quinta-feira, 28 de julho de 2016

AS MOÇAS COM EXCESSO DE BELEZA E A DISPLICÊNCIA DO VILMAR




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AS MOÇAS COM EXCESSO DE BELEZA E A DISPLICÊNCIA DO VILMAR

Costumo lhes pedir que me enviem uma ficçãozinha a fim de que seja chafurdada aqui no cocho do Pocilga. Espero que não se aborreçam, pois vou continuar pedindo, ainda que a resposta continue sendo a apatia. Alguns ainda se justificam: Ah, Tião, não me ocorre uma ideia, não consigo passar da primeira linha, não sou lá essas coisas em português, tenho medo do ridículo.
Desinteresse, meu caro, essa é a verdade. Mas desinteresse que corre a quilômetros do desapreço a mim. Afinal, não podemos nos interessar por tudo na vida. Mas ideias ocorrem, sim; passar da primeira linha acontece, sim, com a persistência; ninguém, sim, é lá essas coisas em português. E temer tal tipo de ridículo é, sim, ridículo. Ler e escrever bem vem do hábito. É claro que precisamos ter certo conhecimento da gramática, mas daí antever alguém a nos repreender por causa de sutis inadequações gramaticais é ridículo. Mais ridículo ainda seria o azoreta repreendedor. Mesmo porque para escrever bem não precisa ser essas coisas na língua.
Agora, ridículas ao extremo são as respostas de um amigo quando lhe cobro um texto há um tempão prometido: porra, esqueci, Tião. Ou, não tive tempo, cara. Ontem, ao encontrá-lo numa livraria, encostei-o na estante de livros locais:
- Não precisa escrever não, Valmir. Passe a ideia que eu desenrolo.
“É mesmo, Tião. A gente já devia ter feito isso. Olha só, a história se passa”, concordou ele, falando baixinho, fazendo prolongada reticência.
- Se passa...
- Se passa aqui mesmo, em Natal. Bem, o marido deixa o celular de bobeira e vai tomar banho. A esposa acha de olhar a hora no aparelho e ver quatro fotos do nu frontal de um homem. Armadura na cabeça, venda nos olhos e abundante oferta na cintura completam o quadro pornográfico. E, abaixo das fotos, a mensagem: “Pra você”. Aí bateu a sofrença, cara. A mulher senta na cama e horrorosos flashes mentais lhe asseguram: o marido é gay. Na opinião dela, Tião, essa história de bissexualidade é balela. O marido gosta tanto de homem quanto ela e ponto final.
A mulher solta potente filho da puta e vai cantarolando para a cozinha. Antes, pega o celular dela e bate a foto do homem pelado. Também cantarolando, o esposo sai do banho e escuta:
- Quer ovos mexidos, amor?
A mulher era dura na queda, Tião. Descobre
que o consorte a traía com outro homem e ainda consegue brincar. Bem, foi só o marido sair pro trabalho pra ela correr para o apartamento de um casal amigo. Esse casal, Tião, é...
- Um momento, Valmir. Você já falou umas duzentas vezes do marido, outro tanto da mulher, e agora põe na história um casal amigo deles. Esse povo não tem nome, é?
- É, sabe, tenho medo desse negócio de ficção. De repente... A ficção vive perdendo de goleada para o dia a dia, meu caro Tião. Façamos assim. Vamos chamar a esposa de Miara e o marido de Vilmar. A mulher do casal amigo será Dalete e o homem, Chicó. O Chicó é primo irmão da Miara, foram criados juntos. Não havia segredo entre ambos. Os dois casais moram no mesmo condomínio, entendeu?
Então, a Miara foi bater no apartamento do Chicó, já que acreditava que o Chicó tinha conhecimento das coisas do Vilmar. A Miara tem trinta anos, é moreninha, cabelo curto. Tem beleza em excesso, Tião. A beleza da ruiva Dalete também fica saindo pelo ladrão... A Maíra é tão linda...
- Tá bom, Valmir. Todo o mundo sabe que a Afrodite vive emburrada com as duas. Normalmente, as mulheres ficcionadas são lindas e gostosas. Pule isso, dispenso as descrições.
- Tá legal. Bom, o Chicó não estava. A Miara foi recebida pela Dalete. Conversinhas, logo a Dalete percebe a aflição da Miara. Mais conversinhas, a Miara termina se abrindo. Sentadinhas no sofá, a Dalete consola a amiga. O displicente Vilmar não era daquilo. Algum amigo teria enviado as fotos, visto os homens gostarem dessas brincadeiras idiotas, e o idiota displicente esquecera de deletá-las. Disposta a dar o assunto por encerrado, a Dalete ainda filosofou.
- Você está botando minhocas na cabeça, Miara. Veja. Nada tem a menor importância, com exceção daquilo a que importância você dá. Como se sente, amiga, não reflete, necessariamente, a realidade. Reflete tão somente a sua interpretação. É seu mundo interior em movimento. E essa interpretação depende de suas experiências, de seu estado mental e por aí vai. Entenda, Miara. O Vilmar pode estar emprestando o traseiro a alguém? Pode. Porém, enquanto não tiver a certeza, não adianta você se martirizar. Falar é fácil, sei. Mas não paga nada pensar assim, amiga. Agora vamos pra cozinha tomar um suco.
Nisso, Tião, praticamente convencida pelos argumentos da Dalete, uma descontraída Miara pega o celular e mostra à amiga as fotos do homem nu:
- Que ira é essa! Benza a Deus, Miara. E é um homem só. Pensava que as fotos fossem de homens distintos. Veja essa aqui. Sabe, amiga...
Tião, cara, a Dalete, breca a frase, fica pensativa e corre para o quarto. Volta com um lenço e um capacete. Iguaizinhos aos das fotos, a conselheira Dalete comenta:
- Ainda bem que fiz a ressalva. Não é minhoca na sua cabeça, Miara. É a cabeça do minhocão de meu marido, o Chicó, pescando na vala de seu homem, o Vilmar. E o seu pescando na vala do meu, certamente.
Miara assente com a cabeça. Ficam de mãos dadas, cada qual no seu mundo, que, no fundo, é um mundo só. A surpresa as castiga, o silêncio as consola.
Aí, Tião, a nuvem erótica dos maridos faz a Dalete dar breve cheiro no cabelo da Miara, seguido de um beijo na face. De olhos arregalados, a Miara se volta pra amiga. Não diz nada. Apenas dá um risinho, seguido de breve cheiro no cabelo da Dalete e de um beijo na face. A Dalete fecha os olhos, põe a mão direita na coxa da Miara e a esquerda no cangote. A Miara não quer ficar devendo, de maneira, Tião, que põe a mão esquerda na coxa da Dalete e a direita no cangote. Agora a Miara toma a iniciativa e começa a afastar a blusinha da...
- Para, bicho. Nessa passada, vai escurecer e as moças não chegam ao destino. Adiante a história.
- Acabou, Tião. A história acaba na princesa de cada uma, mas você não mandou parar?
- Acabou? E como ficam os maridos, o Vilmar e o Chicó?
- Não pensei neles não. Pensei em deixar o final com a especulação do leitor. O que você acha?
- Acho que o texto fica capenga. Vou pensar. Valeu, cara. Vou escrever hoje. Antes de postar eu lhe envio o texto pela internet. Melhor... O que você acha de almoçarmos juntos amanhã? Podemos almoçar no MPBar. Pode até levar a esposa, a Maíra. Dá um beijo nela, Valmir.
- Darei. Boa ideia, Tião. Falar em Maíra, acho que ela tem uma quedinha por você. Aqui, acolá ela pede que eu o chame pra gente tomar uma. Tenho uma sugestão: almoçaremos nós cinco, no nosso apartamento. Assim, a Maíra mata a saudade de você, e você conhece o Chico e a Salete, a esposa dele.
“Como assim, nosso apartamento”, falei, julgando estranhíssima a informação e encabulado com a história de a mulher dele ter uma queda por mim. Se o cara morria de ciúme da Maíra!
Ah, Tião, fiquei desempregado, atrasei as contas. Minha sorte foi esse amigão, o Chico. Apartamento grande, só ele e a mulher, a Salete, o Chico me chamou pra lá. Mesmo condomínio, mas na outra torre. Ligue pra mim quando chegar na portaria que venho apanhar você. Escuta, não vá encher o texto de putaria, de depravação. Ultimamente...
- Então meus escritos são puteiros? Está me saindo um belo falso moralista, Valmir.
- Não é isso. É que alguns textos é uma baixaria só, amigo.
 Bom, vim pra casa e comecei a transformar em literatura a ideia do Valmir. Imaginava um final para os maridos das belas, mas, à medida que escrevia, as entrelinhas da história diziam-me que o final já estava pronto.
Recordem o nome dos personagens sugeridos por ele, Valmir: Vilmar para o marido displicente, o destinatário das fotos, e Miara para a esposa dele. Na outra ponta, Chicó para o esposo do casal amigo, o fotografado e emitente das fotos, e Dalete para a esposa dele.
  Se não bastasse a sintonia entre os nomes, o romance entre as mulheres, o namoro entre os maridos, o Valmir diz a mim que o quarteto está morando junto. Mais. Convida-me para almoçarmos, os cinco, no apartamento deles. Por isso, o Valmir não me deu um final. O final estava implícito. E ele queria que eu testemunhasse o seu convívio.
Apesar de o texto não ter ficado pronto, ao meio dia estava na portaria do condomínio. Desejava conhecer o casal amigo do Valmir. Por questão de justiça, devo confessar que a “quedinha” da Maíra deu baita empurrão no passeio. Como o Valmir havia falado, a moreninha Miara, ou seja, Maíra, tem excesso de beleza.
Saí de lá à meia noite. Tudo comprovado. Comprovadíssimo, até.

Fim do ardente julho de 16,
TC