segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A VERDADE SOBRE A MENTIRA




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A VERDADE SOBRE A MENTIRA

Li tua prosa resolutiva, meu. Começaste bem, mas terminaste de maneira desastrosa. Omitiste importante detalhe e foste extremamente cafajeste no final. Palmas pra ti. Ganhaste o Nobel da cafajestagem. Estou bastante chateada contigo, Flavinho. Só não termino nosso relacionamento porque te amo. E não posso, essa é a verdade. Ninguém merece, Flavinho. Misericórdia.
Lembro-me de tudo, cara. Mesmo porque não faz muito tempo. Aconteceu no hipermercado Prudente, a tarde de sábado chamando a noite. Ambiente lotado, motoristas de carrinhos se acotovelando, avistaste-me naquele corredor. Fingias-me não me dar atenção, mas a languidez do olhar te denunciava.
Por fim, chutaste o fingimento e ficaste me encarando. Lias-me, desnudavas-me. Chegaste a lamber os beiços. Fiquei impassível, traço comum à minha origem russa. Sabias que lá... É melhor deixar esse lá pra lá, Flavinho.
Sabes, Flavinho, não te entendi, juro. Ora de ternura, ora de raiva, assim era teu olhar. Ora de fuga, ora de aproximação, eram esses teus gestos. Parecia que aquela era a primeira vez que me levavas ao teu apartamento. Ah, meu pai, o que deu no Flavinho, pensava eu. Pensava e me lembrava
de outras vezes, tempos em que juntos passávamos momentos agradáveis, quando chegavas ao delírio, não nos importando se a causa era grandes alegrias ou pequenas tristezas. Não te continhas, teu comportamento ficava cambaleante. Mas nunca levantei o dedo, a voz ou a tampa da censura. Pelo contrário, sempre zombei de teus excessos e devaneios.
Como estava a dizer, encaravas-me com olhares e gestos contraditórios. Então, nuns segundos de ternura, agarraste-me com carinho, embora demonstrasse fraqueza, como se se render aos meus encantos fosse pecado. Deixei-me levar sem uma palavra sequer, sem oposição, sem mostras de alegria ou aversão. Apesar de eu estar aos olhos de todos, procuravas me esconder a fim de que não reprovassem a nossa parceria. Estavas inseguro, Flavinho. Não confiavas nem nos cabelos brancos, que, conquanto impusessem respeito, poderiam despertar olhares repreensivos, principalmente de senhoras aparentemente distintas que também aguardavam naquela fila do caixa, aproveitando a oportunidade ociosa para julgar o semelhante. Estavas louco para chegar ao apartamento, eis que em público, ou mesmo com amigos, receavas censuras e chacotas. Jamais me exibiste aos outros, Flavinho. Tens vergonha, é? Nossa! Precisas ser autêntico, assim como autêntica sou.
Suavas frio ao sair do meio daquela gente. Foi tormentoso encontrar o caminho da saída, porquanto escandalosa a tua ansiedade em ficarmos a sós. Estavas tão nervoso que ao ouvir um rapaz conversando com um amigo logo imaginaste que eles falavam de mim. Falavam sobre eutanásia, mas, na tua cabeça, eles se referiam a mim, Anastásia. O ciúme te dominava, Flavinho.
Não devia tornar isto público, mas, entre novinhos e coroas, prefiro estes. Novinhos são apressados e descuidados. Coroas são experientes e cuidadosos. Infundado, portanto, o teu ciúme. Não confundas fidelidade com exclusividade, Flavinho. Sou exclusiva tua quando contigo me aconchego. Mas a exclusividade muda quando aconchegada com outro. Entretanto, sempre julgas que exclusividade a alguém exprime infidelidade a ti. Desculpa a lavagem de roupa suja, mas estás a merecer um banho dessa água, sim. Falo essas coisas em tese, pois sabes ser impossível eu me separar de ti. E tu de mim. Mas...
Enfim, do lado de fora, sob uma leve e fria chuva anunciando que outono se findava, chegamos ao estacionamento.   Apertavas-me com uma das mãos, como se estiveste temendo acontecer algo de ruim comigo. Nada disseste, mas teu corpo falava isto: desejo-te junto a mim, quero que sejas inteiramente minha.
O automóvel corria com o limpador de para-brisa ligado e, a cada lapso de tempo em que durava a oscilação, davas-me a impressão de que estavas diante de uma tela de cinema, a assistir memorável filme, antevendo a dança dos lábios, o gole redentor, a intensidade dos momentos futuros.
Chegamos. O apartamento bagunçado não me causou surpresa, posto estar acostumada com a desarrumação. Iríamos para o que viemos, mas antes optaste por relaxante banho quente.
Vibraste ao me ver roçando em ti, mas tremias por não encontrar o jeito de rapidamente servir-se de mim. Por fim, obteste sucesso e puseste os sedentos e apressados lábios em minha boca.  O prazer daquele momento foi para ti indescritível, dizia-me teu revirar de olhos. Inegavelmente a primeira é sempre a melhor, não é, Flavinho? Finalmente criaste coragem e, num relampejo de audácia, soletraste meu nome: A-nas-tá-sia.
Ficamos assim, num êxtase só, minha boca na tua. Inicialmente, sugavas-me com ferocidade, com loucura. Mas foste te contendo até atingir um ritmo lento, sem volúpia ou desespero. De vez em quando nos separávamos por alguns momentos, quando então teus aforismos viajavam, entravam no túnel do tempo e chegavam aonde somente eu conhecia. Dizias que vivia muito bem, tinha uma família e amigos que te amavam sinceramente e que não eras mais feliz por minha culpa, por eu ter me aproveitado de ti, de tua fraqueza. Não tinhas forças, porém, para me abandonar. Agora era tarde, reconheceste.
Mas o tempo corre rápido e, rolando da cama, boca a boca, desvairadamente, fomos nos encontrar no chão, derrubando velhos móveis ou objetos que restavam naquele pequeno e imundo quarto. Gritos morriam em tua garganta antes de serem ouvidos.  O frenesi era intenso, até que chegamos ao fim. A exaustão te fez adormecer, um sono nada calmo, apesar do silêncio e do suspiro da noite.  Despertaste abatido, arrasado, ainda que lúcido.
Ouvi bem a tua decisão: foi a última vez, Anastásia. Não voltarei a te procurar, a levar-te aos lábios. Retornarei para o que resta de minha vida. Promessa, sabes bem disso, feita por inúmeras vezes, mas, agora, Anastásia, é real, sério, definitivo, tanto que...
Não li o porvir do “tanto que”, Flavinho, parei a leitura e caí no choro. Quanta ingratidão, meu. Pagavas-me assim, criatura, os momentos de prazer que a ti proporcionava. Pura cafajestagem, cara. Agora, Flavinho, pressenti algo fora dos eixos quando omitiste os versos preliminares do grande evento. Naqueles minutos, ficavas ajoelhado, olhavas-me sedutoramente e falavas desta forma:
Um delírio divino, um momento sagrado, conduzido num fluir tranquilo e suave, uma ondulação interminável, na qual fazemos apenas o que deve ser feito um para ou outro. Assim nos comportamos, Anastásia, mas és sempre a vencedora, pois costumas me levar além da fronteira do êxtase e me direcionar para o plano sutil da experiência mística.
Ainda chorosa, Flavinho, voltei à leitura. Jamais imaginaria ler a descomunal cafajestagem. Retornei ao teu “tanto que”:
Tanto que te vendo sobre o assoalho, caída entre as paredes, vou te jogar pelo duto do lixo. Serás transportada para o forno amanhã ou sei lá quando, pois não me interessa mais o teu destino.
Ficarei livre de ti, Anastásia, ó minha provocante, arrasadora, maldita garrafa de vodca.
Garrafa de vodca! Então sou eu uma maldita garrafa de vodca russa, infeliz? Fizeste os cultos incautos rirem da tua mentira, Flavinho. Agora tenho a missão de te desmascarar. Vou contar a verdade.
Estou cansada de te ouvir me chamando de Stella, Germana e da própria Anastásia. Jamais te recriminei, não foi? Agora, chamar-me de garrafa de vodca é o cúmulo do desprezo. E ameaçar jogar-me no lixo? Nossa! Tenho todo o direito de me indignar, mesmo sabendo que não podes viver sem mim. Não. Não fui para o lixo, gente. Pelo contrário, voltamos pra cama.
Neste momento, só a verdade abafará o meu soluço. E eis a verdade, amigos, colegas e família do Flavinho. Não sou uma garrafa de vodca russa. Sou - simplesmente - amante do Flavinho.  
Sou amante do Flavinho, pois vivo me enroscando nele. Sou confidente do Flavinho, porquanto ele viver me consultando sobre as mais escabrosas situações. Sou concubina do Flavinho, porque me relaciono com ele, o homem de outra mulher. Enfim, sou espingarda dele, amásia dele, manceba dele, rapariga dele...
De mais a mais, não adianta alguém estrebuchar, contorcer-se, espernear, já que, dado o nosso amor, apenas a moça Caetana do Suassuna será capaz de nos separar. Minto. A Caetana nos levará juntos.
A verdade, pessoal, é que ninguém conhece ninguém. Mais um pormenor, senhores boquiabertos com o comportamento do Flavinho. Não me classifiquem de pedante por ter escrito este desabafo na segunda pessoa do discurso. Caem-me melhor o rótulo da coerência e o selo da intimidade. Por quê? Porque a verdade verdadeira é que sou realmente a segunda pessoa dessa ingrata criatura.

Beijos, Flavinho,
TUA IMAGINAÇÃO

Outubro/16
TC