sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A ESSKUINNA DO MAL

A ESSKUINNA DO MAL
Trata-se de... Bom, fica na Av. 13, no bairro das Sextas, em Natal, Brasil, e vive sendo amolado pelas avenidas parceiras, a 11 e a 15. Localiza-se no vértice de conhecida figura geométrica. No bico dum ferro de engomar, pra resumir (espero que os sensíveis relevem o “dum” e o “pra”). A Esskuinna do Mal começou barraco de madeira e chamava-se A Esskuinna do Malro. Caldo de cana com pão doce e cachaça com tira-gosto de laranja constituíam a principal receita do empreendimento, embora dindin de batata doce e picolé de tapioca saíssem bem.
Filho de Seu Linácio, o possuidor de parte do ferro de engomar, atende por Mauro o dono de A Esskuinna do Mal. Seu primeiro cliente foi Leonardo. Leonardo é abridor de letras – não gosta que o chamem de pintor - e amigo de infância do Mauro. De infância e colega de copo. Passam o tempo arengando e se reconciliando. Difícil saber quem é mais bruto.
No segundo mês de funcionamento, Leonardo cisma de dar um nome à empresa e abre sugestivo letreiro, escrito a carvão, numa tira de compensado: A ESSKUINNA DO MALRO. Dali a uma semana era visível o acerto do marketing, notadamente no apurado da pinga, posto que a galera ficava bebendo e zonando com o nome da firma. “Mas gastam”, conformava-se a dupla turrona.
Até que num domingo à noite, Mauro e Leonardo fizeram um arranca-rabo. Bicado todo, Leonardo queria que Mauro pagasse pelo letreiro. Igualmente chapado, Mauro disse que não pagava, pois não havia mandado abrir as porras daquelas letras. Leonardo saiu bufando e dizendo que nunca mais viria na merda daquele biongo.
Na segunda-feira o boteco abre com o nome A ESSKUINNA DO MAL. Alguém apagara o RO do MALRO. Na terça-feira, Leonardo chega desconfiado ao quiosque, fica olhando pro chão e quebrando as juntas dos dedos. Sem sequer olhar para o amigo, Mauro lhe empurra uma larga. Leonardo emborca o copo. A paz estava feita.
A freguesia aumentando, alguém sugeriu que Mauro botasse pra vender umas cervejinhas. Outro pegou o embalo e disse que um tira-gosto cairia bem. No dia seguinte o boteco diversificava seus comes e bebes com cerveja, churrasquinho e tripa de porco assada. Mas a cerveja trouxe um inconveniente: o xixi. De tanto os ranzinzas falarem “não” para os clientes, Leonardo estampou numa cartolina. Num icista. Akui num tem onde verter água e peia molle fexa a borraxaria as 7 e 4 da noite.
Tempos depois, aniversário do amigo Leonardo e inauguração de um letreiro luminoso, Mauro bancou uma feijoada comemorativa. Dado o sucesso, ele estendeu a oferta para os domingos de fim de mês. Feijoada e arroz à vontade, um cartazinho nos pés das panelas alertava: Só bote no prato o ki fou comer. Num istrua. Despois lave o prato. Bote uma grana na caxinha pro mode comprar o fejão do mês ki vem.
Nessa toada comunicativa, e aqui acolá arengando com a clientela, os rabugentos
Mauro/Leonardo tangem o estabelecimento. Homem de visão, Seu Linácio decide ajudar o filho. Reforma o barraco e põe cinco metros de calçadas nas semirretas 11 e 15. Mais três anos e todo o oitão (15 metros de cada lado) se transforma em cintilantes calçadas cheias de mesas. Com este colorido detalhe, sugestão de Leonardo. O lado esquerdo, visto do antigo barracão, foi ornamentado com cordão encarnado, e o direito, com azul. Homenagem do pintor Leonardo ao pastoril nordestino. Ornamentação completa, diga-se. Piso, mesa, toalha, copo, prato, talher, fardamento dos garçons, tudo, enfim, tinha de ser da cor do cordão correspondente. No ambiente vértice predominavam as duas cores. Copo, por exemplo, tinha um lado encarnado e outro azul.
A Esskuinna do Mal é sinônimo de sucesso. É feito um primeiro andar e nele construído chiquérrimo restaurante, montada uma casa de câmbio e atualizada livraria, ainda que Seu Linácio, o chefão de tudo, não fosse chegado a leituras. Tem até estacionamento privativo, já que Seu Linácio preserva muito os frequentadores do restaurante e não seria de bom tom expor os carrões deles. Afinal, são pessoas assediadíssimas que ali se reúnem a fim de montar estratégias beneficentes para os desassistidos deste país. Entre iguarias e vinhos importados, por óbvio.
Impressionante o progresso nascido de A Esskuinna do Mal. No fim da calçada vermelha foi edificado um lava a jato e no extremo da calçada azul erguida uma lavanderia. Marido e mulher são os donos. O lava a jato do Brás e a lavanderia da Zila. A esquina oposta ao complexo empresarial - onde ficava a borracharia do peia mole - só anatomicamente lembra certos pneus, porquanto acomoda moderna casa de musculação, a “Esskuinnas do Bem”. “Esskuinnas”, e do bem, a fim de retratar os poliedros revelados pelas vestes das atletas da academia. Se bem que parábolas e retas também abundam naquele espaço físico.
Certo é que A Esskuinna do Mal só trouxe o bem para o bairro das Sextas.
Verdade que nos últimos anos a bandidagem tomou conta do pedaço. Mas isso é problema nacional. A Esskuinna do Mal não tem culpa. Há quem diga que o nome atrai os bandidos, mas a tese é carente de comprovação científica. Agora, é acintoso o número de assaltos nas calçadas do recinto. Chegou a cinco numa única tarde/noite. Celular é de que a rapaziada mais gosta. Rapaziada é gíria, já que a mulherada entrou forte na atividade. Mauro aconselha o pessoal a escondê-los na cueca ou calcinha, mas sempre existem os que pagam pra ver. Parece que necessitam da adrenalina de serem assaltados e divertem-se com a resenha pós-assalto. Paciência!
Mião é um. Ontem mesmo, passou pela seguinte situação, quando, no cordão azul, uma moto risca a três metros dele e desce do carona uma mocinha de arma em punho, mãos trêmulas, e é repreendida pelo piloto:
“Deixa de tremer, caraio. Não olha pros lados, cacete. Se ligue somente no vagabundo da frente. Mantenha a distância de atirar, porra. Veja se não tem outra coisa fácil de levar. Vumbora”!
Quinze segundos durou a cena.
A garota vestia uma camiseta com a inscrição “Em treinamento”. Por deboche, com letras azuis e vermelhas.
Ainda assim, o Esskuinna vive cheio de gente. Esse é um ponto merecedor de estudo. Pior. Como é que o povo ainda elege tal espaço como o melhor barzinho do país?

- É isso! O que achou, meu nobre? Qual é a nota? Na Alemanha também tem arrastão? Ou eles só fazem arrastões em outros países? Segundo a irmã de minha namorada, a... Sabe, meu nobre, a irmã de minha namorada tá doida por tu. Caí na besteira de mostrar uma foto tua e deu no que deu. Ela dorme com a tua foto nos seios. Imagine quando te conhecer. E aí?
A ESSKUINNA DO MAL, gente, foi escrito pelo meu primo Bião, aprendiz de escritor. Bião o lia na volta do aeroporto, onde ele e o irmão Mião tinham me apanhado. Havia anos morando na Alemanha, eu desconhecia o famoso Esskuinna do Mal. Mas pelo que acabar de ouvir...
- Nota 4, Bião. O texto é longo e desarticulado. E os alemães fizeram somente um arrastão na história. Os 7 a 1 no Brasil. Quanto à irmã de sua namorada, Bião... Escuta, Mião, você não está errando o caminho, não, cara? Ponta Negra não fica...
Brequei a frase, pois Mião estava brecando o carro ao lado de enorme calçada vermelha. Sentamo-nos e começamos a brigar, eu argumentando que não queria beber. Estava morto de cansado.
- Só duas, cara. Aí...
Não ouvi mais nada. Potente moto parava na nossa frente. Não esperei os passageiros se apearem: levantei-me e levantei as mãos. Mas logo me sentei:
- Calma, TC. Deixa de ser frouxo. É a minha namorada e a irmã.
A pilota tirou o capacete, sacudiu o cabelo e caminhou na minha direção. Mas parou e ficou me espiando e me espinhando com devassidão. Fiquei de boca aberta. Estava por ver mulher mais linda. Os olhos da moreninha mostravam muitos olhares. Porém o de desejo sobressaía.  Senti-me transportado para outro plano, como dominado por um ser sobrenatural, possuído pela mentalização da moça. Ela experimentava devastador êxtase, denunciava o leve tremor dos lábios. Não. Isso não é apenas abraços de libidos, tampouco um pacto erótico, pensava. A linda notou meu embaraço, é evidente. E a incontrolável agitação, é claro. Tanto que tomou a iniciativa e sussurrou:
- Não quero somente o seu corpo. Quero a sua alma.
Sorri. Então ela estirou as mãos, fez o biquinho de beijo e liberou ternura:
- Muito prazer. Sou a Luciafé, mentora transcendental deste ambiente.

Setembro/15 de soltas danações políticas, econômicas e tais que tais,
TC