quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A CATITA

A CATITA

Uma catita! Olha aí, Natã!
Quem grita da porta da sala é Bruno, meu filho. Natã é meu neto. Lia um livro deitado no chão da sala. Ele, Natã, é claro. E eu sou eu, Tião. Dedava o computador, na área. Corri pra sala. Natã levantou-se e balançou o calção.
Não tava lá a catita.
Só nós três estávamos em casa. Fiquei ligado, com um chinelo na mão. Sou bom de chinelada. Naquelas baratas cascudonas, principalmente. Mas era a primeira vez que me armava de chinelo para bater numa catita. Natã correu atrás duma vassoura. Bruno ficou reinando com o recém-comprado esmaltefone na mão direita. Ainda bem que a catita não deu na vista. Já imaginaram o prejuízo?
Olha, vire e mexe e nada da catita. Vinte minutos de nada. Sair ela não saiu, não tá com a bexiga, concluímos. Bichinha de sorte. Se a Neneta estivesse aqui, ela ia ver o que é bom pra tosse. Neneta é boa nessas coisas. Já sei. Tá dentro do sofá, falei. Virem o sofá. Troquei o chinelo pela vassoura e fiquei de butuca.
Não tava lá a catita.
Só pode ter se socado numa dessas gavetas, palpitou Natã. As gavetas a que Natã se referia pertencem ao móvel da televisão. Como assim, se as gavetas estão fechadas? Impossível, falei, despedaçando o palpite dele. Mas pode ter uma brechinha. E ratazanas só querem uma brechinha pra se darem bem na vida, reconstruiu-se o danado.
Não tava lá a catita.
Nisso, chegam minha mulher, Tânia, Neneta e agregados. Contamos a história:
“Ruma de homens mortos nas calças. Ah se eu estivesse aqui. Amanhã vou comprar uma ratoeira”, disse Neneta, fazendo mangoça. E comprou. Comprou e armou-a com isca de queijo. No dia seguinte, a ratoeira amanheceu sem queijo.
Não tava lá a catita.
Aí foi a vez de Natã fazer a mangoça, porque, além do queijo, a danada comeu um pedaço de pão de torrada que estava na cozinha, sobre o armário:
- Amanhã, Neneta, além de pão e queijo, tu bota um pratinho com água perto da ratoeira:
- Pois diga! Destá. Amanhã a miserável me paga. Tão vendo a falta que o Sérgio tá fazendo? Esse cangaço não presta, não. Vou fazer um negocinho legal pra ela. Ela vai se rear longe.
Ficamos rindo da ira de Neneta. O riso aumentava por causa de minha prima, Solange. Solange ia chegando e pegou só o “rear longe”. Estabanada toda, não contou conversa:
- O que tem eu, Neneta? Vai te rear tu.
Cabem aqui duas explicações: Sérgio e o “negocinho legal” de Neneta.
Sérgio era o gato da gente. Sumiu vai fazer um ano. Sumiu, não. Renata, a noiva de meu cunhado, roubou o espertão. Quatro dias de sumido, e a capitã Renata aparece nas redes sociais com o Sérgio no colo. Sérgio mora em Curitiba. Com a Renata e meu cunhado, naturalmente. Sérgio é acostumado a pegar ratos, ratazanas, camundongos, guabirus, cobras criadas, moluscos e outros bichos. Sérgio é verdadeiro gato sapiens. Pegar inocente catitinha seria mão na roda pra ele.
O negocinho legal de Neneta é uma farofa
de queijo, presunto e veneno. Foi bolada pela impiedosa e o biólogo Natã. Descomunal covardia com a Solange (ficamos chamando a catita de Solange). É lógico que fui contra. Por mim, Solange ficava jantando aqui em casa. Minha ideia era fazer um churrasco, convidar os amigos, armá-los com cabo de vassoura e afins e, lá pras nove, dez horas da noite, chamá-los pra sala e ficarmos esporeando as coisas até a Solange aparecer. Aí cairíamos de porrada em cima dela. Mas eu estava decidido a aliviar, caso Solange passasse no meu setor.
Bem, fomos nanar. Essa vilania, gente, ocorreu ontem, 12 do 1 de 16. Eu havia alertado a Neneta para o fedor, na hipótese de a Solange não morrer longe, mas a resposta dela me satisfez:
“Besteira, Bastião. Localizo ela e enterro”.
Acordei, levantei-me e fiquei na expectativa da resenha, porquanto Neneta deveria fazer um moído daqueles. Nada de resenha. Solange escapara, pelo visto. Uma hora da tarde, começando o almoço, rodeei o assunto:
- Não tás sentindo uma catinguinha, não, Neneta?
Não havia catinga. Mas, por precaução, Neneta tampou as ventas e respondeu:
- Não! Cagaram, foi?
- Não, menina. Tô falando da catinga da Solange.
- Aquela bexiguenta nem provou da farofa, Bastião. Acho que ela ouviu as conversas da gente e cabritou.
Ri e vim pro computador a fim de contar a história pra vocês. Mas quando digito esse “vocês” escuto o grito da Solange, a minha prima:
- A catita!
Ouço o barulho do pessoal correndo pra sala, mas nem fui lá. Preferi encerrar o texto:
- Bota o almoço dela, Neneta. Lembre-se de que a pobre não jantou, viu?

Janeiro/16

TC