sábado, 4 de junho de 2016

AS ENTRELINHAS DE CERTO ESTUPRO NO SHOPPING



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AS ENTRELINHAS DE CERTO ESTUPRO NO SHOPPING

- É norma da empresa, moço. Só recebemos dois exemplares. Sabe como é, autor local...
E emendou:
- Ainda mais com esse título. Toinho, Seu Danado, você há convir, não é um... Quer um conselho? Saia de porta em porta com o seu Toinho...
A chacota batia palmas para a dicção irônica da atendente. Não aguentei a pressão. Peguei ar e soltei o jato de desaforo:
- E porque a senhora não vai tomar...
Não cheguei ao monossilabinho, porquanto o olhar da moça (e o meu) era de extremo fascínio por uma jovem que acabava de se juntar a nós. E não apenas pela perfeição corporal. Mas, sobretudo, pelo magnetismo pessoal, que, em minutos, fez grudar em si a reverenciosa atenção de toda a livraria. Só o silêncio fazia algazarra. Linda demais. Parecia de outro mundo. A jovem olhou pra mim, riu e fez meu ego dar cambalhotas. Mas a atendente ficou paradona, olhar de terror, quando a Linda de Mais, enciumada, imaginei, mirou nela.
Conheço essa jovem, pensava, mas não me lembrava de onde. Quando abri a boca para o “Oi”, ela tirou um papel da bolsa e me deu. Li: “Estarei na praça de alimentação daqui a meia hora. Beijos”. Saiu sem falar. Mas o falatório ficou. É lógico que fiquei ancho, apesar da humilhante recepção. Botei o livro debaixo do sovaco e fui logo para a praça de alimentação. Pedi um chope e mandei os olhos passearem.
Perceberam, não? O inusitado aconteceu numa livraria de um shopping aqui em Natal. Apresentava à moça um exemplar de meu livro, o Toinho, Seu Danado, e pedia informações acerca de vendas em consignação. Mas aí...
Ia no quarto chope quando a bonitona chegou. Formal, pediu licença, sentou-se. Fiquei cismado com a frieza. Daí a pouquinho ela esquentou-se, deu uma risada e falou:
- Também quero chope, Tião.
- Minha Nossa Senhora! Não acredito. É você mesmo, Cristina? Se não fala, eu não a reconhecia.
- Sou eu mesma. Em carne e osso, meu querido Tião. Estou decepcionada. Não me reconheceu, homem? Como é que pode! Estava doida pra bater um papo com você, Tião.
- Nossa! Você está linda. Está bem mais linda do que quando a fiz. Está mais franzina, cabelo curtinho, pele bem assentada. Só o olhar continua sapeca. Se queria tanto falar comigo, devia ter ido lá em casa.
- Você sabe que não posso, pois só me é permitido frequentar livrarias e bibliotecas. Como nesta cidade não há bibliotecas, ficava perambulando pelas livrarias, na esperança de encontrá-lo. Escuta só. Li nossa história no site Clube de Autores. Tenho duas reclamações a fazer.
A primeira é quando você me faz transar com o Toinho, na mesa da cozinha, e diz que o papagaio, o Chicó, está embaixo da mesa. O pestinha brechava a gente, Tião. Pior, o Chicó sai nos chamando de povinho seboso. Morri de vergonha ao ler a verdade, Tião.
            A segunda é mais uma sugestão. Devia ter falado algo educativo a respeito de estupro. Literatura também serve pra reflexão. Estupro de mulher e de homem, entende? Alguma coisa surreal, Tião. Aqui, por exemplo, a gente tomando chope. Pode começar assim, ó! Você se levanta, dá um murro na mesa, me chama de gostosa, dilata os olhos e grita:  “Quero você agora, gostosa”.
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            - Só me lembro até essa parte, Dr. Silvestre. Apaguei. Dei por mim aqui no hospital dos doidos.
            - Pois é, Sr. Tião. O senhor estava bebendo sozinho. De repente, dá um murro na mesa, levanta-se e grita. A senhora da mesa de frente se assombra, dá um grito de “tarado, quer me estuprar” e coisas tais. Resultado 1: meteram porradas no senhor. O senhor passou quinze dias no hospital, variando, querendo que Cristina desse notícias de Kélvia. Resultado 2: os médicos disseram que o senhor é pirado e o mandaram pra cá. Faz três dias que está sob os meus cuidados. Resultado 3: vou dar a sua alta. O senhor não é doido não.
- É claro que não, Dr. Silvestre. Sou fiscal da Receita e ficcionista nas horas vagas.
- Aí é que tá. O senhor, assim como todo ficcionista, tem parafusos a menos. E certos personagens adoram pegar no pé desse povo, Sr. Tião. Falo por experiência própria.
            - Experiência própria... Entendi. Também faltam parafusos no doutor, não é? A propósito, eu estava com um livro. O senhor dá notícia dele?
            - Dou. Mas deixe-me lhe dizer uma coisinha. Escrever ficção não é pra todo mundo não, meu caro. A prosa ruim deixa sequelas. Como os personagens não veem ninguém, revoltam-se e começam a azucrinar o criador. Eles querem respirar. Ah, tenho parafusos a mais, e não a menos. Por isso não tenho alucinações, entendeu?
            - Entendi de novo, Dr. Silvestre. Bom, mas meu livro. O doutor disse que dava notícias dele. Suponho que tenha dado uma olhadela. O que achou?
- Uma bosta.
            Pode ir. Tá de alta.
            Té mais
           
            Como não há o “leia mais”, e para fins estatísticos do blogue, sugiro que marque uma ou mais reações (LEGAL, INTERESSANTE, ENGRAÇADO) aqui embaixo. Vou pedir que o Blogger adicione o “BOSTA”.
            Leia, em cima, e ao lado, na postagem em destaque, a sinopse de Toinho, seu Danado.

            Junho/16

            TC