sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A SENHORA DO JOGO




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A SENHORA DO JOGO

Responda-me daqui a pouquinho. De quem é a culpa? Da invisível mão, dos dois paus-mandados dedinhos ou da impulsiva cabeça? Seria do conjunto da obra? Ou o trio anatômico não tem culpa de nada, porquanto o ato supostamente punível ter sido simples efeito de uma causa. A meu ver, o delito é sempre da causa, não da consequência. É da origem, não do destino. É o cúmulo da paspalhice absolver causa e punir consequência. É evidente que existem causas e causas, como evidente é que existam consequências e consequências.
Pois não é que ela – a causadora, a razão de ser - acabou induzindo o grande júri a condenar o ser da razão, a vítima?
Culpado pelo conjunto da obra, exceto pela mão invisível, assim decidiram os jurados.
Tudo começou na primeira encarada. Ali rolou aquele clima e ela me seduziu, ainda que eu tenha julgado atípicas as oscilações faciais: ora ela sorria, ora ela careteava. Majestosa e maquiavélica, já que, em sonhos, imaginando-a, fazia-me experimentar o místico prazer e, acordado, fazia-me sofredor, por vezes, em razão da indiferença.
Convivemos inúmeras estações nesse tumultuoso compasso. Tumultuoso, mas que não impediu de me deliciar com a dupla vertente dela. Rapidinhas, curtinhas, espaçadas, em média três vezes ao mês, é verdade, mas de extremo êxtase. Ela parecia um ser de outro mundo, tão singular excitação me impunha o corpo soneteado. Trocávamos intimidades, ficávamos proseando, ela reprovando com o não de cabeça, aprovando com o sim dos olhos, mas fazendo beicinho por eu não entender a sua veia poética. Estou por ver criatura mais enigmática.
A sarrabulhada começou quando lhe disse que queria um rebento, um formoso filho que atestasse a nossa relação, e ela contrapôs dizendo que eu não tinha condições de fazê-la parir um rebento assim. Pior. Jogou-me na cara a preferência por celebridades. Esses, sim, faziam filhos formosos, de futuro.
Não suportei a afronta. Injuriado, voei pra cima dela. Só não digo que a estuprei porque ela revirava os olhinhos. O rebento nasceu. Dei-lhe o nome de Toinho. Mas ela o renegou, tanto que não moveu uma palha para que o pimpolho tivesse o merecido reconhecimento. Botei-a na Justiça, é claro, acusando-a de ter abandonado o filho. De mais a mais, peticionei para que ela conversasse com os canais competentes a fim de que o nosso moleque tivesse um futuro.
Perdi, gente. O grande júri me condenou a... Já, já direi a pena.
Jamais imaginaria que aquela encarada seria o meu cadastro na confraria dos trouxas e que estaria encetando o protocolo da frustação. De nada valeram os argumentos de que a coisa só chegara àquele ponto porque ela me seduzira, fora a causa de tudo. Ele é quem foi seduzido por mim, é o causador do imbróglio, rebatia ela. Ela me seduziu e ser seduzido por ela dá no mesmo, retrucava eu. Não, contestava ela. E explicava: “ela me seduziu” é algo avassalador, de cara, pontual. Impensável para uma pessoa experiente como você, TC. Já “o ser seduzido por ela” é algo que vai se formando, analisando-se, ponderando-se, entendeu? Você se iludiu, TC. Aí ela voltou-se para o grande júri e foi impiedosa comigo:
Não queria esse filho, senhores, porque o TC não tinha condições de fazê-lo imponente. Sabia que o moleque sairia mal-amanhado. Para fazer filho em mim não basta querer, tem que saber. Não sou uma parideira qualquer. Renego essa cria, senhores. O TC me estuprou, essa é a verdade.
        Como disse, gente, fui condenado. Paciência. Só não gostei do discurso debochado quando ela se despedia de mim: perdeste, boy. Ganhei no jogo de palavras, artimanha em que és péssimo. E saindo, acenando, foi dizendo:
         És muito ruim de jogo, TC, eis outra verdade.
       Essa oração foi tremendo canto de carroceria em mim. Sou bom de jogo, pessoal. No de palavras talvez não, mas sou dez no de negociador, vendedor. Vendi muito saco de papel feito de saco de cimento, picolé, cocada, bolo e por aí vai. Agora, minha especialidade foi jogo do bicho. Fui o melhor cambista na minha época. Não é fácil vender sonhos. Vender tantos reais no cachorro é moleza. Principalmente quando o jogador chega com aquele palpite. Difícil é fazê-lo jogar no macaco, sob o argumento de que quem joga no cachorro joga no macaco. Difícil é com a dúvida pôr a esperança na mente do infeliz.
         Sou muito bom de jogo, verdade seja dita.
Bom, voltemos à literatura.
Ela me seduziu na primeira leitura. Instalava-se
ali a paixão. Sensível, alguns livros aplicavam-me caretas de risos, alguns, de choro. Por vezes, sonhava com as histórias lidas. Não demorou muito e entrei na segunda vertente dela: comecei a escrever. Textos curtos, de rápida composição. Escrevia, em média, três prosas (não tenho a veia poética) por mês. Ficava extasiado quando as relia. Também não demorou muito para eu pensar em escrever um romance. Pensei assim: vou fazer o fura-bolo e o maior de todos trabalharem (sou dedógrafo, gente). Nisso, bela voz feminina passou a esporar o descrédito: Não tens bagagem pra isso, editora alguma vai querer teu mal-amanhado, elas só publicam celebridades, tens que partir para a autopublicação, ninguém vai te ler, a mão invisível do mercado vai te dar as costas, vais estuprar o bom senso.
Não dei bolas para a voz feminina e fiz a impulsiva cabeça imaginar bobagens. Nascia assim o meu rebento literário. Toinho, Seu Danado é o nome dele. Está dormindo no Clube de Autores (www.clubedeautores.com.br).
Os vaticínios venceram: Toinho não teve futuro. Azedou-se a minha relação com a literatura, embora eu permaneça a amando. Sinopse no Facebook, no meu blogue, o Pocilga de Ouro, e em outros veículos, nenhum desses competentes canais fez o Toinho decolar. A literatura bem que podia ter soprado bem-aventuranças no ouvido desses leitores, o grande júri. Agisse dessa forma e eu não teria sido condenado a vender tão somente onze exemplares do bicho.
E você, meu nobre, acha que o grande júri tem razão ao ter me condenado pelo conjunto da obra, conquanto tenha deixado de fora a mão invisível do mercado?
Ah, falar em obra, tive um arranca-rabo com o representante do grande júri tão logo ele leu a sentença. Perguntei-lhe se, ao menos, tinha visto a capa do livro. Em resposta ao não, disse-lhe que eu estava sendo vítima dum golpe, pois estavam me condenando sem provas. Se não tinham visto sequer uma linha do livro, como decidir pela condenação e afirmar que o danado não merecia ser lido? Não precisamos de provas. Bastam-nos os indícios. É assim que o sistema funciona. Literatura, a exemplo de política partidária e economia, tem muito de jogo. Bote isso na cabeça, TC, disse ele, entre as palmas da desfaçatez. Indícios? Mas se nem isso há? Como não há? Pode prestar um livro, cujo autor tem o sobrenome Carneiro? Se fosse Coelho o sistema já o acolheria, compreendeu? Quer um conselho? Se ainda se atrever a publicar um livro, ponha como autor um nome cheio de ywx. Faça assim que o sistema faz o resto.
Bem, transgressor assumido, não me conformei com a sentença e pedi que o Clube de Autores me enviasse quatro exemplares. É bom estar preparado, não é verdade? Vai que algum incauto culto... Faz cinco meses que os livros chegaram. O pacotinho ainda está lacrado.
            Agora, sabem aquele ditado de que onde menos se espera... Pois! Pois só ontem eu percebi a numeração daquela etiquetona do pacote. Está escrito nela: 0312. Bonito milhar. Milhar de burro, o 03. Vou jogar. Pensei e joguei. Joguei alto, quarenta reais, o preço do livro. Joguei invertido e do primeiro ao quinto. Não dei chance pro azar.
            Gente! Vocês não vão acreditar.
            Nem fino tirei. Deu carneiro, o número 07. O 0312 nem na foto saiu, como costumava falar um dos meus fregueses.
            Cocei a barba e falei alto:
            Esse livro é mesmo ruim de jogo.
           
            Setembro/16 (Leão no bicho)
            TC