quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

PRISÃO, PAIXÃO E LIBERTAÇÃO

PRISÃO, PAIXÃO E LIBERTAÇÃO

              O insone rapaz vivia inquieto. Inquietação do bem, de certa forma, já que provinha da paixão carnal. A persistente imaginação começou quando quase atropelava uma jovem. Arranhou-se, o guidom da bicicleta se retorceu, mas a jovem saiu ilesa. O rapaz pediu desculpa. O sorridente “não há de que” deixou-o de libido arranhada e o romântico olhar retorceu-lhe o coração. Valera a pena os dez dias de férias na casa da irmã.
            O toque ao ampará-la, involuntariamente nos seios, deu início ao luxuriante processo. O riso, a voz, o andar, tudo dela lhe pareceu de outro mundo. Tentou coçar o queixo. Só então o percebeu caído. Recompôs-se ao ver a jovem lhe acenando da varandinha da casa. Acenava-lhe com a sacola de pão, como a lhe oferecer o primário alimento.
Faz uma semana que o rapaz circula pelos arredores da casa dos sonhos. Chega ao ponto de escoltar a moça até ao trabalho. Ela de ônibus, ele de bicicleta. Há dez minutos, ele a viu na janela do quarto. Mas ela não o viu, ou fez que não viu, fazendo fascínio de fingimento. Certo é que o esbarrão na jovem se converteu em idolatria, que virou obsessão. Tamanha idolatria o fez pegar oito rosas vermelhas, dar a elas o formato de coração e deixá-lo na escadinha da jovem. Mas, ainda que preso à obsessiva ideia de possessão, o rapaz se perguntava:
            Terá ela sorrido mesmo naquela tarde? Acenou-me, realmente? Será que o que dela pressinto é real ou tão somente a representação interna de meus sentidos? Será que o dito de que as aparências enganam nasce dessa representação? Será verdade que nada tem importância, exceto aquilo a que importância lhe damos. Será que, de fato, nada acontece por acaso? Ou o acaso é simples quiçá, porventura, talvez? Acaso é causa ou consequência? O certo é que a incerteza é a única coisa certa, que tudo começa na mente e que somos dela prisioneiros.
Agora, com determinadas dúvidas é que não podemos viver. Falarei com ela hoje. Não era a primeira vez
que o apaixonado tomava essa decisão. Mas era a primeira em que decidia sob efeito de certo estimulante. Entenda-se. Nosso amigo deixou cansada a bicicleta de tanto usá-la entre o lar da moça e o barzinho mais próximo.
 Bom, cinco horas da tarde, olhos na casa da moça, bicicleta ao lado, entre arrotos filosóficos e bafos alcoólicos, eis que o sono termina prendendo o rapaz. Simples cochilo, na verdade. Desperta, vê a garota na calçada, mas quem adormece agora é bravura que a bebida lhe dera. Angustiado, baixa a vista, mas torna a erguê-la em razão da ordem:
- Polícia! Polícia! Mãos na cabeça! Mãos na cabeça, vagabundo! Passou a tarde aqui planejando o que?
- Quê?!
Só restou ao miserável cumprir a ordem, ver um rapaz beijando a moça e escutar a acusação do beijador:
- Faz dias que esse cara ronda por aqui, policial. Tira plantão na frente da casa de minha noiva. Acho até que é o estuprador que falam por aí. O senhor deve levá-lo pra delegacia.
- Detesto injustiça, Renato. O estuprador, dizem, é branquelo e magro. Muito diferente desse negrão musculoso. Misericórdia!
- Qual é, Fernanda, vai proteger esse imbecil agora? Negrão musculoso, é?
Enquanto o casal discutia, o rapaz abria a pochete e mostrava a carteira de agente federal ao policial. Estava de férias naquele lugar. Difícil seria explicar que o constrangimento estava se dando por causa de uma coisinha chamada paixão. O policial pegou a carteira, mas preferiu escutar a jovem antes de se pronunciar:
- Não se trata de proteger ninguém, Renato. E negrão musculoso, sim. E muito bonito, se quer saber. E meu protetor, se quer continuar sabendo. E romântico, coisa que você não é. E...
- E apaixonado pela senhora, moça. O Sr. Fernando é agente federal. É a paixão dele que tira plantão aqui. Não cabe prisão, Seu Renato. Cabe libertação, isso sim.
Todos riram com o discurso do policial. Exceto um. Mas especialmente dois.

Janeiro/16
TC