terça-feira, 17 de maio de 2016

APRENDIZAGEM

Ilustração: Eva Uviedo APRENDIZAGEM
Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer? 
- Hã? 
- Se eu cortar meu cabelo hoje, quando é que ele vai crescer de novo? 
- Cabelo está sempre crescendo, Beatriz. É que nem unha. 
A comparação deixa a menina meio confusa. Ela não está preocupada com unhas. 
- Todo dia, mãe? 
- É, só que a gente não repara. 
- Por quê? 
- Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha? 
A menina não sabe se essa é uma pergunta do tipo que precisa ser respondida ou é daquelas que a gente ouve e pronto. Prefere não responder. 
- Você é muito ocupada, não é, mãe? 
- Hã? 
- Nada, não. 
A mãe termina de passar a roupa e vai guardando tudo no armário. 
Enquanto isso, Beatriz corre até o quartinho de costura, pega a fita métrica e mede novamente o cabelo da boneca. Ela tinha cortado aquele cabelo com todo o cuidado do mundo, pra ficar parecido com o da mãe, mas a verdade é que ficou meio torto. 
"Nada, não cresceu nada", ela conclui, guardando a fita. E já tem uma semana! 
Depois volta para onde está a mãe, que agora lustra os móveis. 
- Mãe, existe alguma doença que faz o cabelo da gente não crescer? 
- Mas de novo essa conversa de cabelo! Não tem outra coisa pra pensar não, criatura? 
Sobre essa pergunta não há dúvida: é do tipo que você não deve responder. 
A mãe continua trabalhando. Precisa se apressar. Dali a pouco a patroa chega da rua e o almoço nem está pronto ainda. 
- Mãe! 
- O que foi? 
- É que eu estava aqui pensando. 
- Pensando o quê? 
Beatriz não responde. Espera um pouco, tentando achar as palavras certas. 
- Vai, fala logo. 
- Quando a gente faz uma coisa, sabe, e não dá mais para voltar atrás, entendeu? 
- Não, não entendi. 
Ela abaixa a cabeça, dá um tempinho e resolve arriscar: 
- Então, se você não entendeu, posso continuar perguntando sobre cabelo? 
- Ai, meu Deus! 
Beatriz deixa a mãe trabalhando e vai procurar de novo sua boneca. 
Pega a boneca no colo e diz no ouvido dela: 
- Não liga, não. Cabelo de boneca é assim mesmo, cresce devagar, viu? 
E com um carinho: 
- Foi minha mãe que me ensinou.
           
           Essa taça de lirismo, certamente já notaram vocês, não saiu de minha cafona prateleira mental. Pertence ao estoque de cristal do escritor goiano Flávio Carneiro. Em comum, tão somente os Carneiros. Comum, mas desconhecidos e pastando a quilômetros um do outro. O dele, no cerrado. O meu, na caatinga. O dele curtido na bem-acabada literatura, o meu endurecido na mal-amanhada caligrafia.
“O que escreveste acima, Tião, não é humor depreciativo, como queres que o imaginemos. É a mais pura verdade”. Foi assim o imeio do Bião, ao ler o “Aprendizagem”, do Flávio, assim que o postei aqui. Em seguida me ligou: “Exclui a postagem, Tião. Tenho uma observação a fazer. Estarei aí em quinze minutos”. Bião é o azoreta de meu primo. É metido a escrevinhador e adora mexer com escritores famosos.
Excluí e fiquei esperando o azoreta metido. Chegou, entrou de casa a dentro, voltou com um copo de uísque, passou vinte minutos olhando pra mim. Não disse uma nem duas. Depois o pirado botou uísque num copo descartável, entregou-me um papel e foi embora sem dizer duas nem uma.
Estava escrito:
Obrigado pelo uísque.
Eis, Tião, a minha observação acerca de o “Aprendizagem”, do Flávio Carneiro. Ocorre, cara, que o Flávio omitiu o desfecho da história. O Flávio é um danado. Encurtou o texto a fim de mostrar coerência com o cabelo curto da boneca.
O final se deu assim, ó. Leia. Leia, publique o texto do Flávio, faça seus floreios idiotas e transcreva abaixo o verdadeiro final.
Li e vou logo pedindo desculpa ao Flávio pela intromissão do desastrado parente.
&&&
Beatriz deixa a mãe trabalhando e vai conversar com a boneca. Mas, na ponta dos pés, Belmira, a mãe, vai atrás. Ficara alerta com as perguntas sobre cabelo, pois Beatriz não dava ponto sem nó. É uma estrategista de mão cheia. Porta do quarto entreaberta, Belmira vê a menina conversando com a boneca.
Ah, é isso, entende tudo Belmira quando ver o cabelo da boneca quase no tronco: Beatriz cortou o cabelo da boneca, arrependeu-se e quer fazê-lo crescer.
Pé ante pé, Belmira volta pra cozinha e se põe a pensar em Beatriz. Tem orgulho da filha, porquanto segue sem reclamar as suas orientações. Tem hora pros livros, momentos pra boneca, tempo pro celular.
Belmira avermelha os olhos e traça um plano. Compraria duas bonecas do mesmo modelo. Uma, cuja extensão do cabelo ficasse entre a original e a de cabelo cortado, e outra de cabelo igual à primeira compra. Depois daria um jeito de substituí-las. Será que a Beatriz vai desconfiar? Ah, apesar de esperta, é uma menina. Vai ver tudo com naturalidade, rematou Belmira. De qualquer forma, é bom preparar o terreno, raciocinou, secando as lágrimas.
- Tá chorando, mãe? Posso fazer outra pergunta? Você tá tão ocupada que até fico...
- Pode, criatura. Desculpe por não ficar olhando pra você. É que tenho de fazer o almoço. Com relação à história do cabelo, de ele crescer devagar, tudo se passa como o nascer do sol, Beatriz. Lembra do 1º dia do ano passado? Você ficou de olho acatitado, no colo do avô, esperando o sol nascer. Quando se deram conta o sol já tava alto. A gente não compreende certas coisas da natureza, compreendeu? E não tô chorando não, viu? É o cortado da cebola que faz a gente chorar, entendeu?
Beatriz sabe que aquela interrogação pode ser respondida ou não. Daí que opta por simples “anrã” e faz a pergunta.
- Anrã. Botar a barba de molho, mãe, será que...
- Será que o quê? Se faz a barba crescer? Faz não, criatura. É só uma maneira de falar, de dizer que a pessoa fique atenta e...
- Sei disso, mãe. Misericórdia! Chama-se sentido figurado. Aprendi nas novelas do smartphone e escutei você falar isso pra tia Bianca. Falar em tia, quando vocês vão se falar, mãe? Mas arroz e feijão dentro d’água crescem, mãe. Por que barba também não cresce?
- Boa pergunta, filha. Quanto
à sua tia, acho que em breve a gente volta a se falar. Foi uma desavença besta, compreendeu? Sinto-me culpada. Vou pedir perdão.
- Anrã. Sabe, mãe, um dia desses eu e a Isabela ficamos de mal assim que começou a aula. Mas no recreio a gente nem se lembrava mais do acontecido e começamos a brincar. Vou fazer o dever da escola, tá?
“Vá. Vou aqui no mercadinho comprar uma cabeça de alho, volto já”, avisou Belmira, deixando uma lasca de cebola a vista.
Beatriz pegou a cebola e, rindo da mãe, dirigiu-se ao quarto.
Bom, dali a duas semanas Beatriz se deparou com uma boneca igualzinha a anterior, porém de cabelo crescido. Ao ver a filha tão sorridente, Belmira brincou:
- Minha princesa parece tão feliz. Por quê?
- Porque... Você não entende.  Tô feliz porque tô vendo você feliz, mãe.
- Ah, bom. Me dê um beijo e um abraço, então.
Mas essa felicidade não estava tão visível assim, quinze dias depois, na substituição da segunda boneca. Beatriz chegou do colégio, deu uma volta na casa e ficou trombuda:
- Que foi, Beatriz? Tá com a cara de quem comeu e não gostou. Vai, fala logo.
- Nada, não.
Ah, meu Pai! Conheço esse nada, não. Será que me atrapalhei com a troca da boneca, pensou Belmira. Belmira havia passado um tempinho brincando com as três bonecas nos aposentos da filha.
- Mãe, cadê as outras bonecas? Onde você guardou? Já revirei a casa todinha e não achei. Não deu a ninguém, não, né?
- Quê?!
- As duas bonecas, mãe. A do cabelo comprido, a tia Bianca, e a do cabelo curto, você, mãe.   Cadê elas?
- Pensei, minha filha, que você tava pensando que o cabelo da boneca já... Ai, meu Deus! Mas tá tudo bem, filha. Eu... Eu apenas dei...
“Não! Credito, não, mãe. Você deu as bonecas, mãe?”, interrompeu, às lágrimas, Beatriz.
- Você pensou que eu tava acreditando que o cabelo da boneca tava crescendo, foi? Santa inocência! Tenho oito anos, mãe. E oito anos não é oito dias, não, entendeu?
Você me deu a boneca de cabelo grande, parecida com a tia Bianca, aí eu inventei de cortar o cabelo dela que era pra deixar ela bonitona, parecida com você. Mas aí cortei demais. A bicha ficou escritozinho uma bruxa. E bruxa é do mal. E você é linda e do bem. Bruxa é tão do mal, mãe, que você ficou de mal com a tia Bianca no dia que eu cortei o cabelo da boneca. Por isso, inventei o papo de cabelo pra cima de você. Sabia que você ia desconfiar da conversa e ficar de olho em mim. Pensa que não percebi você me brechando no dia que eu tava conversando com a boneca? Naquele dia eu tive certeza que você ia fazer o que fez. Mas não fez direito, mãe. Hoje era pra deixar a boneca nova, mas você deixou a boneca do cabelo horroroso, a bruxa. Fez a maior lambança, mãe. Ninguém merece! Agora diz que deu as bonecas. Pode pegar de volta. Vá. Vá logo. Dê a bruxa e traga as duas, você e a tia Bianca. Entendeu ou quer o desenho, criatura? Cuida, mãe.
 Nessas alturas, era difícil saber quem chorava mais. Nisso Belmira botou a filha nos braços e foi à despensa da casa:
- Você me interrompeu, filha. Eu ia dizer que apenas deitei as bonecas aqui. Tá aqui, ó, eu e sua tia Bianca.
- Desculpe, mãe. As duas agora não vão sair da cabeceira de minha cama. Você me ama, mãe?
A menina faz a pergunta, mas sabe que esse é o tipo de pergunta que não deve ser feita à mãe.
Belmira correu pra cozinha, porquanto um cheirinho de feijão esturricado chegava à despensa. Respondeu de lá.
- Te amo, Beatriz.

Maio/16
TC