segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Leitura da mão

Leitura da mão

Oi, gente,
Vou postar a prosa dominical de François. Porreta, como de costume. Só que Bião entende... Bião, vocês conhecem, não? O azoreta que vive mexendo nos escritos alheios. Já mexeu com Machado, Veríssimo, Sabino. Agora cismou com François. Segundo ele, o episódio da Leitura da mão não terminou como narrado. François teria encurtado o texto em virtude da publicação no Novo Jornal. Aconselhei-o a não se meter com o cara, mas o peste do Bião não deu bola.
Bom, leiam a prosa de François. Em seguida vejam a versão do Bião.
Boa leitura. Ao menos da primeira, né, gente?

Na Coluna Plural do Novo Jornal.
 Leitura da mão.
(Para Naide Rosado e Carlos Santos)
Tudo começou na feira do Patu. E estendeu-se para as outras feiras, numa romaria desassossegada. E tensa. Intensa. Assim foi a paixão de Samuel.
Os ciganos chegavam às cidades e procuravam as fazendas mais conhecidas para pedir arrancho. O Cangaíra, de Messias Targino. O Manuê, de Antônio Suassuna. O Açude Novo, de Chagas. Os Cajuais, de Quinquim Gomes. A Bola, de Silvestre Veras. A Jurema, de Pedro Regalado. Lages, de Oliveira Rocha. Os Campos, de Zenon de Souza. Timbaúba, de Osório Fernandes. A Lagoa, de Manoel Onofre.
E muitas outras. Os bandos liderados por um chefe conversador e convincente, geralmente deixavam marcas de suas paragens não muito recomendáveis. Zé Garcia era o mais famoso deles.
Mesmo assim, sempre conseguiam autorização para novas pousadas. Ninguém sabia a razão dessa leniência dos fazendeiros. Ou se alguém sabia, fazia-se ao desentendido.
A verdade de mesmo, motivadora dessa relação, onde as fazendas quase sempre sofriam prejuízos, não era outra senão a quantidade de ciganas jovens e bonitas. Belas e acessíveis.
“Num sei o que é que fulano tem com esses ciganos. No inverno do ano passado, eles roubaram três burros de carga e venderam armas com defeitos. E ele ainda hospeda essa gente”. Dizia a mulher de um desses fazendeiros.
Ocorre que não era para os ciganos e sim para as ciganas que o marido dela dava arrancho. Os prejuízos faziam parte da artimanha.
Os cabarés, das cidades pequenas, assustavam os fazendeiros. Não por doenças ou custos, mas por medo da falação. O bando arranchado de ciganos era uma mão na roda.
Foi num dia de feira, em Patu, que Samuel conheceu Honoralina, filha de Coralina com o cigano Honorato. Paixão que desceu feito balão incendiado. Quentura sem rumo.
Aproximou-se e pediu leitura da mão. Ao toque com os dedos suaves da jovem cigana, Samuel nem ouviu as previsões. A vista embaçada e o corpo trêmulo. Quando a cigana fechou a mão, o ganjão Samuel pediu quase chorando: “Leia mais”.
Na emoção, deixou de ouvir as previsões sombrias. E não deixou mais de seguir o grupo de Honorato, dissidente do grupo maior de Zé Garcia. Os dois brigaram e o grupo dividiu-se.
Estivesse Honorato em Umarizal, lá estaria Samuel. Sempre de mão mendiga a pedir leitura de Honoralina. Em Caraúbas, Pau dos Ferros, Apodi, Brejo do Cruz.
Por não ouvir as previsões de Honoralina, dada a emoção que dominava o corpo, fechando os ouvidos, Samuel não tomou as precauções que a cigana sugeria. “Uma desgraça lhe segue as veredas, ganjão. Desgraça de sangue de faca. Não fique na feira da chapada”.
Naquele Sábado, a discussão no bar de Apodi e três facadas no bucho. Tripas expostas, Samuel agoniza. A dona do boteco aproxima-se. Ele diz a última palavra, com a mão aberta: “Leia”. Té mais.

Não foi a última palavra, segundo Bião. Samuel respirava, sim.
Ocorre que a dona do boteco, D. Socorro, tinha conhecimento hospitalar. Daí ter preparado um soro caseiro, asseada as tripas de Samuel e as acomodadas nos respectivos ambientes. A ambulância demorou, é certo, mas providencial vaquinha pro combustível fê-la (epa!) sair cantando o melancólico sai da frente.
Samuel passou 3 dias entre a vida e a morte, café pequeno para quem tinha passado 10950 entre a morte e a vida - Samuel estava completando 30 anos no dia das facadas, sabia, François?
Foram em vão as súplicas de Honoralina para que o pai a permitisse visitar o gajô. Nonô era a carrancuda resposta. Até que com uma semana de hospital, Honorato soube que Samuel era filho único de ancião fazendeiro:
 - Já que você insiste, vá, Honoralina. Vá e seja amorosa com ele, viu?
“Como vai, ganjão?”, indagou Honoralina, arrepiando-se de cima a baixo ao ver o tronco nu do paciente. Honoralina costumava se perguntar para que servia peito de homem. Agora tinha a resposta, porquanto os peludos de Samuel estavam servindo para arrepiar as suas penugens. Arrepiamenta paixão que desceu feito balão incendiado. Quentura com rumo certo.
Samuel não respondeu. A resposta veio no olhar e no gesto de segurar as mãos de Honoralina. Segurou e pediu: “Deixe-me ler as suas mãos”.
Honoralina deu o sim de cabeça e
tornou a se arrepiar. Nem ouviu as amorosas previsões. A vista embaçada e o corpo trêmulo. Quando os quinze minutos da visita esgotaram, Samuel falou quase chorando: “Quero ler mais”.
Mas só leu na visita seguinte, e na seguinte, e na seguinte. Por não ouvir as previsões de Samuel, dada a emoção que dominava o corpo, fechando os ouvidos, Honoralina não se preveniu para o que Samuel lhe falava. “Uma bem-aventurança lhe segue as veredas, Honoralina. Bem-aventurança de amor de homem. Vá à feira da chapada”.
Naquele sábado, a confissão defronte da barraca de Silvestre e três beijos na bochecha. Coração exposto, Samuel sobe num tamborete e grita: “Cigano Honorato, amo a sua filha Honoralina. Estou lhe pedindo a mão dela em casamento. Quer casar comigo, amor”?
O sorriso de Honoralina a faz desmaiar. Mas deu tempo de todos ouvirem as primeiras palavras de aceitação: “Quero, ganjão. Quero ser lida o dia todo e todo o dia”.
Té mais.

Dezembro/15
TC