domingo, 17 de julho de 2016

ESTRATAGEMAS DO SEXO




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Com este escrito, o Pocilga alcança a marca de duzentas postagens. Em quatro anos e oito meses, uma ruma de emes e bês foi aqui depositado. Coisa de í. I de idiota e de ingenuidade. Por que escrever ficção, enviá-la pro mundo e ter como gratificação apenas o risinho irônico do desprezo? A repetição do ato carece de inteligência, não? O i da ingenuidade nasceu de meu otimismo. E há algo mais ingênuo e idiota do que certos otimismos?
Veja. Tinha dois livros publicados quando criei o Pocilga. Pensei assim. Sabe de uma coisa? Vou criar um blogue a fim de apresentar esses livros. Além de explicar como comprá-los, as postagens servirão de propaganda. Até hoje, vendi um exemplar por esse canal. Eficiente propaganda, por óbvio. A verdade é que a verdade está sendo muito grosseira com a boa-fé deste matuto. Por que não larguei a idiotice? Porque fiquei viciado nela. Tanto que peguei uma pilha de emes, pês, enes, is, bês, os, cês, es, tês, as e símbolos outros, saí comendo pelas beiradas e acabei escrevendo mais dois livros.
Idiota!
Como já notaram, é comum nos meus textos os descontraídos bate-bola entre sexo e falso moralismo. Entendo que a compreensão desse assunto evitaria enes desconfortos no nosso dia a dia. Um montão de indivíduos esconde tal assunto no quengo, acham-no gasturento, mas a fila no guichê do sexo só faz aumentar.
Na postagem de hoje, a de número duzentos, a assídua dupla continua batendo bola. É um conto, mas com coração e tudo mais de novela. Agora, são cinco páginas, de vinte a vinte e cinco minutos de leitura, um pecado para muita gente.
Caso não seja “muita gente”, leia e divirta-se com os Estratagemas do Sexo.

ESTRATAGEMAS DO SEXO

“De todos os supostos desvios da natureza, o que faz mais refletir, o que mais parece bizarro aos filósofos de botequins, aos falsos moralistas, que querem analisar tudo, sem nada compreender, é o gosto que mulheres de certo temperamento concebem por pessoas de seu sexo”, assim se expressava a uma das amigas a autêntica moça, de quem falarei em seguida. E prosseguiu, a sem papas na língua:

“Ainda que, mesmo antes da imortal Safo, não tenha havido cidade no mundo que não tenha abrigado mulheres com esse capricho e, perante provas de tal força, parecesse ser mais razoável acusar a natureza de singularidade do que essas mulheres de crime contra ela, nunca se deixou de insultar o sexo feminino. E sem o ascendente imperioso que sempre teve o nosso sexo, quem sabe se algum Luís IX não teria imaginado fazer leis iníquas contra essas infelizes criaturas, como as promulgadas contra os homens que, construídos no mesmo gênero de singularidade, julgaram poder bastar-se a si próprios, e imaginaram que a mistura dos sexos, muito útil à propagação, podia muito bem não revestir essa mesma importância para os prazeres.
Tocando de leve a mão da amiga, mas que, ao olhar de certos olhares, mais parecia densa proteção, continuou a bela Mille, a moça de quem prometi falar. Antes, darei detalhes dela.
Mille tem vinte anos, mora no Brasil, no bairro da Quintas, em Natal-RN. Cursa sociologia na UFRN, onde ocorreu esse desabafo com a amiga. Filha única, o pai, Donato Afonso, é um intelectual comerciante. Daí viver passando à filha o prazer pela leitura (naquele tempo os pais liam). Naquele tempo, porque os fatos abaixo descritos acontecem no início dos anos setenta do século passado. Vale a pena ouvir a filosófica Mille. Fechava ela a falação, tocando de leve a mão da amiga:
Porém, em vez de iniquidades, no lugar de desprezo, não seria infinitamente mais simples, numa ação indiferente à sociedade, mas tão igual a Deus, deixar cada um agir a seu gosto? Que se pode recear de tal gesto? Ah, justos céus, receia-se que os caprichos desses indivíduos, de um ou de outro sexo, façam acabar o mundo, que ponham em leilão a preciosa espécie humana, e que o seu pretenso crime a aniquile, por não proceder à sua multiplicação? Reflita-se um pouco sobre isso e ver-se-á que as quiméricas perdas são indiferentes à natureza, que não só não as condena, mas que as quer e deseja, a exemplo de todas as mães.
Senhora de suas ações, a jovem Mille estava decidida a nunca se casar. Detestava os homens. Conscientemente entregue ao que os ouvidos castos entendem da palavra safismo, ela só encontrava volúpia com o seu sexo. Volúpia, mas a satisfação, mesmo, estava em desprezar o amor. Mille era verdadeira perda para os homens. No mundo para ser pintada, alta, cabelos castanhos, nariz um pouco aquilino, dentes soberbos. Olhos duma expressão..., olhar duma vivacidade..., andar duma firmeza..., pele duma delicadeza... O conjunto dava de capote na perfeição carnal. Certo é que feita para dar amor e determinada a não o receber, Mille oferecia aos homens um número infinito de sarcasmos. Quanto mais ria dessas censuras, mais se entregava aos seus caprichos. A mais elevada das loucuras é sentirmos vergonha das inclinações que recebemos da natureza, dizia ela.
Mille tem muitos aspirantes, mas todos são impiedosamente maltratados. Testemunha disso, e antevendo juntar-se aos infelizes, um apaixonado jovem chamado Francisco, morador do bairro vizinho, jurou conquistar a Mille e falou de seu projeto aos amigos. Riram-se dele, desafiaram-no. Vá ao Quintas Clube no domingo de carnaval, veja os coturnos da coronel Mille e logo concluirá que aquela carne nunca o saciará, brincavam os colegas.
Francisco tinha dezoito anos, nenhuma barba, feições delicadas, cabelos compridos. Inexistia diferença, por assim dizer, entre ele e a irmã gêmea, Francisca. E foi a ela que Francisco contou tudo e pediu cumplicidade. Queria que no domingo de carnaval a irmã o deixasse tão linda quanto a Mille:
- Pelas caridades, Fran. Você está de carro caído pela mulher que não gosta de homem. Mas não cabe a mim censurá-lo. Tem muita coisa sem pé nem cabeça no tal do sexo. A Afrodite não gosta de você, irmão, pois só lhe dá uma namorada se você for aprovado num sacana teste.  Que coisa!  Essa, essa, como é mesmo o nome dela?
- Mille.
- Ah, Mille. Se você não tiver ocultado o segredo de mim e se esse namoro caminhar, a tal da Mille é quem vai tirar a sua pureza, não é, meu irmão?
Francisco deu o sim de cabeça, quis perguntar se a irmã também era virgem, mas deixou pra lá. Até porque ela estava chorando rindo. Ou rindo chorando, já que ele não sabia o que era mais forte. Ou aquilo não passava de fingimento, posto a irmã gostar de zoar com ele, principalmente depois que cismou de ser atriz?  Francisco saiu-se com o “Que foi agora, Fran”?
Só restou a Francisca assoar o nariz e contar-lhe um guardadinho a setecentas chaves:
- Sou apaixonada por você, irmão. Sonho lhe tirando o que essa Mille pode tirar, entendeu?
Contudo, terá a minha cumplicidade. No que depender de mim, o tal coronel Mille vai se apaixonar por você. Mas acabei de ganhar dois problemas. O primeiro é que viverei eternamente amargurada se você conquistar a Mille. O segundo é que viverei eternamente amargurada se você não conquistar a Mille. Amo você, meu irmão. Muito. Muito e de todo jeito. Só quero o seu bem.
Por desconhecer se o “Sou apaixonada por você” era verdade ou brincadeira, Francisco apenas sorriu, lembrando-se do “sem pé nem cabeça do sexo”. Repentinamente sério, Francisco teve brutal susto, porquanto lhe vir à mente uma coisinha da qual morria de vergonha: de tempos em tempos, ele via a irmã de forma diferente. Não era o que estava sentindo pela Mille, mas de forma alguma era o que um irmão devia sentir pela irmã.
Como prometera, a irmã começou logo a instruir o irmão:
- Já que é um baile de fantasia, você irá trajado a rigor, perfeita dama da elite. Irá de longo, sapato alto e bolsa. Tenho o vestido e o sapato. Mas bolsa só tenho pequena. Precisamos duma maior.
- Por que?
- Porque se tudo terminar como deseja, você vai se declarar a ela no fim do enredo. Talvez até precise sair como homem. Precisa duma bolsa média a fim de levar um par de tênis, uma bermuda e uma camiseta. Pra não correr risco, por cima dessas coisas a gente põe alguns apetrechos femininos. Mais uma coisinha. Faltam dois meses pro carnaval. Dias suficientes para eu treiná-lo com os saltos altos e fazê-lo falar como mulher. Evite dar uma gargalhada, senão você se trai. Veremos depois outros detalhes, tá?
Bom, e foi assim, femininíssima e depositando mulher na imaginação dos homens, que o garotão Francisco imaginou seduzir a garota Mille. Vamos ver como se houve.
Na noite do domingo carnavalesco, a bela Francisco chega cedo ao Quintas Clube, ambiente, segundos os seus amigos, preferido pela coronel Mille. Dali a pouquinho, chega o coronel. Francisco logo se torna alvo do olhar aventureiro do coronel.
Quem é a bela criatura, perguntou Mille à amiga que a acompanhava. Do bairro não é, porquanto seria de mim conhecida. Preciso conhecê-la.
Da palavra à ação, Mille faz de tudo para entabular conversa com a bela criatura, que primeiro foge, volteia, evita, escapa. Tudo para se fazer desejar mais ardentemente. Por fim, dá-se o encontro. As impressões vulgares iniciam a conversa que, pouco a pouco, se torna mais interessante:
- Está um calor horrível. Vamos tomar um pouco de ar fresco?
- Ah!, moço, não me atrevo, desculpe.  Não o conheço e... E além disso, meu ex-noivo está no baile. Ele é muito ciumento, de maneira que é melhor...
- Bom, é preciso sobrepor-se a esses terrores de criança... Que idade tem, belo anjo?
- Dezoito anos.
- Ah! Aos dezoito anos se deve ter adquirido o direito de fazer tudo o que se quiser... Vamos, vamos, siga-me e nada tema.
Francisco deixa-se conduzir, por óbvio.
“Quer dizer que o ex de tão encantadora criatura está aqui?”, gracejou Mille, conduzindo o indivíduo que julgava ser uma moça para os arredores do clube.
Como afortunado homem abandona criatura tão linda? Gostaria de ter estado no lugar dele, meu anjo. Ficaria intrigada de mim se lhe roubasse um beijo? Responda francamente, filha celeste.
- Ah, moço, quando se é jovem seguem-se os movimentos do coração. E os movimentos do meu ainda pendem para o passado.
 - Está bem, mas faça pendê-lo para o futuro. Desbravaremos juntos esse porvir e dele ficaremos íntimos. Dele, ele de nós, você de mim, eu de você.
E assim, Mille cozinhando a cabeça de Francisco, e Francisco deixando-se cozinhar, pararam na porta de uma butique. Mille não dava ponto sem nó. Normalmente ia ao Quintas Clube com certas chaves, assim como se habituara a fazer aquele percurso.  Tanto que sempre chegava com sede à butique:
- Essa butique é minha. Vou tomar água. Quer também?
É claro que a moça Francisco queria. Entrar, não tomar água. Mas quem tem pressa come cru. Francisco precisava seguir os planos:
- Não. Espero-o aqui.
- Vai pegar um resfriado, meu anjo. Não vê que começa a chover? Entre, por favor.
“Oh, meu Deus!”, espantou-se Francisco, debatendo-se nos braços da Mille, a porta já fechada.
- Oh, meu Deus, que pretende fazer? Largue-me, largue-me, suplico-lhe.
“Vou retirar-te o poder”, anjo divino, declarou-se amorosamente Mille, imprimindo a bela boca sobre os lábios de Francisco.
Francisco se debatia muito fracamente: é difícil mostrar cólera quando se recebe ternamente o primeiro beijo de quem se adora. Mille, encorajada, atacava com força, empregava a veemência das mulheres seduzidas por aquela fantasia. Logo as suas mãos começam a passear. Francisco, representando a mulher que cede, deixa, igualmente, vaguearem as suas, e os dedos chegam quase ao mesmo tempo onde cada um deles julga encontrar o que lhe convém. Então, falsamente irado, Francisco se expressa:
- Minha nossa, com que então não passas duma mulher...
“Horrível criatura”, exclamou Mille, retirando a mão sobre coisas, cujo estado não podia sequer permitir a ilusão, e falou, desapontada:
- Tanto trabalho inútil. Você é um desprezível rapaz. É preciso ser muito infeliz...
“Não mais do que eu”, rebateu Francisco, falando com o mais profundo desprezo:
 - Uso o disfarce que pode seduzir os homens e só encontro uma puta.
- Puta, não. Nunca o fui em toda a minha vida. Não é porque se abomina os homens que se deve ser tratada dessa maneira.
- Como? Você é mulher e detesta os homens? Pode não se sentir atraída por eles, mas daí a detestá-los é...
- Detesto, sim. E pela mesma razão que você é homem e abomina as mulheres.
- Na verdade, moça, é ainda mais fastidiosa para mim. Sabia que na nossa Ordem fazemos voto de nunca tocar numa mulher?
- Parece-me que podem, sem se desonrarem, tocar numa como eu.
- Por minha fé, minha bela, não vejo que haja grandes motivos para exceção e acho que a sua devassidão reprovaria tamanha afronta.
- Sua devassidão? Como se atreve, se reprova a minha, mas cultiva outra tão infame?
Francisco ponderou a pergunta e resolveu dar uma cartada decisiva. A entonação da Mille, o quase sorriso, o “parece-me que podem”, davam-lhe pistas de sucesso. Por que não ousar?
- Não devemos querelar. Estamos num mesmo jogo, o melhor é nos separarmos e nunca mais nos vermos. Abra a porta, por favor. Quero sair.
- Um momento, um momento. Não vá agora. Vai divulgar a nossa aventura? Ninguém vai acreditar. Essa história é extraordinária, pois nos enganamos mutuamente. A repugnância é idêntica, mas a aventura é deveras divertida, temos de concordar. Ficarei aqui, não voltarei ao baile. O episódio fez-me sentir coisas novas, desgostou-me. Receio que o funesto encontro venha a custar a felicidade de minha vida.
- O quê? Não está segura de seus sentimentos?
- Ontem estava. Ah, lá vem você com, com... Está a enervar-me.
Nesse ponto, Francisco, o sangue frio, deu-lhe o xeque-mate:
 - Está bem, eu saio. Vou embora. Deus me livre de incomodá-la por mais tempo.
- Não! Fique. Poderá uma vez na vida obedecer a uma mulher?
- Nada há que não lhe faça, sou educado.
- Sabe que é horrível ter gostos tão perversos na sua idade?
- Julga que seja decente de na sua os ter tão execráveis?
- Oh, é muito diferente. Em nós é recato, é pudor. É orgulho mesmo. É o receio de se entregar a um sexo que só nos seduz para dominar. Entretanto, os sentidos falam e nos arranjamos. Se dissimularmos bem e nos revestirmos dum verniz de discrição, deixaremos a natureza contente e a decência e os costumes não se sentirão ultrajados.
- Eis o que se chamam de belos e bons sofismas. Por esse caminho tudo justificamos. E o que disse, afinal, que a minha Ordem não possa alegar em nosso favor?
- Absolutamente nada, meu anjo. É tudo muito simples. Passamos por cima de preconceitos a fim de que alguém de nosso sexo fique por cima da gente. Ocorre que, hoje, o sexo valeu-se de excêntricas artimanhas e vestiu em nós a saia justa do constrangimento. Mas, pensando bem, o triunfo da sua Ordem é igualmente da minha. Porque, de certa forma, a cada homem conquistado pela sua confraria, corresponde, em princípio, uma mulher a mais disponível pra nossa. Em resumo. Você deve continuar procurando os seus, eu devo continuar procurando as minhas. Fujamos, pois, dos terremotos emocionais. Agora pode ir.
Francisco pressentiu que estava perdendo o jogo. Mille era muito estável: ora pedia que ele ficasse, ora o mandava embora. Mas não se deu por vencido:
- Você é radical. Não vejo terremoto algum numa aventura fora do gráfico. Digo mais, ainda que me sinta acanhado:  sinto-me desconfortável por ter tomado um partido sem ter provado do outro. Por uma única mulher, desde que especial, eu estaria propenso a experimentar...
- O quê? Nunca ficou com uma mulher?
- Nunca. E você? Já ficou com um homem?
“Nunca. Fazemos bom uso de nossos princípios. Temos que admitir, meu anjo. Pode regressar ao clube”, ordenou ela, fitando-o com despeito misturado com o mais ardente amor.
- É claro, estou indo. Vai ficar mesmo aqui?
- É claro. Não quero ver mais nada depois da infelicidade de tê-lo conhecido. Obrigou-me a servir-me dessa expressão. Só de você dependia que eu usasse uma oposta.
- E como conciliaria a infelicidade de ter me conhecido com os seus gostos?
- O que não abandonamos nós quando amamos?
- De acordo, mas ser-lhe-ia impossível amar-me.
- Só seria impossível se você permanecesse com hábitos tão horríveis.
- E se eu renunciasse a eles?
- Eu imolaria imediatamente os meus sobre os altares do amor e...
- Acabo de a eles renunciar.
“Ah!, pérfida criatura, essa confissão, essa renúncia... Acabas de arrancar, arrancar”,  emocionou-se Mille, em lágrimas, deixando-se cair no sofá.
“Eu imolaria imediatamente os meus hábitos sobre os altares do amor. Você disse isso, falou assim, falou assim, criatura. Faria o sacrifício a fim de me amar. Nossa! Obtive da mais bela boca do universo a confissão mais lisonjeira que me seria possível ouvir”, comoveu-se Francisco, precipitando-se aos joelhos de Mille. Então retirou a máscara e declarou-se:
- Ah, eterno amor, reconheça o meu fingimento e digne-se a nunca me punir. É aos seus joelhos que imploro a graça e neles ficarei até ganhar o perdão. Está aos seus pés o rapazola mais apaixonado do mundo. Julguei necessário esse estratagema para vencer um coração cuja resistência aos homens era pública. Renovo-lhe o pedido de perdão, querida.
- Traidor, ladrão de sentimentos. Enganaste-me, mas perdoo-te. Perdoo-te, sim, desde que fiques me beijando como minutos atrás. Ah, como é bom um beijo roubado. Que beijo! Que beijo! Mataste-me com ele. Renasceste-me com ele. Agora sou somente tua, meu anjo.
Francisco, inundando com lágrimas as belas mãos que beijava, ergueu-se e precipitou-se nos braços que lhe eram estendidos.
Então se deu o beijo. Não roubado, mas com o sabor dele. Beijavam-se, Mille se desfazia do coronel, Francisco se livrava da dama de elite. Resvalaram-se para o sofá. A experiência, singular para ambos, transformou-se num delírio divino, numa dança sagrada, conduzida num fluir tranquilo e suave. Uma ondulação interminável, em que os corpos faziam apenas o que deviam ser feito um para ou outro, levando-os além da fronteira do êxtase e na direção do plano sutil da vivência mística.
            O som da chuva tornava a dupla inauguração libidinosa mais apetitiva. Nem se deram conta de que já estavam no carpete azulzinho. Adormeceram. Acordaram com os galos cantando. Encantaram-se novamente e novamente adormeceram. Despertaram na casa das nove horas. Francisco foi ao banheiro. Na volta, encontrou Mille na maior risadeira:
            - Estou rindo porque nossos corpos se conheceram, mas não sabemos sabe sequer o nome do outro. O amor apronta cada uma, não é, senhor, senhor, senhor...
            - O seu eu sei. Natal se orgulha de hospedar a senhorita Mille, a mulher mais linda do país. A galera daqui do bairro passou a sua ficha pra mim, Mille. Há tempos eu estava de olho em você, minha linda. Meu nome é...
            - Não diga. Depois. Por enquanto, vou chamá-lo de Agostinho, o nome de meu irmão. Seu olhar sedutor é igualzinho ao dele. Falar em igualzinho, seu jeito de se expressar, Agostinho, é idêntico ao de uma amiga minha. Sabe, amor, estou faminta. Você comeu todas as substâncias desta feliz garota. Vou em casa pegar uma roupa de meu irmão pra você. Vamos na rua comer alguma coisa, meu anjo.
            Francisco mostrou os objetos da bolsa e apenas riu com o “esperto safadinho” da Mille. Traçavam a programação do dia quando bateram na porta:
            - Abram a porta. Sei que estão aqui. Abram.
            - É a Fran, minha irmã.
            - Minha nossa! A Fran vai... E a Fran é sua irmã? Logo vi. Como danado ela sabe que... Já estou indo, Fran.
            De calcinha, apenas, Mille abriu um pedacinho da porta. Com uma cesta de café da manhã nas mãos, uma irada Fran entrou, empurrou a Mille, empunhou uma pistola e começou a dar ordens:
            - Senta ao lado dele, rapariga. Vai, senta. Fiquem sentados de frente pra mim, caralhos.
            - Pelo amor de Deus, minha irmã, guarde essa arma. O que...
            - Cale essa boca, meu irmão. Primeira coisa. Não quero escutar um pio dos dois. Um pio, entenderam? Pretendo matá-los depois que tomarem café, mas mato antes se derem um pio. Entenderam ou querem o desenho? Tomem o café. Vão morrer de barriga cheia. Comecem. Comecem. Conheço esse carpete, irmão ingrato. Eu e a sua putinha já esperneamos algumas vezes nele. Seduziu o meu irmão, eu sonhava tirando a virgindade dele, sua piranha. Aí você aparece e... Comam. Comam mais rápido. Vamos, vamos.
            Fran fica andando de um lado pro outro, a pistola apontada para os amantes. O cheiro de lança-perfume, além de dizer que ela começara ligadona a segunda-feira de carnaval, deixa mais tenso o casal, visto a consequente agitação do sistema nervoso dela. O rosto da Fran inala ódio. Fran pede que eles se alimentem normalmente, mas o tremor das mãos dos comensais vai de encontro ao pedido.
O desjejum já acabando, Fran põe água fria em possíveis táticas de reação dos namorados:
- Este troço é automático, são doze tiros com simples engatilhada. Não pensem besteiras.
            Por fim, Fran sentou-se e anunciou:
            - Mudei de planos. Vocês não têm culpa de nada. O sexo venceu o meu ódio. A infelicidade é minha. Quem vai morrer sou eu. Vou dar um tiro no ouvido.
Fran falou e encostou o cano da pistola no ouvido. O “Não, Fran” do casal saiu aterrorizante.
Fran afastou o cano do ouvido, colocou-o ao lado do nariz e apertou o gatilho.
O cheiro de lança-perfume tomou conta do ambiente. A pistola era tão somente um simulacro contrabandeado do Paraguai. As balas eram de éter perfumado. Fran interrompeu a gargalhada a fim de dar a última ordem:
- Vamos, gente. Deitem-se. Meu lugar é no meio. Escuta só, Mille. Quando o Fran pediu a minha cumplicidade para te conquistar, logo me veio à mente a ideia do ménage à trois. Até porque adoro o gostoso de meu irmão. Vou me sentir realizada.
            Impossível adjetivar a expressão facial dos “condenados”. Mas em pouco tempo os traços do êxtase apresentaram-se sorridente.
Fran deitou-se entre o irmão e a Mille, com a mão direita acariciava os mastrinhos da Mille, com a esquerda alisava o mastrão do irmão. Em seguida. Bom, em seguida...
Seguiram.

            Libidinoso julho de dezesseis,
            TC

            Nota:
            A ideia central desse texto não pertence a mim. Roubei-a do Marquês de Sade, libertino escritor francês (1740-1814). Trouxe os fatos para os anos 60/70 do século passado e ambientei-os na cidade – e no bairro - onde moro. Alterei muita coisa, em especial o desfecho do conto, completamente distinto do original. Conservei, contudo, certos torneios vocálicos usados pelo tradutor da obra. Caso pretenda ler o texto original, vá ao Google, digite Marquês de Sade e o título do conto, O Estratagema do Amor.
           

TC de novo