terça-feira, 15 de setembro de 2015

VAZIOS E EM SILÊNCIO

Olá, nobres,
Precisam ler o texto abaixo. É da professora Nivaldete Ferreira, publicado na Tribuna do Norte. Deem um tempo nas prosas de diversão e se deliciem com um texto de reflexão. Subam no bote da autora e descortinem a paisagem empanturrada de bons silêncios.
Boa leitura,
TC

VAZIOS E EM SILÊNCIO
O caso dos imigrantes/refugiados/retirantes sírios tornou-se uma dantesca alegoria do extremo desamparo e desespero a que seres humanos podem chegar. E já chegaram outras vezes (índios dizimados e negros escravizados, por ex.), e muitos vivem assim nas Eritreias e Burundis do mundo e até mais perto de nós (esquecemos rápido os que tiveram suas casas marcadas com as letras SMH (Sec. Mun. de habitação) e derrubadas, lá na Vila União de Curicica-RJ, por ocasião da Copa 2014). Mas o horror de agora está diante dos olhos de todos que usufruem de internet e tv. E o clímax, por estes dias, foi a morte do menino sírio-curdo, Aylan. O facebook encheu-se de fotos, desenhos, montagens, lamentos e até acusações de hipocrisia. Mas quem não se comove com uma cena dessas?... Tudo está muito ‘perto’ de nós, é contemporâneo do nosso cotidiano, do nosso café, almoço e jantinha... Mas talvez o nosso sofrimento dure apenas o tempo da ler ou ouvir a notícia e postar a respeito. Não, não é que devamos ficar encolhidos a cada notícia triste. Dores, principalmente como essas, não devem nos emborcar jamais. Ao contrário, devem nos empurrar para um lugar melhor dentro de nós. Um lugar com mais luz, com mais ‘pouca coisa’, especialmente no que se refere ao mobiliário das bobagens -que às vezes ocupam tanto espaço em nosso espírito; às caixinhas enfadonhas do nosso ego infantilmente vulnerável, sempre disposto a reagir a tudo e a nada, até à careta que a criança faz por estar ofuscada com o sol. -Que é, chatinha? Fazendo careta para mim?!... Egos muito fortes (ou muito fracos?) fazem mais ou menos assim, pois se acham um verdadeiro sol, mesmo que artificial e do tamanho do olho de uma formiga... E haja cotovelada competitiva, haja barulho e vitrine para nossas pequenas excelências, tão excelentes que não podemos desprotegê-las jamais -são nossos frágeis animais de estimação...

Pois bem. O que resta como indagação, diante da ‘guernicação’ que tem sido a vida de milhões de pessoas neste mundo, é se isso, tão empurrado contra a nossa pele, vai servir para a construção de outra subjetividade. Porque de “nova subjetividade tecnológica”, a partir do twitter e do facebook, já estamos cheios. Talvez precisemos é ficar vazios. Em silêncio. Vazios e em silêncio para observar, sentir, pensar e, assim, podermos sair do mar de veleidades em que nos afogamos. Hora de subir ao bote rumo à praia do que os orientais chamam de “nosso Eu verdadeiro”.  Estou junto.

Natal, 11/09/15


Nivaldete Ferreira