sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O INFERNO É AQUI MESMO?




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O INFERNO É AQUI MESMO?

Preso no trânsito, ele perdeu a paciência e pôs-se a gritar, esmurrando o volante:
– Diabo! Diabo!
Ouviu-se um estrondo, uma nuvem de fumaça invadiu o interior do carro e, quando ela se dispersou, lá estava, sentada no carro, a figura inconfundível: os pequenos chifres, os olhinhos malignos, o rabo. O Diabo, em pessoa, sorridente:
– Chamaste-me? Aqui estou.
Apavorado, o motorista não sabia o que dizer. Queria voltar atrás, foi engano, Senhor Diabo, eu não chamei ninguém, eu estava apenas protestando contra o trânsito; mas, como se tivesse adivinhado o seu pensamento, o demônio apressou-se a acrescentar:
– E vim para ficar. Você sabe, ninguém invoca impunemente o nome do Demônio. De modo que você pode me considerar seu eterno passageiro. Relaxe, fique tranquilo. Temos muito tempo para conversar.
O pobre homem não dizia nada. Olhava o tridente que o Diabo tinha ao lado e se perguntava em que momento começaria a ser espetado com aquela coisa. Isso sem falar no fogo do inferno que decerto em pouco tempo estaria aceso ali. Tentou disfarçadamente abrir a porta; como suspeitava, estava trancada. Demônios sabem como usar a tecnologia moderna contra suas vítimas. Suspirou, pois, e preparou-se para o sofrimento.
Lotado de crendices, o homem, o Dudu, deu-se conta

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A SENHORA DO JOGO




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A SENHORA DO JOGO

Responda-me daqui a pouquinho. De quem é a culpa? Da invisível mão, dos dois paus-mandados dedinhos ou da impulsiva cabeça? Seria do conjunto da obra? Ou o trio anatômico não tem culpa de nada, porquanto o ato supostamente punível ter sido simples efeito de uma causa. A meu ver, o delito é sempre da causa, não da consequência. É da origem, não do destino. É o cúmulo da paspalhice absolver causa e punir consequência. É evidente que existem causas e causas, como evidente é que existam consequências e consequências.
Pois não é que ela – a causadora, a razão de ser - acabou induzindo o grande júri a condenar o ser da razão, a vítima?
Culpado pelo conjunto da obra, exceto pela mão invisível, assim decidiram os jurados.
Tudo começou na primeira encarada. Ali rolou aquele clima e ela me seduziu, ainda que eu tenha julgado atípicas as oscilações faciais: ora ela sorria, ora ela careteava. Majestosa e maquiavélica, já que, em sonhos, imaginando-a, fazia-me experimentar o místico prazer e, acordado, fazia-me sofredor, por vezes, em razão da indiferença.
Convivemos inúmeras estações nesse tumultuoso compasso. Tumultuoso, mas que não impediu de me deliciar com a dupla vertente dela. Rapidinhas, curtinhas, espaçadas, em média três vezes ao mês, é verdade, mas de extremo êxtase. Ela parecia um ser de outro mundo, tão singular excitação me impunha o corpo soneteado. Trocávamos intimidades, ficávamos proseando, ela reprovando com o não de cabeça, aprovando com o sim dos olhos, mas fazendo beicinho por eu não entender a sua veia poética. Estou por ver criatura mais enigmática.
A sarrabulhada começou quando lhe disse que queria um rebento, um formoso filho que atestasse a nossa relação, e ela contrapôs dizendo que eu não tinha condições de fazê-la parir um rebento assim. Pior. Jogou-me na cara a preferência por celebridades. Esses, sim, faziam filhos formosos, de futuro.
Não suportei a afronta. Injuriado, voei pra cima dela. Só não digo que a estuprei porque ela revirava os olhinhos. O rebento nasceu. Dei-lhe o nome de Toinho. Mas ela o renegou, tanto que não moveu uma palha para que o pimpolho tivesse o merecido reconhecimento. Botei-a na Justiça, é claro, acusando-a de ter abandonado o filho. De mais a mais, peticionei para que ela conversasse com os canais competentes a fim de que o nosso moleque tivesse um futuro.
Perdi, gente. O grande júri me condenou a... Já, já direi a pena.
Jamais imaginaria que aquela encarada seria o meu cadastro na confraria dos trouxas e que estaria encetando o protocolo da frustação. De nada valeram os argumentos de que a coisa só chegara àquele ponto porque ela me seduzira, fora a causa de tudo. Ele é quem foi seduzido por mim, é o causador do imbróglio, rebatia ela. Ela me seduziu e ser seduzido por ela dá no mesmo, retrucava eu. Não, contestava ela. E explicava: “ela me seduziu” é algo avassalador, de cara, pontual. Impensável para uma pessoa experiente como você, TC. Já “o ser seduzido por ela” é algo que vai se formando, analisando-se, ponderando-se, entendeu? Você se iludiu, TC. Aí ela voltou-se para o grande júri e foi impiedosa comigo:
Não queria esse filho, senhores, porque o TC não tinha condições de fazê-lo imponente. Sabia que o moleque sairia mal-amanhado. Para fazer filho em mim não basta querer, tem que saber. Não sou uma parideira qualquer. Renego essa cria, senhores. O TC me estuprou, essa é a verdade.
        Como disse, gente, fui condenado. Paciência. Só não gostei do discurso debochado quando ela se despedia de mim: perdeste, boy. Ganhei no jogo de palavras, artimanha em que és péssimo. E saindo, acenando, foi dizendo:
         És muito ruim de jogo, TC, eis outra verdade.
       Essa oração foi tremendo canto de carroceria em mim. Sou bom de jogo, pessoal. No de palavras talvez não, mas sou dez no de negociador, vendedor. Vendi muito saco de papel feito de saco de cimento, picolé, cocada, bolo e por aí vai. Agora, minha especialidade foi jogo do bicho. Fui o melhor cambista na minha época. Não é fácil vender sonhos. Vender tantos reais no cachorro é moleza. Principalmente quando o jogador chega com aquele palpite. Difícil é fazê-lo jogar no macaco, sob o argumento de que quem joga no cachorro joga no macaco. Difícil é com a dúvida pôr a esperança na mente do infeliz.
         Sou muito bom de jogo, verdade seja dita.
Bom, voltemos à literatura.
Ela me seduziu na primeira leitura. Instalava-se