sábado, 16 de abril de 2016


Banco de Imagem - mulher, em, um, jantar romântico. Fotosearch - Busca de Fotografias, Fotografia Mural, Fotos Clipart

REVELAÇÕES NUM JANTAR GOLPISTA

     Tomavam contentamento, bebiam regalo, sorviam deleite. E saboreavam vinho. Faziam hora para o jantar. A piscina aplaudia. Paulinha achou por bem provocar o pai:
     - Então, pai! Pela milésima vez: o impeachment da presidente Dilma é golpe ou não?
     “Veja, minha filha”, retrucou o Dr. Paulo, fazendo sintomática pausa, dando uma chupada no charuto...
    - Veja você, pai. Você é um dos mais conceituados juristas brasileiros. Estamos brincando, jogando conversa fora, esperando o jantar. Por que, então, você fica relutando em responder tão singela pergunta? Você é muito fechado. Até em casa tem medo de se expor. Você passa a impressão de que a mente racional vive de facão em punho pronta para decapitar seus termos emocionais. Olha só. Como você sabe, a mãe e a Rita são favoráveis ao impeachment. Eu, o Paulinho e a Vanessinha somos contra. E o você? Não dá nem uma pista, homem? Não entendo como uma criatura vive sem emoções, com zero de adrenalina. Permita-se uma transgressãozinha, pai. Você está um mala e tanto, viu? Precisa dar uma chacoalhada na vida, indignar-se com alguma coisa. Ponha brilho no olhar, pai. Desculpe, mas...
     - Entenda, Paulinha...
     - Pai! Misericórdia! Contra ou a favor?
     O titubeante Dr. Paulo foi salvo pela cozinheira, a Vanessinha:
     - Com licença. Trago logo o salmão ou a sopa, Dr. Paulo?
    - O salmão na mão direita, a sopa na esquerda. Mas pode ser o contrário, a fim de que não vejam viés ideológico na minha construção.
     Vanessinha sorriu e afastou-se.
     Ficaram o viço da idade, o frescor do banho, o cheiro da colônia. E um decote...
    - Que pergunta idiota dessa garota. A sem noção veio nos servir pintada pra guerra, notaram? E por que ela não perguntou à senhora, D. Paula, a dona da casa?
     - Não sei, Rita. A Vanessinha deve estar meio atabalhoada hoje.
    “Pode ser, mãe, mas não há segundas intenções nisso. A Vanessinha é de uma lealdade a toda prova. Gente boa demais”, comentou o Paulinho, irmão gêmeo da Paulinha, e namorado da falastrona Rita.
     - É verdade, Paulinho. E sabem duma coisa? Julgo meio golpistas certos comentários feitos pelas costas, sabiam?
      “Nossa, Paulinha! Falei por falar. Adoro a Vanessinha”, desculpou-se a Rita.
       Esses foram os comentários que vaquejaram até a cozinha o rebolado da gloriosa Vanessinha.
      Dali a segundos, sem mais nem menos, Paulinha beijou a mãe, cochichou algo, levantou-se, deu solene boa-noite e foi para os aposentos. Passavam minutos das sete horas daquele sábado.
“Caramba! Quem devia ter ficado chateado era o pai, não ela”, comentou o Paulinho.
Liga não, Paulinho. Isso é coisa de mulher, relevou o Dr. Paulo.
“Por que de mulher? Só mulher se sente indisposta, por acaso? Que coisa!”, irritou-se a D. Paula, tomando as dores da filha.
- Calma, mulher. Fiz somente um comentário. Que coisa!
Se por causa do risinho safado, se pela imitativa entonação do “Que coisa”, se em razão das duas coisas, não se sabe. Certo é que a D. Paula pegou ar com as palavras do marido, levantou-se, deu imponente boa-noite e se dirigiu aos aposentos.
“Nossa! Até a mãe? Essas mulheres... Sei não, viu, pai?”, brincou o Paulinho, beijando o cabelo da Rita.
- Que que tem essas mulheres, Paulinho? O risinho irônico do senhor, Dr. Paulo, expulsou D. Paula. Culpa de sua insensibilidade. Os homens deviam prestar mais atenção na forma como se dirigem às mulheres. Não viu você, Paulinho?
- Eu? Agora pronto! O que eu disse demais, amor?
- Nossa! Até mãe? Essas mulheres... Sei não, viu, pai! Você falou assim, Paulinho. Abarrotado de preconceito, o deboche saindo pelo ladrão.
- Não tive essa intenção. Que implicância, querida? O que devo fazer para me redimir?
“Esquece”, disse a Rita, levantando-se, dando formal boa-noite, abrindo a bolsa, andando para o carro. Paulinho quase caiu, mas conseguiu abrir a porta do carona. Saíram, certamente beijando-se ao contrário.
Dr. Paulo ficou sozinho e passou a arranhar o disco do “Caramba, como pode? Não é possível, não mais de 7 minutos”.
“Ué! Cadê todo mundo, Dr. Paulo?”, quis saber a Vanessinha, salmão na mão esquerda, sopa na direita.
“Piraram, Vanessinha. Todo mundo pirou. Não vamos jantar. Guarde as coisas e me traga uma garrafa de uísque”, lamentou-se o Dr. Paulo, sorrindo sem graça.
Vanessinha sorriu de volta, graciosamente, é claro, e afastou-se com um:
- Sério!  Se a sua cota são duas taças de vinho? Vou pegar.
Ficaram o viço da idade, o frescor do banho e o cheiro da colônia. E um decote...
Em minutos:
- Pronto, Paulo. Posso sentar-me e tomar um vinho com você?
O pobre do Dr. Paulo não respondeu. Até porque a Vanessinha falou e sentou-se. Não respondeu, mas o queixo caiu como resposta: não se lembrava de a Vanessinha
tê-lo chamado de Paulo e você nem sequer uma vez. Não lhe dava tal abertura. Certo é que vivia caído por ela, mas evitava olhá-la para que o olhar pidão não o traísse. Que Deus o livrasse de tamanho escândalo. Agora ela ali, frente a frente com ele, a jovialidade o alvoroçando, o sorriso de sim, a voz de cama. E aquele decote. A Paulinha tinha razão. Precisava pintar o olhar.
Dr. Paulo serviu-se duma larga, deu uma tragada no charuto, encarou a Vanessinha e... E ouviu:
- Ah, Paulo. Tenho um fetiche. Vivo doida pra dar uma tragada no seu cheiroso charuto. Pode ser depois, tá? Adoro ele. E você, é lógico. Arrepio-me todinha quando o vejo pela televisão no Tribunal. Às vezes me distraio e não absorvo as suas palavras. Aprendo muito com você, Paulo. Ontem fui as alturas ao ouvir você falando assim. “Dir-se-ia”, “Estou a estudar o processo”, “Mas assim não o fez”. Isso deixa-me excitada e a imaginar o quanto você pode me ensinar em áreas mais íntimas.
No automático, o atônito Dr. Paulo tomou a segunda de uísque. A sapeca Vanessinha também. Engoliu o vinho e engatou uma segunda, debruçando-se, segredando, olhos nos olhos, decote sob outros olhos:
- Desde que comecei a trabalhar aqui, com dezoito anos, que quero você, Paulo. São sete anos de sutis insinuações. Tudo em vão, pois você tem medo de mim, embora a sua volumosa constituição o viva denunciando. Quero que me interprete, Paulo, e firme jurisprudência sobre mim.
“Como a gente faz, Vanessinha?”, perguntou a voz trêmula e rouca.
- Deixe comigo, Paulo. Só falta você, meu querido, o sessentão da casa, para eu conhecer toda a família.
- Quê? Como assim, conhecer toda a família, Vanessinha?
“Vou lhe explicar. Antes, façamos um brinde”, disse a Vanessinha, levantando a taça de vinho, um papelzinho pregado à taça. O Dr. Paulo logo o leu:
- Acho que estamos sendo gravados. Disfarce, guarde esse papel e, tão logo termine nossa conversa, vá ao banheiro e leia a mensagem completa.
E assim fez o Dr. Paulo. Guardou o papel e voltou ao assunto, a voz demonstrando não ter realmente entendido a expressão “conhecer toda a família”.
- Não entendi, Vanessinha. O quis dizer com o conhecer toda a família?
- Exceto a Rita, porque feia por dentro, e por quem não sinto o menor tesão, conheço a carne de todo o seu núcleo familiar, Paulo.
- Mas...
- A do seu filho, o Paulinho, abocanho-a no motel. A de sua mulher, a Paula, saboreio-a na suíte de vocês. A de sua filha, a Paulinha, provo-a em qualquer lugar da casa, basta não ter ninguém por perto. Mas a de sua esposa, confesso, é...
Vanessinha não terminou a frase. O Dr. Paulo avermelhou-se, deu um murro na mesa, levantou-se:
- Tá maluca, garota! Você... Você... Suma da minha vista e... e...
Nisso chegou a galera. A Paulinha começou a abanar o pai, a D. Paula também, o Paulinho e a Rita acomodaram-no num sofá. Em lágrimas, Vanessinha pegou logo um copo d’água. Dr. Paulo tomava água e ouvia: é brincadeira, é pegadinha, é armação.
Dr. Paulo foi entendendo o contexto, sentou-se e começou a rir. A algazarra invadiu o ambiente, a apreensão transformou-se em risadeira e a Paulinha repetia:
- Esse sim é meu pai, esse é meu pai. Você estava precisando de algo assim, pai.
- Adora, Paulinha? Vou ao banheiro. Prepare-se para levar uma surra de cinturão, minha filha. E vou tirar seu couro, entendeu, atriz Vanessinha?
Nesse clima, o Dr. Paulo leu o bilhete da Vanessinha:
Como viu, Dr. Paulo, tudo não passou de armação da sapeca Paulinha. Tudo encenação, exceto, Dr. Paulo, o meu tesão pelo senhor. Meus sentimentos são verdadeiros. Adorei a brincadeira da Paulinha, pois só assim eu podia me declarar pro senhor. Quero ser sua, fazê-lo gemer. Já tracei planos para os nossos encontros. Apenas fique ligado, viu? Agora, preciso de um sinal de que também me quer. Daí que, se quiser me dar mais fogo, acenda um charuto, diga que ama todos ali, mas dê uma baforada na minha direção.
Não preciso lembrar que tem de picotar esse escrito e dar descarga, não é, amor?
Beijos de sua Vanessinha
Dr. Paulo, em trajes de piscina, discursou, disse que uma transgressãozinha era bendita cócega no espírito e pulou na piscina. Saía dela tão somente para dar umas baforadas na direção da Vanessinha, que, ligada, não tirava os olhos do charuto do patrão.
O olhar do Dr. Paulo era um brilho só.
Certo é que a farra varou a madrugada e que todos ficaram embriagados. Nem todos, verdade seja dita. Certo par apenas se fez. E se fizeram.

Abril/16
TC