quinta-feira, 7 de julho de 2016

PEDAÇOS DE MIM – PARTE DOIS (Três inocentes textinhos curtos)





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A leitora Silvana enviou-me um imeio dizendo que havia adorado o post Pedaços de Mim (o terceiro aqui embaixo) e perguntou se eu seria capaz de mostrar outros pedacinhos. Taí, Silvana, especialmente pra você.

PEDAÇOS DE MIM – PARTE DOIS
(Três inocentes textinhos curtos)

A AGONIADA

Cada dia com a sua agonia, assim fala a voz das ruas. Mas é raro a moça ter agonia nova. Tem, sim, uma permanente.
Agonia no coração, mas agonia, embora seja agonia boa.
Ora acha que sim, ora acha que não. Quanta indecisão. E decidir é uma droga.  Porque nada é inconsequente e tudo terá o seu peso. Seja o que Deus quiser ou a prudência é o que Deus quer? Razão ou emoção? Que pedaço dela vencerá? Dela, mas pode ser dele, assim como pode ser seu. Calar ou falar? Talvez o último verbo, porquanto a decisão corajosa está em ela pronunciar entre sete e oito palavras. Será que cinco ou seis não resolveriam? E aquelas três famosas?
As palavras têm mais força que rachaduras em usinas nucleares. Até porque rachaduras e imperfeições outras nascem de palavras. Mal ditas, mal escritas, mal lidas, mas de palavras.
Palavras e tom de voz são os pais da antipatia. Poucas pessoas sabem disso. Poucas sabem a hora de falar, raríssimas gostam de escutar. Muitas não percebem o risco de pisar a mina atômica. Pisam e saem espalhando animosidades, distribuindo desavenças.
Hoje a agonia da moça está numa agonia só. Receio e confiança trocam bofetadas. Coração nervoso, mãos trêmulas, falta de ar nos pulmões. Eis as testemunhas do combate.
Onde vai parar isso? Protocolo podia muito bem só ser útil para eventos externos, nunca para as coisas do coração. Não precisa banda de música para a amizade se transformar em atração e o companheirismo em paixão. O protagonista poderia ser o amor, nunca o temor.
Será que ele - também pode ser ela – sabe que imaginação é diferente de visualização? Sabe ele que imaginar é visualizar o ainda não visto e que visualizar é imaginar o já visto? A moça sabia que ele sabia que ela vivia o imaginando. Mas ela não queria apenas imaginá-lo. Queria visualizá-lo.
Será que ele não vive me imaginando também?
Sem respostas, a jovem rabiscou de lágrimas os olhos e ficou olhando pra cima. Confusão mental, silêncio. Estarei fantasiando?
A moça sente frio, uma dor espantosa, vê-se sorrindo sem causa. A esperança morreu?
Tomara que não, pensou. Pedaços de soluços tilintando na cama, ela abraçou-se com o travesseiro e dormiu.
Queria sonhar com pedaços dele.

O COZINHEIRO

Naquela noite, de ressaca, toscanejando na encardida rede, sonhei que assava a minha namorada numa fornalha a lenha.
Ela adora a minha comida. Diz que o tempero é inigualável e excitante. Espera horas a fio por uma picanha ao ponto, uma quiche de linguiça, um espetinho de camarão ensopado no leitoso azeite de dendê. Nem pensar em desapontá-la. Pavio curto, é capaz das piores loucuras quando contrariada. A atenuante é que rapidamente se recompõe. Mas fica incomum sequela carnal, cujo sintoma é a rouquidão ocasionada pelo alvoroço da libido.
Eu visto o avental, e ela fica acompanhado meus tantos de quanto e quantos de tanto jogados nas panelas e afins. Entre uma dedada no celular e um risinho sobre algum vídeo, ela libera perguntas e afirmações acriançadas, tipo donde você veio, seu moço, e pode ficar certo de que ainda o dilacero com a minha plaina afiada. Não dou bola para os devaneios, pois, naquele momento, sou seu escravo. Mas quando cumpro a tarefa culinária, ela passa a ser escrava de mim.
Amamos a rotina das sextas-feiras à noite: ela lambe os beiços, solta o risinho gaguejado e ajoelha-se aos meus pés. Vai além do agradecimento. É submissão pura.
       Não diz nada. Nem precisa. É assim que ela antevê o sabor da minha arte e dá vida à imaginação gulosa.
O ápice do ritual acontece quando coloco um pedaço de torta de limão em sua boca.
            Só que (tenho um pé atrás com esse soque), naquela noite, vejo-a esperneando na fornalha. Quanto mais esperneava, mais lenha eu botava no forno. Queria que ela ficasse bem tostadinha. Pensava em comê-la à milanesa e chupar as cartilagens em que se transformariam os ossos. E assim fiz. Só achei um pouco enjoativos. Por isso acordei. Ela dormia profundamente.
Encharcado de suor, fui chorando pro banheiro. O coração estava todo despedaçado.
Soluçava quando escutei os gritos:
- Amor! Cadê você, amor? Você me cobre de beijos e corre, é?
Não disse nada. Corri, caí na cama e comecei a beijá-la.
Pedaços de mim e dela começaram a se lambuzar.

A CHURRASQUEIRA

Homem é muito sem noção mesmo. Sonhei assando você num forno a lenha. Tostadinha, comia você e depois chupava os ossos. Assim falou o meu namorado, num restaurante, jantar à luz de velas. Fechei a cara, porém não resisti à curiosidade e perguntei. E aí? Gostou? Adorei, respondeu, despedaçando o romantismo. Mas logo o emburramento passou. Fomos para o chalé eu mordiscando a sua orelha.
Estávamos em uma praia paraíso, num chalé celestial. Na noite seguinte, optamos
por jantar no chalé. Até porque ele estava a fim de assistir a um jogo do Fluminense. Ele ligava a tevê, eu ligava para a recepção e pedia umas coisinhas:
- Pode deixar que preparo os comes. Vou fazer uns assadinhos, tá?
- Hum! Assadinhos, é?
Dessa vez abri um sorrisão safado. Não sou lá essas coisas em fogão, mas como ele não é lá essas coisas em exigência, encarei a tarefa. Algo singelo, asinhas de frango, linguiça e queijo. Ficamos em meio a almofadas, beliscando as aguarias e nos beliscando. Ele tomava uísque, eu bebia vinho.
O jogo foi pra prorrogação, ele foi pros braços do Morfeu. Roncava feito um porco. Eu o chamava, ele balbuciava algo. Merda e droga, assim eu decifrava os ruídos.
Injuriada, fui à cozinha. A primeira facada dei no coração e a espetada no meio dos colhões. Fiquei o esfaqueando, espetando e repetindo: quer dizer que meus espetinhos são umas merdas, umas drogas, é? Não sei de onde tirei tanta força para colocá-lo em cima da mesa, pois nela era mais fácil desconjuntá-lo. Comecei cortando o pescoço. Pensava em comer acebolados os miolos da cabeça, tal qual via meu tio preparar as cabeças de bode lá no interior. E assim fiz. Só achei um pouco enjoativos. Por isso acordei. Ele dormia profundamente.
Encharcada de suor, fui chorando pro banheiro. O coração estava todo despedaçado.
Soluçava quando escutei o grito de campeão. O Fluminense acabava de ganhar nos pênaltis e o homem da tevê acabava de acordar o meu homem.
- O Fluminense foi campeão, amor. Cadê você, amor? Venha aqui. Tem algum assadinho pra gente comemorar?
Não disse nada. Corri e me pendurei em seu pescoço.
Pedaços de mim e dele começaram a se lambuzar.

Julho/16
TC