segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O VIZINHO DA ESQUERDA (Parede e meia com o surreal)

O VIZINHO DA ESQUERDA
                                        (Parede e meia com o surreal)

Dos vizinhos, só conhecem o som alto de músicas obscenas: o da esquerda sempre liga o som às dez horas da noite e treze minutos. Mas quando vão reclamar, o som é desligado. O peste advinha, brincam os recém-casados.
Até que naquela tarde-noite de sexta-feira, estão se apeando da moto no momento em que o vizinho está montando num táxi:
 “Quero falar com vocês”, falou e desceu do táxi.
“Que homem mais feio”, atropelou-se na voz o casal, abraçando-se, como a antever algo nocivo.
“Deve vir se desculpar pelas músicas bregas”, segredou Gracinha, a cabeça de Jorge concordando.
Em segundos:
- Preciso da conta bancária de um dos dois. Peguem logo esse dinheiro. Tem três mil e treze reais aí”, anunciou o homem feio, entregando a Jorge um ligado de notas:
- Quê? Mas...  Mas, senhor... Escute... Não estamos entendendo... O senhor podia...
- A conta, homem. Todas as noites escuto vocês fazendo planos para a reforma da casa. Quero ajudá-los. Adorei o seu cinto, meu jovem. Agora me dê a conta.
“Não podemos...”, gaguejou Jorge, mas foi brecado por encoberto beliscão, visto Gracinha antever o verbo aceitar depois do podemos. Gracinha mudou o verbo:
- Não podemos conversar dentro de casa?
- Não. Estou atrasado. Vou me encontrar com uma garota de programa.
- A casa precisa duma reforma, sim, mas, desculpe, o senhor não pode ter ouvido nossos planos. Primeiro, não conversamos sobre isso. Segundo, mesmo que tivéssemos o costume de conversar, o senhor não poderia escutar, desculpe de novo, dado o seu som alto, embora as músicas sejam excelentes. De qualquer forma, muito obrigada pela ajuda.
- Meu som alto? A senhora está enganada. Passo a noite assistindo a filmes pornôs, fumando maconha e bebendo. Agora, se me derem a conta, em minutos transfiro o resto do dinheiro.
Gracinha deu a conta. Deu logo a dela e a do marido. E os CPFs, por precaução. O feioso saiu. Os bonitões entraram. Ficaram se olhando e caíram na risada.
Gracinha e Jorge
são jovens e estão casados há dois meses. Moravam ali havia uma semana. A casa precisava de boa reforma, diziam que era mal-assombrada, mas o baixo preço compensara tudo. Fariam a reforma aos pouquinhos.
- Viu o olhar dele, amor? Olhar de pua. Nossa! Engraçado, de perto, ele não parece tão feio. Boiola, não é? Disse que ia sair com um garoto de programa.  Se bem que...
- Garota. Ele disse que ia sair com uma garota, Gracinha.
- Garoto. Ele disse garoto, Jorge.
Os dois começaram a teimar e entraram no mérito do assunto. Jorge achava que não deviam ter aceitado o dinheiro, pois o vizinho devia ser empresário de drogas. Gracinha alegava que não era crime receber presente. De mais a mais, traficante algum iria se expor daquela forma. Mas concordaram em só mexer na grana quando a autenticidade substituísse a perplexidade. Esperariam até... Não fixaram o prazo, porquanto o celular de Gracinha emitiu um sinal de mensagem. Gracinha leu e arregalou os olhos:
- Veja aqui, Jorge. Meu Deus! É a transferência do homem. Quanto dinheiro! Ele é seu xará, amor.
O vizinho, Jorge Fortunato, transferira R$ 6.422,35 para a conta dela, Maria das Graças. Surpresa maior chegou em seguida, pelo sinalzinho do celular de Jorge: o mesmo valor fora transferido para a conta dele, Jorge Bezerra. E as surpresas foram se sucedendo nas sextas-feiras. Seguiam a lei de acrescer os dígitos em uma unidade. Dali a uma semana as contas recebiam R$ 7.533,46. Na outra, R$ 8.644,57. Na seguinte, 9.755,68.
“Incomodados” com a benesse, pensaram em passar a situação a limpo e, por algumas vezes, bateram na porta do vizinho. Timidamente, é verdade. A conclusão era sempre a mesma. Deve estar dormindo. Veremos amanhã.
Não demorou muito e os espantos semanais começaram a parir espantalhos mentais:
            Gracinha nem me chama mais pra ir ao shopping. Só quer saber de comprar bolsa. Não sai do médico. Olhar de pua, disse. Quer dizer, ela achou-se estraçalhada pelos olhos do vizinho. Tão verdade que soltou um “nossa!” Tachou o cara de boiola, mas empurrou um “se bem que”. Antevisão, quem sabe! Até a tagarelice de cama a mulher diminuiu.
            Jorge nem faz mais questão de sair comigo. Só quer saber de jogar sinuca. Não sai dos bares. O vizinho achou bonito o cinturão dele. Quer dizer, sentiu-se imantado pela cintura de Jorge. Disse que ia sair com um garoto de programa, mas Jorge afirma que o cara não é boiola. Estratégia, quem sabe! Até mudo de cama o homem está ficando.
E assim, dando papa a contextos, Jorge e Gracinha passaram doze sextas-feiras. Na décima terceira, apeavam-se da moto no momento em que o vizinho descia dum táxi:
            “Preciso fazer uma proposta pra vocês”, disse, cumprimentando-os com um aperto de mão. Jorge e Gracinha ficaram de boca rachada com o aspecto do protetor: o maltrapilho vizinho transformara-se no bem-arrumado Jorge. Convidado a entrar, o elegante acomodou-se e não perdeu tempo:
            - Obrigado. Sou paulista, tenho quarenta e três anos. Morador de rua nos últimos dez, milionário há um ano, condenado a morrer em quatro anos. Isso é suficiente, por enquanto. Se chegarmos ao acordo, debulharei a minha vida. Vejamos a proposta:
Quero que sejam meus secretários. Caso aceitem, espero morarmos juntos. Formaremos uma família. Meus aposentos podem ficar nos fundos de nossa nova casa, assim me sentirei mais à vontade para assistir aos meus filmes pornôs, acompanhados de uísque e de minha maconhazinha.
 Bom, o salário. Serão os rendimentos de nosso patrimônio, posto sermos uma família e eu estar perto de morrer. Mas tudo depende de aceitarem o último item da proposta: a senhora, Dona Gracinha, precisa ter um bebê o mais rápido possível. Vou amá-lo, muito, viu?
Suponho que estejam receosos da voz das ruas, haja vista o inusitado de patrão e empregados irem morar num mesmo lar. O ser humano gosta de pegar morcego na carruagem da vida alheia. Entendo isso, perfeitamente.  Mas podemos contornar a situação. Como tenho a idade de ser pai de vocês, faremos o seguinte. Em certos instantes, você, Gracinha, pode me chamar de painho. Quanto a você, xará, posso chamá-lo de meu filho.
“Então? Concordam?”, indagou o filantropo, rindo pela primeira vez, mostrando ser de ouro um dos caninos.
Gracinha e Jorge ficaram encarando o vizinho por muitos minutos. Jogavam pãezinhos para os contextos velhos, davam mingau aos novos, visitavam o passado. Assombração, sociopatia, excentricidade? Tudo que a mente criava o cérebro avalizava.
Tiraram a vista do vizinho. Mas não se encararam. Olhavam pro chão.
E então?

Agosto/15
TC