terça-feira, 28 de junho de 2016

UM SÃO JOÃO ARRETADO





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UM SÃO JOÃO ARRETADO

A mesona era do São João, a alegria abraçava os presentes, a tradição felicitava a fogueira. Eu papeava e ria com dileta amiga, quando Santinha se juntou a nós. Dava gulosos tragos numa latinha de cerveja.  Sabíamos de sua aversão ao álcool, por isso ficamos de queixo no chão com a cena. Mas, em conluio, nossas mentes não verbalizaram a surpresa.
A causa do riso era a votação para eleger o casal vencedor do concurso de dança. Votação apertada, o par campeão só ganhou porque um bêbado corrupto levantou a mão de um dos jurados, o bêbado e roncador Everaldo. Sacanagem pura, já que a preferência do público era para o malabarismo corporal de certa dupla. Frenesi com rascunhos eróticos, segunda as palavras de conservadora jurada.
Bom, como a bebida só quer um pé para expor o fã, o ronco do bêbado levou Santinha a nos perguntar se tínhamos o costume de roncar. Mas nem quis conhecer as respostas e logo deu a sua:
- Desconheço se ronco. Como vou saber, seu menino, se ninguém me fala, já que sempre dormi sozinha? Mas acho que ronco muito. Desconfio, pois tenho bastante pecado. E o ronco nada mais é do que o engasgamento do pecado. É o bicho fazendo força a fim de passar pela garganta.
Santinha falava olhando-me displicentemente, mas encarava com força a minha amiga dileta. Fiquei pensando quão chave de fenda é o álcool. Afrouxa mente, língua e assemelhados. Santinha jamais me chamara de seu menino, tampouco a tinha visto encarar alguém daquela forma.
Caramba! Pensei. Pensei, contudo a mente mandou-me ficar na minha. Fiquei na minha, a amiga dileta abriu a boca, por certo para discordar da teoria do engasgamento e se gabar de roncadora, mas ficou na dela. A Santinha pegou mais uma latinha e ficou na falação:
- Tenho muitos pecados. O primeiro, normal, de novinha, mas me lembro. Depois, já meio madura, o mais feio. Eu não queria, juro. Resisti, resisti, mas terminou chegando o momento em que não tinha mais jeito. Pior, seu menino, é que eu era apaixonada por um rapaz, embora ele não soubesse que eu me considerava a sua noiva. Meu sonho era casar vestida de noiva. O vestido estava encaixotadinho no meu quarto. Esperávamos, eu e o vestido, que o meu amor tirasse os nossos selos, entende? Pecava diariamente por causa dele.
- Entendo. Entendo, mas agora me diga. O diariamente é força de expressão, não é?
- Força de expressão uma ova, seu menino. Era toda a noite, toda a noite. Quer chovesse, quer fizesse sol. Não conseguia dormir sem ela.
- Nossa! Seja sincera, Santinha. Você acha isso pecado mesmo?
- É claro que é. Pecado da gula, seu menino. A ansiedade entupia-me de pizzas. Pagava uma fortuna por mês à pizzaria. Só não engordei em razão do calibre de magra.
Acho que foi meu jeito de apalermado que fez a amiga dileta pedir licença e sair. Nem olhei pra ela. A voz fraquinha falava tudo: eu tinha certeza de que ela ia pro jardim despejar risadas.
Santinha voltou ao pecado mais feio:
- O certo é que a coisa foi chegando de mansinho, fui saindo da lucidez e passando a aceitar presentes de brincos, pulseirinhas, sapatos. Quando dei por mim, já era tarde. O pecado feio já me dominara. Se o homem vivia me dando aquilo, e de bom grado eu recebia, era porque, também de bom grado, aquilo ele queria. Mas eu protelava o retorno. Aquilo encheu-me de remorso.  Sou uma vigarista de mão cheia, pensava. Entendam,
eu sentia alguma atração pelo doador, mas gostava mesmo era do sujeito que nem atenção me dava.
Nisso, a Santinha deu uma fungada, avermelhou os olhos, emborcou a latinha, soltou sonoro palavrão e pediu o julgamento de minha amiga dileta:
- Não é verdade? Sou ou não sou?
A amiga esboçou apenas um risinho de compreensão. Sentindo-se à vontade, a Santinha desfilou uma penca de novos pecados e dessa vez a opinião pedida foi a minha.
- E você, o que me diz? Você é escritor, um homem rodado, conhece o caminho das pedras.
- Sou zero em aconselhamento, Santinha. Mas escuta só. Você não é católica, não vive na igreja? Pode muito bem pegar umas dicas com um padre.
- Ah, conheço os padres, seu menino. Sei o que vão falar. E quer saber? Faz tempo que não gosto de padre. Padres são bons em imaginação, mas péssimos em visualização.
Fiquei voando. Qual seria a diferença entre imaginar e visualizar? Desconversei:
- E então, Santinha? Desculpe a intromissão, mas como acabou o remorso do pecado feio? Se é que acabou. Tenho um palpite. Deu dupla doação ao doador: recompensa carnal pelos mimos e um pé na bunda pelo remorso.
“Era o que eu pensava. Mas aconteceu diferente”, disse ela, mirando o além, enchendo os olhos de lágrimas, amassando a latinha de cerveja. É lógico que cuidei logo de apanhar outra.
- Aconteceu... Bem, primeiro o noivo inocente. O carinha morava na minha rua, mas eu não sabia que ele era assaltante da pesada. Resultado. Está preso. Chorei pra caramba, mas a prisão dele me libertou.
Muito bem. Desiludida, pensei: Quer saber, tudo tem limite. Vou saber se aquilo é isso tudo mesmo. Vou recompensar o presenteador. Conclusão. Marcamos um encontro na sacristia e...
“Como assim, sacristia? Não estou entendendo”, surpreendeu-se a amiga dileta:
- Sacristia, mulher. Ele é padre. Padre Cecílio. Você conhece, não?
- Hã!
- Então. Veja, o homem, ou melhor, o padre, vivia estraçalhando as minhas partes, até a virginal batina o denunciava, mas... Bom, fiquei na sacristia, esperando ele. Para não perder tempo, esperei peladona.
            - Nossa, amiga. Você estava...
            - Naquelas alturas, estava ficando mesmo.  
            “E aí, e aí, ele chegou e foi”, falei, esfregando as mãos.
            - E aí que me escondi quando escutei os passos dele. Ele entrou, foi logo jogando a batina num canto, arriando a vestimenta, vestindo-se de Adão. Nisso eu apareço. Porém, do nada, ele pôs as mãos na frente, deu-me as costas e voltou pra porta. Aí, mesmo percebendo que ele não estava a fim, e que o negócio dele era imaginar e não visualizar, falei amorosamente:
            - Pra onde vai, amor?
            -Vou ao jardim pegar um tesourão e um ciscador.
            A reação da amiga dileta foi escancarar a boca e tapar os olhos com as mãos. A minha foi verbal:
            - Mentira! Não brinca! Que padre mais sem noção.
            - Não tô dizendo?
            - Quer dizer que não rolou nada? Deixasse barato, foi?
            - Não rolou, mas não deixei barato não, seu menino. Falei na bucha:
            - Aproveita, traz uma alavanca e uma escora para plantinha pensa.
            “Mas... E depois? Isso faz muito tempo?”, quis saber a amiga dileta, a gargalhada fazendo o distante bêbado roncador aboticar os olhos pra mesa da gente.
            “Nem queiram saber. Daqui a pouco eu conto o resto”, respondeu ela, deixando-nos curiosos, porquanto a organização do arraiá nos chamava dum improvisado palco. Explico: estava na hora do casamento matuto.
Eu ia fazer o delegado e a amiga dileta ia fazer a juíza. Foi preciso dar um banho no bêbado roncador, pois ele ia fazer o padre. O bêbado corrupto ia fazer o noivo.
            A Santinha ia fazer a noiva.
           
            Revelador e chuvoso junho de 16,
            TC