quinta-feira, 6 de agosto de 2015

MINHAS IMPLICÂNCIAS

MINHAS IMPLICÂNCIAS

Colecionar anos traz muita vantagem. Além da óbvia, por óbvio. Traz algumas desvantagens, também por óbvio. Mas... Fazer o quê? Dou-me como exemplo. Nas vantagens, né, pessoal! Implicante e ranzinza: era assim até me aposentar e de me dá conta de que me tornara colecionador. Ficava birrento com a Mônica, minha chefe, na reunião de começo do ano. Ela mirava a gente e soltava:
“Este ano não vamos colocar metas. Vamos deixar a meta aberta. Mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”.
Terminada a reunião, um colega, cabeção porreta, sempre desabafava:
“Que meta é essa!”
Mas nunca deixamos de atingir a meta. Em todos os anus a meta nova era coberta com novas metas.
Agora, aguador do tempo e livre do estresse metal, sou tão somente implicante. Mas implicância acriançada, cujo remédio está a oito metros de mim. Minha implicância é com os informativos on-line. A maioria faz da língua portuguesa gato e sapato na casa da mãe joana. O que tem de frase falsa, semântica manca e gramática apática não constam no gibi de seu ninguém.
Vejam o que acabo de ler na Tribuna do Norte, às 23 e 23 de hoje, 4 do 8 do 15: “Delator diz que pagou R$ 532 mil para o PT de propina de Belo Monte”. Confuso, não? PT de propina? Fica parecendo ser o PT um Pacotão Titânico, colossal, feito de material radioativo de nome propina e extraído dum Belo Monte. Bastava unir “de propina” ao PT para a confusão se desfazer: “... Pagou 532 mil de propina para o PT de ...” Simples, assim.
Outro negocinho que me deixa irritado é o emprego da palavra “jovem”. Dois carinhas botam o revólver na cabeça de alguém
, levam tudo do infeliz, então o redator escreve: dois jovens assaltaram... (às vezes escrevem assaltou). Se a polícia os prenderem – o que é raríssimo –, o repórter emenda: os suspeitos foram... Noutras vezes, os caras trocam tiros com os policiais, e o jornalista escreve: os supostos assaltantes trocaram... Isso quando não usam “teriam trocado”.
Jovens, suspeitos, supostos, teriam um cacete. Bandidos, isso sim. Os assaltantes podem ser jovens, sei disso. Mas... Porra!
Certo é que avacalharam a língua. O prazer de manuseá-la e a gostosa e recíproca sensação do bem servir foram para o beleléu. A semântica brasileira é estuprada minuto a minuto, gente. O topless da última flor do Lácio mostra pelanca pura. Propina é entendida como algo pró Pina, a nobre praia do Recife. Corrupção é vista como ingênua corruptela de corrupião, a bela ave, o nosso imponente concriz. Exemplos não faltam. Daí que passo o tempo implicando com essas coisas.
Agora, não é pra me gabar não, mas cantei essa pedra faz um tempão, quando escrevi um texto sobre a criação do doce de leite. Começou dele, do doce de leite, o descalabro brasileiro. Doce de Leite é o título do texto. Para que não digam que estou mentindo, vou até publicá-lo abaixo desta postagem. Mas, entendam, por causa do tempo, certos fatos podem parecer desfocados.
Implico igualmente com certas notícias. Sabem o que o UOL publicou hoje, 4 do 8 do 15? Vejam. Um vereador de Campinas-SP protocolou o projeto de lei nº 229/2015, cujo objetivo é lembrar o 8 do 7, como o dia em que o Brasil levou a chapoletada de 7 a 1 da Alemanha. O projeto do edil (edil é bom) diz que doravante (também bom) o oito de julho será conhecido como o dia do “É gol da Alemanha”. Sacanagem não, pessoal. Vá ao Google, então? O nome do nobre edil do PSB é Jota Silva.
Bom, não aguentei a pressão dos 7 a 1, desliguei o computador, apanhei um celular de barzinho e fui tomar o remédio para a implicância, a oito metros de minha casa: a cervejinha da Vanessa e o papo com o cambista do jogo do bicho, Seu Antônio. Duas cervejas e dois dedos de prosa com a galera do bicho são suficientes para transformar implicância em encanto. Mas hoje eu ia me ferrando.
O Pedrão, meio bicado, chegou e foi logo me perguntando:
- Diga aí, Bastião. Sonhei contigo. Qual é o bicho que dá?
- Ah, amigo velho. Quem sonha comigo é viado, Pedrão.
O bicho pegou. Certamente achando que eu o estava chamando de viado, o Pedrão aboticou os olhos, deu uma coçadinha na cintura, a fim de checar a peixeira, e foi se achegando. Nisso apareceu a vantagem do colecionador de anos:
- Já ganhei não sei quantas vezes, Pedrão. Sonhando comigo dá viado na cabeça. É batata. Pode jogar sem medo. Se não der viado, eu devolvo o dinheiro. Bote pra mim, Seu Antônio, cinquenta reais no viado.
É evidente que tudo terminou em paz.
Tomei mais algumas cervejas, mandei a Vanessa passar a régua na conta, recebi o troco – dez reais -, despedi-me de Seu Antônio e...
Não cheguei a me levantar: uma moto riscou na calçada, e o carona já veio pra cima de mim. De cara limpa e se caqueando. Não contei conversa:
- Tomem, meus jovens. Só tenho esses dez. Se tivessem chegado mais cedo...
Falei, entreguei o troco e o celular de barzinho. O da frente ainda zombou:
- O bicho vai ser burro, coroa.
Não deu burro. Deu viado. Mas deu a semântica correta: “coroa”.

Agosto/15
TC


Obs. O doce de leite está aqui embaixo, www.pocilgadeouro.com. Experimentem.