveja.