sexta-feira, 27 de maio de 2016

COMO SE LIVRAR DOS GRAMPOS DA LAVA JATO





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COMO SE LIVRAR DOS GRAMPOS DA LAVA JATO

- Não temos o que conversar, o senhor sabe disso:
Mas bastaram trinta segundos de prosa cifrada do outro lado da linha para convencer o arredio da linha de cá:
                - Estou convencido, sabe, meu querido, que o remédio da divergência é a convergência. Vou pedir que a segurança deixe você passar. Apresente-se como Acácio, o meu antigo conselheiro do interior.
                Foi assim que os dois mais espertos políticos brasileiros se encontraram. Viviam brigando havia um tempão, falavam-se até de inimizade pessoal, mas um fedorento interesse comum acabava de estender a cheirosa bandeira branca. Ou de jogar no esgoto o fétido caráter de cada um.
                Abraçaram-se com tapinhas no coração. Mão espalmada no coração do amigo, diga-se logo, constitui o selo de garantia da sinceridade política. Na mulher, é evidente, o beijinho na face substitui a tapinha peitoral.
                - Olá, meu querido. Gostei do disfarce. Você está irreconhecível, pode acreditar.
                - Tem que ser assim, meu nobre, pois nem no domingo a imprensa nos deixa em paz. Já pensou no rebuliço, caso os repórteres me vissem entrando na sua residência oficial?
                - É verdade. Já que falou em repórter, me diga uma coisa. É verdade esse buchicho de que você está ficando com aquela repórter linda? Desculpe falar assim, mas as nossas estripulias autorizam fazer a pergunta, penso eu. Agora, meu querido, só me resta lhe dar os parabéns. Aqueles olhos grandes, a naturalidade, a voz, o biquinho ao se despedir da câmara, o batom. Nossa!
                - Ah, meu nobre, virei adolescente. Estou apaixonado. Tão comentando isso, é? Não aconteceu nada ainda. Às vezes imagino ela lendo a minha intenção libidinosa, às vezes imagino ela me usando para dar as notícias de bastidores, às vezes...
                O anfitrião não deixaria passar em branco a oportunidade de afagar o visitante. Até porque o buchicho não existia. Fora criado agora por ele, o anfitrião, pois conhecia a fanfarronada do colega. E o jeito como o colega falava com a repórter dava-lhe a certeza do delírio amoroso. Daí a verdade absoluta:
                - Olha, meu querido. Você está deixando a jumenta passar selada. A repórter quer você. Estou convencido disso. Cuidado para não ser tachado de bundão. Beijá-la-ia sem titubear, como diria o Miguel. Mas, amores à parte, estou curiosíssimo com...
                - Pois é. O que tenho a lhe falar é, é... Esta sala, você não... é muito grande, essas coisas, você sabe como é. É... Precisamos ser transparentes e...
                Entendi. Você está pensando que tem algum gravador por aqui. Tem não, meu querido. Tem não, mas vamos mudar de local. Assim você fica sossegado. Tem uma salinha ideal pra isso lá nos fundos. Vou pedir que preparem a sala. Realmente, hoje em dia não dá pra confiar em ninguém.
                - Dá não, meu nobre. Dá não. A Lava Jato, aquele maluco, acabou com a paz do País. Não podemos falar merda em canto nenhum. Churrasco. Churrasco, meu nobre, em sua própria casa, com convidados, um uisquezinho a mais... Tem que ter cuidado. Você sabe que nossa sinceridade adora álcool. Então... Então não posso mais dizer que você é um filho da puta, ou você me chamar de corno. Por que
todo mundo fala de todo mundo nessas horas, concorda? Mas aí...
- É complicado. Escuta, áudio, vazamento. É uma droga. Ditadura da Justiça. Perfeito despautério (homenagem ao Loyola e ao Werneck). Você não pode nem dizer que o “Curitians” é uma bosta, porquanto correr o risco de os jornais estamparem: FULANO DE TAL DISSE QUE O “CURITIANS” É UMA BOSTA.
- É verdade...
- Como assim verdade? Bosta é o seu Palmeiras, meu querido.
Pararam a risadeira com a informação de que a salinha estava pronta. Caminharam para a salinha. Abraçados e no papo acima de qualquer suspeita:
- Escute, meu nobre. Seu celular não gravou essa conversinha, não, né? Você pode editar e...
- Gravou não. Vou provar na salinha. Mas quem disso cuida disso usa, meu querido.
Fechada a porta da salinha, saiu a recomendação do dono da casa:
- Já que seu plano é ultrassecreto, tome meu aparelho. Examine se há gravação. Agora me dê o seu.
                Tudo limpo, o anfitrião soltou a ordem definitiva:
                - Tire a roupa, meu querido.
                - Que?!
                - Tire a roupa. Quero vasculhar seus bolsos e seu corpo.
                - Mas... Mas você vai tirar também, né? Não é justo que...
                - É claro. Vou tirar também.
                Examinaram-se, por óbvio. Mas o desconfiado visitante julgou prudente inusitada inspeção:
                - Bom, não sei como falar isso, porém acho que, que... Escute, meu nobre, a tecnologia é foda. Esconde escutas nos mais infames cubículos. Dá pra você dá uma arreganhadazinha básica?

                Como o texto se alongou, não convém descrever o plano agora. Prometo postá-lo na próxima quinta-feira. Contudo, posso adiantar um detalhezinho. O dono da casa se esqueceu de desligar as câmaras da salinha. Imaginem o que pensaram os funcionários do salão de monitoramento.

                Maio/16

                TC