terça-feira, 21 de junho de 2016

PEDAÇOS DE MIM (Inocentes textinhos curtos)





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PEDAÇOS DE MIM
(Inocentes textinhos curtos)
A TURISTA

      Olhou-se, viu-se linda, foi se afastando. Parou. O espelho falava: Não, moça. Tem que ser um vestido apropriado para o encontro. Deu razão ao espelho e se deu conta de que não tinha aquela vestimenta. Tampouco tempo para comprá-la. Tem nada não. Peço que a Jack alugue um por lá. Voltou pra cama e começou a fazer a mala. Arrumava as pecinhas, a imaginação se desarrumava: tornou-se ansiosa, ofegante, acesa. Antevia o prazer. Afinal, aquele encontro ocorria apenas de ano em ano. Só precisava ter cautela com irresistível guloseima. Diziam que, em excesso, o caroçudo é danado para provocar enjoo e dar bucho inchado. Às favas com a prudência, seja o que Deus quiser, pensou, fechando a mala, correndo para o aeroporto. Ia para o nordeste. Não via a hora de sopesar o nutritivo espigão, debulhá-lo e aninhá-lo na boca.
E assim, toda emperiquitada de matuta, a carioca participava do São João da família Buscapé.  Não saía do pé da fogueira. Comia milho assado. Já ia na terceira espiga. Como é típico nesses momentos, a mulherada se pôs a brincar com a faminta visitante. Pediam-lhe, pelo amor de Deus, que deixasse ao menos uma espiga pra cada uma.
Ô bichinhas pra gostarem de milho.

Obs. Se viram um QUÊ de basbaquice no texto, aliviem-se com a postagem seguinte, a da Obviedade, Obviedade (18 do 6). Nela não há bobice nem “que” escrito. Outra opção de alívio é ler o Toinho, Seu Danado!

QQQQQQ - O ESCRITOR

Pensei que ia vomitar na reunião. Bebi um pouco de água e fiquei me segurando. Seria uma negociação penosa, não restavam dúvidas. Não queriam entender as minhas reestruturações. Diziam que precisavam cortar muita coisa, fazerem uma leitura crítica. Agora falavam de forma estranha. Não mais os reconhecia. Pareciam bonecos. Desfaleci. Deixei-me cair. Mesmo na confusão mental, percebi que discutiam orçamento e distribuição. Puxavam tudo para a sardinha deles. Ergui-me e disse que ia embora. Despedi-me assim: “Fui”.
Acordei porque a mulher me sacolejou dizendo que eu estava atrasado para a reunião.
  Atrasadíssimo, nem tomo café. Vou a pé, correndo, já que a editora fica perto de minha casa. Corria e pensava em escrever sobre aquela situação. Cada passada era uma ideia a escrever. Direi isso a eles. Provavelmente me chamarão de alucinado. Mas se assim agirem, viro a mesa.
Disse, chamaram-me, virei. Virei e os acusei de usurpadores. Não só os tachei de usurpadores. Alimentei-os com sopa de adjetivos e suco de letrinhas, tipo, safados, idiotas, pqp, vtnc, fds. Mataram-me.
Existem pedaços de mim espalhados nas ruas. Se toparem com eles, façam bom proveito. O chá é afrodisíaco.

Obs. Se viram um QUÊ de basbaquice no texto, aliviem-se com a postagem seguinte, a da Obviedade, Obviedade (18 do 6). Nela não há bobice nem “que” escrito. Outra opção de alívio é ler o Toinho, Seu Danado!

QQQQQQ - O SEDUTOR

Estava meio pilecado, então decidi ir embora. Paguei a conta e fiquei esperando uma distração das moças. E veio. Uma delas foi ao banheiro, a outra só tinha olhos pro celular. Soltei na mesa delas o bilhetinho escrito no guardanapo e me mandei:
“Oi, as duas.
Peço-lhes desculpas pela invasão. Estava acomodado na mesa vizinha, à esquerda da blusinha branca. Esforcei-me para ignorá-las, mas fracassei. Culpa da tagarelice. Principalmente da blusinha creme. Além de omitirem o nome da outra, tomarem caipirinha e falarem alto, há mais uma coisinha comum nas duas. A beleza. Ambas são lindas. Não podia ignorá-las. Estou perdoado?
Pelo que entendi, a de blusinha creme é empresária. E a de blusa branca é servidora pública.
Quero me dirigir a você, blusinha creme. Vivo ansiosa, do nada fico irritada, de tudo desconfio. Sou um ser em ruína, amiga. Tenho consciência disso. Você falou assim para a lindona de blusa branca. Por que tamanha angústia, mulher de Nossa Senhora?
Que bom que tem consciência. Viva! Você está viva, blusinha creme!
Daí deve se lembrar de que a sua vida
é o maior empreendimento do mundo, que pode impedir que ele vá a falência, que ser feliz é acreditar que vale a pena viver, não obstante os desafios e incompreensões, que pode deixar de ser a personagem vítima e transformar-se na protagonista heroína, que pode atravessar desertos e ser capaz de descobrir oásis no âmago de seu espírito.
Então, blusinha creme, você tem mais é que ficar agradecendo ao seu Deus pelo milagre da vida. Bote na cabecinha: ser feliz é não temer os próprios sentimentos, é saber comunicar-se com si, é estar pronta para receber um não, é ter paciência para escutar as críticas imotivadas.
Pedras no caminho?
Guarde todas. Precisará delas para construir um castelo.
      Beijocas de seu vizinho de mesa.
      É lógico que tenho na memória as sentenças de autoajuda. O trabalho é só encaixá-las no contexto específico. Sou perito nessa artimanha sedutora. Ando com quatro pedrinhas no bolso. Bem, passados dois meses, vejo as blusinhas noutro bar. A creme de azul, a branca de verde. Esquematizo a estratégia e largo as pedrinhas na minha ida ao banheiro. A creme, agora azul, espera-me em pé, com sobras de sorrisos caindo na caipirinha:
   - Oi. Sou a blusinha creme, a Cecília. Minha amiga é a Sônia. Fica com a gente? Quer dizer, senta-se conosco? Posso saber o nome de meu anjo analista?
     - Gabriel. De asas prontas para servi-las.

      Junho/16 (Do todo despedaçado)

TC