quarta-feira, 27 de abril de 2016

SALVOS PELO LIVRO

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SALVOS PELO LIVRO

Podia ser uma simples virose, mas, precavida, Cláudia julgou por bem ir ao médico, o Dr. Antônio, seu médico e brincalhão vizinho.
“Dr. Antônio está 50 minutos atrasado, Claudinha”, disse Gilvanete, a atendente da clínica Sapiens. “Tem nada não, Nete. Vou aproveitar para terminar de ler um livro”, conformou-se a compreensiva Cláudia.
Cláudia sentou-se, passou a vista nos pacientes – cerca de vinte, a maioria cutucando o celular - e se pôs a ler. Nem começou, na verdade, porquanto um casal, de capacete na cabeça, acabava de dirigir-se à recepção. Exceto as pessoas conectadas às redes sociais, as demais se entreolharam, antevendo um assalto.
Mas não era. Simples distração do casal. Tanto que tiraram o capacete e pediram desculpa. O alívio veio nos sorrisos amarelos dos presentes. Não sei aí onde você mora, leitor, mas aqui em Natal é rotineiro esse tipo de assalto, os tais arrastões. A bandidagem não escolhe ambiente, hora e coisas que tais. Assaltam de cara limpa e saem chupando o dedo. Não está nada fácil para os do bem.
Agora sim, Cláudia se dispôs a ler, embora estivesse sentindo leve tortura. O motivo era a inhaca do moço ao lado, representante de algum laboratório, denunciavam-lhe a vestimenta e a maleta sobre as pernas. A coisa atingiu-a em cheio quando o cara ergueu o braço e falou ao celular: “Tá tudo dominado, mas se tu não...”
Além de sujismundo é displicente, do contrário não estaria usando meias de cores distintas, comprovou Cláudia, observando a amarela e cinza, e já decidida a trocar de assento. Não precisou, contudo, já que o rapaz se levantou e foi sentar-se próximo a um presumível colega, haja vista a identidade de postura entre os dois.
Até que enfim Cláudia começou a ler uma das crônicas do livro. Mas, de riso raso, ficou o tempo todo com a mão na boca a fim de obstruir a gargalhada. Engraçado que a divertida prosa que acabara de ler tinha o sintomático título de As Risadas da Clínica. Tudo a ver, pensou, fechando o livro, olhando em volta. Nisso, voltou a tampar a boca ao mirar o colega do fedorento. O motivo é que a criatura parecia muito com a ilustração da capa do livro, o Toinho do título: louro, calça cinza, blusão vermelho e tênis. Cagado e cuspido, como dizem no meu interior, riu por dentro a arguciosa Cláudia. Bastião não vai acreditar quando eu...
Agora preciso esclarecer duas coisinhas: o livro em questão chama-se Toinho, Seu Danado! É de minha autoria, como sabem alguns de vocês. A propósito, a primeira tiragem foi de 7 exemplares. Dei 1 ao prefaciador, 1 ao jovem escrevente João Lucas e vendi 2. Restam-me 3, portanto. Se tiverem interesse basta entrar no tcarneirosilva@gmail.com que faremos negócio.
A segunda coisinha refere-se à risonha leitora, a Cláudia. Cláudia é caixa de um mercadinho parede e meia com a minha casa e, vejam só, a mãe do João Lucas, o escrevente acima citado. É a ela a quem compro cigarro e bolo de batata.
Bom, Cláudia fez a reticência no “Bastião não vai acreditar quando eu...”, tornou a contemplar os supostos representantes farmacêuticos, lembrou-se de certas passagens do Toinho, seu Danado!, a tecla do riso foi cedendo lugar à ficha da preocupação e... Pimba! Caiu a ficha: aquela dupla ia fazer um arrastão ali. Cláudia ficou olhando pra cima e, mentalmente, releu tópicos do livro. Lembrou-se destes dois:
Desconfie das reticências, porquanto reveladoras.
O fedorento falou assim ao celular: “Tá tudo dominado, mas se tu não...”  O peste ficou reticente, como se o interlocutor estivesse desistindo do combinado. Concordo com o livro. Desconfio, sim.  
Não tire conclusões da simples leitura de um período, de um parágrafo. Encontre o contexto, converse com as entrelinhas. Vá além

sábado, 23 de abril de 2016

PELA LINDÍSSIMA GAROTA...


Concentração, Curiosidade, Curioso
Imagem google


PELA LINDÍSSIMA GAROTA...

Saíam os primeiros pedaços da picanha, o feijão verde fervia, a peixada tomava tempero. Estava quase tudo pronto, por assim dizer. Fernanda preparava o vinagrete e coordenava os afazeres culinários. Tevê na garagem, a galera já molhava o bico, embora a cerveja ainda não estivesse estúpida. Mas deveria estar quando começasse a sessão do impeachment da presidente Dilma.
Fernanda adora festas populares, democráticas. De futebol a política, a festeira vai pra rua e toma partido. Sai do caminho dela quem falar mal do Fluminense e da Seleção Brasileira. E do PT. Doida por futebol, assim como os pais, ela zoa com as amigas e diz que deve à bola a vinda ao mundo. As amigas caem na risada com o complemento: Nasci no dia dez de março de 1971, a onze dias de completar nove meses do Brasil 4X1 na Itália. Simpática e brincalhona é a capetinha.
Fernanda cortava cebolas para o vinagrete e chorava lembranças daqueles movimentos. Uma delas deixou marcas no coração dos treze aninhos da politizada Nanda. Aconteceu nas Diretas Já, no ano de 1984, em Natal. Fernanda abaixou-se a fim de apanhar a bandeira que lhe escapara das mãos e acabou derrubando o saco de pipoca do menino ao lado. Abriu a boca para pedir desculpa, mas som algum saiu. Também reprimenda alguma saiu da escancarada boca do menino. Apenas o olhar dele falava. Ou melhor, esfaqueava-lhe o coraçãozinho. Emudecida, restou a Fernanda sorrir, estirar a língua e caminhar ao lado da mãe. Mas olhando pra trás.
Fernanda nunca mais foi a mesma, pois o olhar do miúdo vive a persegui-la. Do nada, aquele olhar surge e sapeca-lhe estimulantes sentimentos. “De tanto pensar naquele garoto, o Juiz Supremo vai me matar de vergonha se quebrar meu sigilo sentimental”, costuma confessar ela a uma das amigas, a Jaqueline. Esta pega o embalo e entra no clima: "Então você deve se antecipar, ajoelhar-se, fazer uma delação premiada e acusar as líbidos. A sua e a dele. A sua não fica recebendo propina da do menino misterioso"?
Outra lembrança, mas essa de marca na vestimenta, ocorreu há dois meses. O protesto

sábado, 16 de abril de 2016


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REVELAÇÕES NUM JANTAR GOLPISTA

     Tomavam contentamento, bebiam regalo, sorviam deleite. E saboreavam vinho. Faziam hora para o jantar. A piscina aplaudia. Paulinha achou por bem provocar o pai:
     - Então, pai! Pela milésima vez: o impeachment da presidente Dilma é golpe ou não?
     “Veja, minha filha”, retrucou o Dr. Paulo, fazendo sintomática pausa, dando uma chupada no charuto...
    - Veja você, pai. Você é um dos mais conceituados juristas brasileiros. Estamos brincando, jogando conversa fora, esperando o jantar. Por que, então, você fica relutando em responder tão singela pergunta? Você é muito fechado. Até em casa tem medo de se expor. Você passa a impressão de que a mente racional vive de facão em punho pronta para decapitar seus termos emocionais. Olha só. Como você sabe, a mãe e a Rita são favoráveis ao impeachment. Eu, o Paulinho e a Vanessinha somos contra. E o você? Não dá nem uma pista, homem? Não entendo como uma criatura vive sem emoções, com zero de adrenalina. Permita-se uma transgressãozinha, pai. Você está um mala e tanto, viu? Precisa dar uma chacoalhada na vida, indignar-se com alguma coisa. Ponha brilho no olhar, pai. Desculpe, mas...
     - Entenda, Paulinha...
     - Pai! Misericórdia! Contra ou a favor?
     O titubeante Dr. Paulo foi salvo pela cozinheira, a Vanessinha:
     - Com licença. Trago logo o salmão ou a sopa, Dr. Paulo?
    - O salmão na mão direita, a sopa na esquerda. Mas pode ser o contrário, a fim de que não vejam viés ideológico na minha construção.
     Vanessinha sorriu e afastou-se.
     Ficaram o viço da idade, o frescor do banho, o cheiro da colônia. E um decote...
    - Que pergunta idiota dessa garota. A sem noção veio nos servir pintada pra guerra, notaram? E por que ela não perguntou à senhora, D. Paula, a dona da casa?
     - Não sei, Rita. A Vanessinha deve estar meio atabalhoada hoje.
    “Pode ser, mãe, mas não há segundas intenções nisso. A Vanessinha é de uma lealdade a toda prova. Gente boa demais”, comentou o Paulinho, irmão gêmeo da Paulinha, e namorado da falastrona Rita.
     - É verdade, Paulinho. E sabem duma coisa? Julgo meio golpistas certos comentários feitos pelas costas, sabiam?
      “Nossa, Paulinha! Falei por falar. Adoro a Vanessinha”, desculpou-se a Rita.
       Esses foram os comentários que vaquejaram até a cozinha o rebolado da gloriosa Vanessinha.
      Dali a segundos, sem mais nem menos, Paulinha beijou a mãe, cochichou algo, levantou-se, deu solene boa-noite e foi para os aposentos. Passavam minutos das sete horas daquele sábado.
“Caramba! Quem devia ter ficado chateado era o pai, não ela”, comentou o Paulinho.
Liga não, Paulinho. Isso é coisa de mulher, relevou o Dr. Paulo.
“Por que de mulher? Só mulher se sente indisposta, por acaso? Que coisa!”, irritou-se a D. Paula, tomando as dores da filha.
- Calma, mulher. Fiz somente um comentário. Que coisa!
Se por causa do risinho safado, se pela imitativa entonação do “Que coisa”, se em razão das duas coisas, não se sabe. Certo é que a D. Paula pegou ar com as palavras do marido, levantou-se, deu imponente boa-noite e se dirigiu aos aposentos.
“Nossa! Até a mãe? Essas mulheres... Sei não, viu, pai?”, brincou o Paulinho, beijando o cabelo da Rita.
- Que que tem essas mulheres, Paulinho? O risinho irônico do senhor, Dr. Paulo, expulsou D. Paula. Culpa de sua insensibilidade. Os homens deviam prestar mais atenção na forma como se dirigem às mulheres. Não viu você, Paulinho?
- Eu? Agora pronto! O que eu disse demais, amor?
- Nossa! Até mãe? Essas mulheres... Sei não, viu, pai! Você falou assim, Paulinho. Abarrotado de preconceito, o deboche saindo pelo ladrão.
- Não tive essa intenção. Que implicância, querida? O que devo fazer para me redimir?
“Esquece”, disse a Rita, levantando-se, dando formal boa-noite, abrindo a bolsa, andando para o carro. Paulinho quase caiu, mas conseguiu abrir a porta do carona. Saíram, certamente beijando-se ao contrário.
Dr. Paulo ficou sozinho e passou a arranhar o disco do “Caramba, como pode? Não é possível, não mais de 7 minutos”.
“Ué! Cadê todo mundo, Dr. Paulo?”, quis saber a Vanessinha, salmão na mão esquerda, sopa na direita.
“Piraram, Vanessinha. Todo mundo pirou. Não vamos jantar. Guarde as coisas e me traga uma garrafa de uísque”, lamentou-se o Dr. Paulo, sorrindo sem graça.
Vanessinha sorriu de volta, graciosamente, é claro, e afastou-se com um:
- Sério!  Se a sua cota são duas taças de vinho? Vou pegar.
Ficaram o viço da idade, o frescor do banho e o cheiro da colônia. E um decote...
Em minutos:
- Pronto, Paulo. Posso sentar-me e tomar um vinho com você?
O pobre do Dr. Paulo não respondeu. Até porque a Vanessinha falou e sentou-se. Não respondeu, mas o queixo caiu como resposta: não se lembrava de a Vanessinha