domingo, 30 de outubro de 2016

A LEI DO AMOR PASSADA A LIMPO NO BOTECO 891


A LEI DO AMOR PASSADA A LIMPO NO BOTECO 891




Moro praticamente defronte do Boteco 891, local em que ambientei a última postagem (O Surreal Boteco 891. Veja post abaixo). Nele, costumo fazer os minutos rirem, pois fico tangendo cerveja pra dentro e empurrando conversa pra fora. Sou assíduo do prazeroso, mas não tinha ido lá depois da postagem. Ontem dei as caras. Como sempre, acomodei-me numa mesinha da calçada. Acenando-me um vou já, e já sorrindo, Vanessa, a dona do boteco, atendia a uma senhora.
O “vou já” não passou de trinta segundos. A atenciosa veio me atender rindo amarelo. Explicava-se, baixinho, dentes cerrados, ar de preocupação: “Que estranho, Bastião. A moça aí usa três smartphones ao mesmo tempo. Impressionante como digita rápido. Outra coisa. Ela tem um punhal na bolsa. Vi quando pegou um batom. A troco de que ela anda com um punhal? Mais uma coisinha. A lindona não tira o olho de seu portão. Cuidado, Bastião.”
- É linda mesmo. Será do bairro?
      - É não. Apareceu do nada. Quando não digita, grava áudio. Fala um bocado de língua, viu?  Espanhol, inglês e francês dá até pra saber que foi. Mas outras não sei nem para onde vai. Será terrorista, Bastião?
Vanessa não esperou a resposta. Entrou e voltou abrindo uma cerveja. Abria e abria-se em risadas. Lembrava-se da postagem: “Que viajada, hein? Como é que uma criatura inventa essas coisas, meu Deus do Céu? E fica inventando, inventando, inventando. Bom é que parece real.
Quando lhe parece real é porque o texto ficou bom. A gente se acostuma a mentir, Vanessa. Cria uma história, publica, esquece. Continua a criar, volta a publicar, torna a esquecer.
“Mas não devias esquecer”, censurou a mulher dos smartphones,
que da mesinha dela curtia a resenha. Advertiu e caminhou na nossa direção. Chegou a nós deixando o caminho obstruído pelo excesso de beleza. Pisava e já deixava visível a libidinosa cratera de fêmea. Contemplá-la deveria ser cláusula pétrea da Lei do Amor. Tal ser olhou-me fixamente, olhou para uma cadeira e soltou um “posso”? Assenti, melhor, suspirei, com um “Por favor”.
- Ficaste bem com essa barba, Tião. Faz duas águas minerais que estou te esperando.
- Se soubesse disso, teria vindo antes. Mas, desculpe, de onde nos conhecemos? Toma uma cervejinha?
- Aceito. Estás a me conhecer agora, mas há três dias te conheço. Escuta só. Li tua ficção, O Surreal Boteco 891, num jornal português, o Público. Amei, viu, Tião? Preciso conhecer esse ficcionista, pensei.  Pensei já pensando em te pedir um favor. Daí entrei na internet e aqui estou.
- Mas...
- Facílimo, Tião. Para a internet inexistem dificuldades e segredos. Principalmente para mim, vidrada que sou nas redes sociais. Apelidaram-me de Maria Internet, acreditas? Bom, o feice me disse que o Boteco 891era real. Deu-me até o mapa de como chegar aqui e o número do telemóvel da proprietária, a D. Vanessa. Depois o Google informou que TC era Tião Carneiro, que Tião Carneiro tinha um blogue, o Pocilga de Ouro, que Tião Carneiro tinha o imeio tcarneirosilva@gmail.com. Aprofundei a pesquisa e descobri o teu endereço residencial, coincidentemente a mesma rua do boteco, frente a frente com ele, por assim dizer. O avião escreveu o resto da história, trazendo-me para a tua bela cidade. Natal é linda, Tião.
Certo é que daqui fiquei a ver o entra e sai no teu portão. Tive dúvida se eras tu que saías para o mercadinho, já que estás sem barba na foto interna do Pocilga. É isso.
Botei o queixo no chão com a história. Estaria a moça gozando comigo? Seria a Silvana, leitora desconhecida, que escreve na segunda pessoa a fim de comentar brincando as minhas postagens? E o punhal na bolsa, segundo a Vanessa? Difícil aceitar a amalucada exposição da moça. Pensei assim, mas falei assado:
- Não sei o que falar. Estou realmente embasbacado, minha jovem. Como é mesmo o seu nome? Então você veio de Portugal só para me...
- Para te conhecer, parabenizar e pedir um favor. Mas agora tenho de te puxar a orelha, pois estou a desaprovar certo comportamento teu. Não vim de Portugal, não. Apenas li a ficção num jornal português. Venho de Moçambique, Tião. Meu nome é Maria Metade...
É verdade. Podes rir, estou acostumada com esse risinho de canto de boca, Tião. Olha só. Sempre fiquei entre o meio e a metade. Nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade. Daí o meu nome: Maria Metade. Sabes aquela história de cara-metade? Nasceu de mim. Era assim que meu esposo me chamava. Ironicamente, viu, Tião?
A meu esposo chamavam de Seis. Desde nascença ele nunca ascendeu a pessoa. Em vez de nome lhe puseram um número. O algarismo dizia toda a sua vida: despegava às seis, retornava às seis. Seis irmãos, todos falecidos. Seis empregos, todos perdidos. E seis amantes, todas atuais.
Das poucas vezes que me falou, nunca para mim olhou. Estou ainda por sentir seus olhos pousarem em mim. Engravidei, certa vez, Tião. Mas foi semiprenhez. Desconcebi, em meio tempo, meio sonho, meia esperança. Depois do aborto, reduzida a ninguém, meu sofrer foi ainda maior. Sendo metade, sofria pelo dobro.
A verdade não confio a ninguém. A minha força vem da mentira. Minto até a Deus, Tião. Afinal, Deus me trata como meu marido: um nunca me olha. O Outro nunca me vê. Nem um nem outro me ascenderam a essa luz que felicita outras mulheres. Sequer um filho eu tive. Que ter-se filhos não é coisa que se faça por metade. O que aspiro é ficar em sombra perpétua. Condenada por crime maior: ter apunhalado meu marido, esse a quem prestei juramento de eternidade.
Foi em tarde de cinza, o céu descido abaixo das nuvens, Tião. Pretendia descosturar-me do Seis, meu marido. Queria me ver separada dele, desunidos até a morte nos perder de vista.
Tomada a decisão, fui receber o Seis na porta, a roupa abotoada por metade, o punhal escondido em minha mão. Chovia, de lavar céu. Eu mesma me aguei aos olhos de Seis. Brinquei, provoquei, mostrei o cinto desapertado. Provoquei com perfume que minha vizinha me emprestou.
– Você quer-me molhada pela chuva?
– Quero-lhe é mais molhada que chuva.
Então, quase derrapei em minha decisão. Estava-se emendando fatalidade, entende, Tião? É que, por primeira vez, meu marido me olhou. Mas o gesto já estava fadado em minha mão e, num abrir sem fechar de olhos, o meu Seis, que Deus o tenha, o meu Seis estava todo pronunciado no chão. Decorado com sangue, aos ímpetos, mapeando o soalho.
Relate o sucedido, mas não confesse crime. Você não lhe tirou a vida. A vida, a bem dizer, já não estava nele. O que sucedeu, foi ele tombar sobre o punhal, tropeçado em sua bebedeira. Seu Seis se converteu em meia dúzia por culpa dele. A você só condiz a metade do destino. Foram essas as orientações de meu advogado, Tião. E de tê-las acatado me arrependo. Porque esse assassinato, Tião, me faria sentir inteira. Por agora, prossigo metade, meio culpada, meio desculpada.
Por isso eu suplico, Tião. Bom ficcionista que és, faz uma postagem no teu blogue repondo a verdade sobre o episódio. Prova, com todas as letras, como prova provada, que eu, Maria Metade, matei meu esposo, o Seis. Escreve que ele não tropeçou na bebedeira coisíssima nenhuma. Convence o leitor de que a verdade é que enfiei o punhal de dez no coração do Seis. Terei garantia de que não sou mais meia, que estou inteira, quando o pé de pensamento me levar ao inferno e ficar vendo o Seis olhando para mim. Só para mim, só para mim, só.
Fazes esse obséquio para mim, Tião?
Como classificar aquele discurso sem pé nem cabeça? Hilário estaria de bom tamanho? Estava na cara que a linda era pinel. Prometer seria a melhor saída:
- Mas é claro, Maria. Duplicará se depender de mim. Agora, o que fiz para merecer o puxão de orelha?
- Crio, publico, esqueço. Falaste assim para a Vanessa. Estás errado, Tião. Não deves esquecer teus personagens, porquanto eles jamais esquecerão de ti. Eles te amam. Conheces a Lei do Amor? Reza assim o seu artigo único:
“Perdoai sempre o vosso criador, por mais crueldade que ele tenha impingido a vós e por mais dolorido que tenha sido o parto. Lembrai: ele é vosso pai. Perdoai sempre a vossa cria, por mais retraída ou independente que ela tenha se tornado de vós. Lembrai: ela é vossa filha. Amai-vos uns aos outros”.
“A causa do puxão de orelha é o pecado. Pecas ao esquecer as tuas crias. És um tremendo transgressor da Lei do Amor, Tião”, disse a pirada, emborcando um copo de cerveja, chamando a Vanessa e informando:
- Adorei teu boteco, Vanessa. Tanto que há pouquinho tempo estava no zap a convidar alguns colegas para se fazerem presente aqui na noite do próximo sábado. Já confirmaram a presença o Quixote, a Emília, o Leopoldo Bloom, a Capitu, o Romeu, a Julieta, a Alice, o Grey, a Anastásia, a Esmeralda, o Ojuara, o Macunaíma.
Solenemente, a Vanessa agradeceu. Agradeceu, mas não teve coragem de olhar pra mim. Nem eu pra cara dela. Aí, do nada, como diz a Vanessa, a aluada saiu-se com esta:
- Agora preciso fazer um sexo animal contigo, Tião.
- Quê?!
- E tu comigo, por óbvio. Exigência do Macunaíma. Sabes como ele é, não? O Macu quer por quer curtir um sexo animal entre mim e ti. Pediu-me até que mandasse o filme com vídeo. Então! Não queres fazer sexo animal comigo, Tião?
Ficamos a sorrir, como fala a Maria, já que escandalosos e eróticos miados ecoavam dos telhados vizinhos. 
A vida atendendo o chamado da arte, balbuciei.
Não me chamou não, Bastião. Mas tome. Saiu agora. Um caldinho de mocotó. É bom para os miolos de gente fraca. Nossa! Que viajada, hein, amigo?

Outubro/16 de longos e seculares miados,
TC

Atenção, gatas e gatos:
Essa ficção foi malograda tentativa de brincar com o inquietante texto “Meia culpa, meia própria culpa”, cuja autoria é do moçambicano Mia Couto, pseudônimo do escritor Antônio Emílio Leite Couto. Arguto que é, leitor, deve ter se deliciado com a vestimenta de pontuais períodos do ilustre autor africano, bem distinta do traje caipira de minhas frases. Ah, o sexo animal entrou aqui porque eu queria fazer alusão a gatos, uma das paixões do nobre escritor Mia.

Miau!!!!!