domingo, 30 de agosto de 2015

PALMAS PRO SENHOR, PAI

Olá, meus nobres,
Permitam-me a ousadia de postar um texto diferente. Trata-se de algo íntimo, dos cem anos de meu pai.

PALMAS PRO SENHOR, PAI

Qual é a receita para chegar a sua idade, Seu Euclides? Tem algum segredo? Benza Deus!
Nos últimos anos, tem sido frequente tal pergunta na vida de pai. Ele dá como resposta apenas um risinho. Mas se a conversa prosseguir, faz uma revelação acerca da crescida idade. Que revelação é essa? Direi no final deste textinho, embora não seja novidade para boa parte dos presentes.
Mas para quem acompanha a vida de pai, o risinho da resposta esconde princípios de condutas. O primeiro reside na saudação. Como vai você, fulano. É dessa forma que pai costuma devolver um cumprimento. E qual é o som mais cativante aos nossos ouvidos, senão o do próprio nome? Com a benfazeja cortesia, pai já seduz o interlocutor e pavimenta o caminho da boa conversa.
É difícil se segurar e não falar certas coisas, até porque comunicar é preciso. Mas quem disse que é fácil se conter e ouvir calado?
            Não é fácil, realmente. Mas pai habituou-se a ouvir antes de se pronunciar. Não interrompe ninguém. Assim, ele filtra a informação, reduz os mal-entendidos, elimina o estresse, eleva as defesas orgânicas e aumenta a sensação de paz. Tradução: saúde. Quantos anos a mais? Não sei. Dez dos cem?
            Pai utiliza outras atitudes mentais no sentido de angariar saúde, mas para não me tornar enfadonho, peço-lhes licença a fim de enumerar apenas uma, com a seguinte historinha como ilustração:
            Pai tomava conta de um sítio em Vila de Fátima. Seu João era o dono do sítio. Certo dia, uma senhora passava com uma bacia de roupa e pediu uma jaca a Seu João. O chão da jaqueira estava repleto de jacas. Umas emprestáveis, outras mais ou menos, algumas melhores. Seu João andou dum lado pro outro, avaliou os frutos e deu a melhor jaca à mulher.
Pai não esquece o nobre gesto de Seu João, e chama-se sensibilidade o fato de ele não o ter esquecido. A pessoa sensível não esquece essas coisas, gente. Daí, por ter sensibilidade, é incapaz de fazer com o semelhante o que não quer que o semelhante faça com ela. Assim se comportando, pai peneira o bem-querer, extingue o possível remorso, fortalece o organismo e alarga a percepção de paz. Tradução: saúde. Quantos anos a mais? Não sei. Dez dos cem?
            Esses costumes mentais não tornam pai melhor do que ninguém, menos ainda imortal. Oferece, porém, uma escolha comportamental digna de experimentação. Optar por ela são outros quinhentos. Afinal, viver é escolher. Pergunte-se e responda se vale a pena. Mas lembre-se de que a vida é presepeira. Quando imaginamos que temos as respostas, ela dá uma gargalhada e muda as perguntas.
Bom, a revelação de pai sobre a idade. Trata-se do médico dele, pessoal. Meu médico vem de longe e não cobra nada, costuma dizer pai. E acrescenta, dando força na última palavra. Meu médico vem de Nazaré.
Falar nisso, pai, estou vendo seu médico ali no portão. Acaba de chegar. Carrega uma coroa na cabeça com a inscrição Euclides Centenário. Caramba! Vem de braços com uma mulher. É mãe, pai. É mãe! D. Minervina. Vem ele e mãe. Olha só! Mãe está mandando o senhor ajeitar o boné. Ajeite esse boné, Euclides. Ô hômi ajé! Ela falou e começou a rir, pai. O médico também.
Estão beijando todo o mundo. Estão vindo pra cá.
Agora estão batendo palmas pro senhor, pai.
Palmas pro senhor, pai.

29 de agosto de 2015, nos cem anos de pai,
Tião Carneiro



            

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O VIZINHO DA ESQUERDA (Parede e meia com o surreal)

O VIZINHO DA ESQUERDA
                                        (Parede e meia com o surreal)

Dos vizinhos, só conhecem o som alto de músicas obscenas: o da esquerda sempre liga o som às dez horas da noite e treze minutos. Mas quando vão reclamar, o som é desligado. O peste advinha, brincam os recém-casados.
Até que naquela tarde-noite de sexta-feira, estão se apeando da moto no momento em que o vizinho está montando num táxi:
 “Quero falar com vocês”, falou e desceu do táxi.
“Que homem mais feio”, atropelou-se na voz o casal, abraçando-se, como a antever algo nocivo.
“Deve vir se desculpar pelas músicas bregas”, segredou Gracinha, a cabeça de Jorge concordando.
Em segundos:
- Preciso da conta bancária de um dos dois. Peguem logo esse dinheiro. Tem três mil e treze reais aí”, anunciou o homem feio, entregando a Jorge um ligado de notas:
- Quê? Mas...  Mas, senhor... Escute... Não estamos entendendo... O senhor podia...
- A conta, homem. Todas as noites escuto vocês fazendo planos para a reforma da casa. Quero ajudá-los. Adorei o seu cinto, meu jovem. Agora me dê a conta.
“Não podemos...”, gaguejou Jorge, mas foi brecado por encoberto beliscão, visto Gracinha antever o verbo aceitar depois do podemos. Gracinha mudou o verbo:
- Não podemos conversar dentro de casa?
- Não. Estou atrasado. Vou me encontrar com uma garota de programa.
- A casa precisa duma reforma, sim, mas, desculpe, o senhor não pode ter ouvido nossos planos. Primeiro, não conversamos sobre isso. Segundo, mesmo que tivéssemos o costume de conversar, o senhor não poderia escutar, desculpe de novo, dado o seu som alto, embora as músicas sejam excelentes. De qualquer forma, muito obrigada pela ajuda.
- Meu som alto? A senhora está enganada. Passo a noite assistindo a filmes pornôs, fumando maconha e bebendo. Agora, se me derem a conta, em minutos transfiro o resto do dinheiro.
Gracinha deu a conta. Deu logo a dela e a do marido. E os CPFs, por precaução. O feioso saiu. Os bonitões entraram. Ficaram se olhando e caíram na risada.
Gracinha e Jorge

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

MINHAS IMPLICÂNCIAS

MINHAS IMPLICÂNCIAS

Colecionar anos traz muita vantagem. Além da óbvia, por óbvio. Traz algumas desvantagens, também por óbvio. Mas... Fazer o quê? Dou-me como exemplo. Nas vantagens, né, pessoal! Implicante e ranzinza: era assim até me aposentar e de me dá conta de que me tornara colecionador. Ficava birrento com a Mônica, minha chefe, na reunião de começo do ano. Ela mirava a gente e soltava:
“Este ano não vamos colocar metas. Vamos deixar a meta aberta. Mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”.
Terminada a reunião, um colega, cabeção porreta, sempre desabafava:
“Que meta é essa!”
Mas nunca deixamos de atingir a meta. Em todos os anus a meta nova era coberta com novas metas.
Agora, aguador do tempo e livre do estresse metal, sou tão somente implicante. Mas implicância acriançada, cujo remédio está a oito metros de mim. Minha implicância é com os informativos on-line. A maioria faz da língua portuguesa gato e sapato na casa da mãe joana. O que tem de frase falsa, semântica manca e gramática apática não constam no gibi de seu ninguém.
Vejam o que acabo de ler na Tribuna do Norte, às 23 e 23 de hoje, 4 do 8 do 15: “Delator diz que pagou R$ 532 mil para o PT de propina de Belo Monte”. Confuso, não? PT de propina? Fica parecendo ser o PT um Pacotão Titânico, colossal, feito de material radioativo de nome propina e extraído dum Belo Monte. Bastava unir “de propina” ao PT para a confusão se desfazer: “... Pagou 532 mil de propina para o PT de ...” Simples, assim.
Outro negocinho que me deixa irritado é o emprego da palavra “jovem”. Dois carinhas botam o revólver na cabeça de alguém

A CULPA É DO DOCE-DE-LEITE

Sugiro, antes, a leitura do post anterior, MINHAS IMPLICÂNCIAS.

A CULPA É DO DOCE-DE-LEITE

Você já deve ter sentido no lombo as chicotadas oriundas da desorganização pelo qual está passando o nosso país. Acordamos na decadência e vamos dormir no descalabro. Desorganização, decadência e descalabro, sim! Esses três dezinhos não convivem conosco por acaso. São descendentes de outro demoníaco “d”. O “d” de doce-de-leite. O doce-de-leite – grafado assim mesmo, com iniciais minúsculas e todo pegadinho, pra ficar mais feio e, a partir deste ponto, chamado de o Tal – mexeu com tudo e com todos da cena brasileira. Sabem como teve início a nossa ruína?
Foi assim, ó!
Em janeiro de 2003, numa tarde de domingo, no sertão de Pernambuco, uma jovem muito bonita botou uma panela de leite no fogo. Botou, foi namorar e acabou esquecendo a bichinha. Na volta, desorientada, em vez de sal, tacou açúcar no pastoso em que o leite havia se transformado. Tacho devidamente frio, os admiradores da namoradeira provaram a guloseima.
“Que coisa boa! Excelente! Sensacional! Belíssima idéia, Cacilda.”
Conclusão: gostosa que só ela, Cacilda, não a pasta de leite, todos procuravam agradá-la. Cacilda!, a exclamação, surgiu naquela tarde, dos puxa-sacos de Cacilda.
Pois bem. Passados dois dias, Bião, sentado num banquinho, debaixo duma barraquinha, tirava leite de Helena,