quinta-feira, 20 de outubro de 2016

LOGO NO DIA DO PROFESSOR?



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LOGO NO DIA DO PROFESSOR?

Pois é. Fazer o quê? Aconteceu na tarde do último sábado, 15 do outubro rosa de 16, o Dia do Professor.
Lurdinha e Carlão assistiam a um filme na TV da sala. Lurdinha e Carlão são casados. Ele com ela e ela com ele, que fique claro. São professores. Ela, de biologia. Ele, de Português. Mas lecionam em colégios distintos. O WhatsApp de Carlão bateu palmas, Lurdinha levantou a cabeça das pernas do marido, apanhou o aparelho, leu a mensagem e informou: Uma tal de Fifi. Sua aluna. Carlão leu:
Bt, prof. Vc tá no ap? Gostaria de tirar umas dvds sobre aqle trab de portuga. Pode dar o end completo? Desculpa incomodar, tá?
Pedi que a turma treinasse para o Enem, Lurdinha, com o tema “O histórico desafio de se valorizar o professor”. Aí essa sem noção quer discutir o tema logo agora. Vou dizer que estamos chegando ao shopping.
Que que tem, amor? Mostra que é uma aluna interessada. Mande ela vir. É bonita?
Mesmo que fosse a Marina Ruy Barbosa, Lurdinha.
A Ruy Barbosa é bonita? Ela mora aqui por perto? A Fifi, amor, não a Barbosa.
Mora perto. Uns dez minutos daqui.
Como você sabe? E como a Fifi sabe que moramos neste condomínio?
Já dei uma carona a ela. Mostrei-lhe o condomínio naquela noite.
Entendi. Deu uma carona a ela naquela noite. E ela? Já lhe deu quantas vezes?
Ah, Lurdinha, você está de brincadeira. Dê-me o celular. Vou dizer...
Agora é tarde, Carlão. Acabei de dar o número do apartamento e disse que ela podia vir. Seja bem-vinda, Fifi. Encerrei assim. Veja.
Lurdinha!
Precisamos valorizar o bom aluno, amor. Agora vá tirar esse calção cabeçudo. E vista
uma camisa decente, pois essa regata vazando cheiro de macho pode mexer com o juízo da moça e fazê-la querer misturar saliva com você. A Fifi é muito da espertinha, viu?
Espertinha? Como assim, querida?
Oh, Carlão! Como sei que é meio desligado com essas coisas, não duvido nada que não venha notando o interesse dela por você. Escute só. O Enem será em novembro. Essas dúvidas podiam ficar para segunda-feira, correto? Aí a pré-universitária, estudiosa, treinada em redes sociais, não percebe a inconveniência de procurar o professor gatão num sábado à tardinha? Qual é, meu? Ela está tão doida para se exibir pra você que não aguentou esperar. Daí o pretexto das dúvidas. A Fifi não é sem noção coisíssima nenhuma. Tem noção de sobra, isso sim. Vou deixá-la bem à vontade. Quero ver até aonde ela vai. Vá trocar de roupa, homem de Deus. A sonsinha deve estar chegando.
Estava certíssima a Lurdinha. A aluna vivia dando em cima do professor. O assédio ficou tão pesado que o Carlão precisou falar sério: ela era aluna dele, ele era religioso, bem casado e coisas tais.
Nada a ver essa xaropada conservadora, Carlão. Quero você e pronto. Fiz até um juramento. Mesmo que fique arranhando as paredes de meu quarto, não vou sair com ninguém antes de desconjuntá-lo. Moverei mundos e fundos pra isso. E você também me quer, moço. Homem algum ignora uma mulher linda e gostosa igual a mim. Pensa que é santo só por que é professor? As escolas estão cheias de professores e professoras gueis, corruptos, pedófilos. E eles, assim como alunos e diretores, não são santos. Está com medo da mulher, não é verdade? Você é analfabeto filosófico, cara, pois acha que ficar com alguém o torna infiel à esposa. Não torna, rapaz. O que torna alguém infiel é a mentira, a negação do ato praticado, a enganação, não o ato em si. Não sabe, Carlão, mas está sendo infiel ao me querer e rejeitar ao mesmo tempo. Infiel, porque está enganando os instintos, entendeu? Infidelidade é isso, é algo mais profundo. Ao ficar comigo, está deixando de ser exclusivo da esposa, é certo, mas exclusividade tira fino na escravidão, comportamento de quem o livre-arbítrio vive cortando caminho. Deixe de babaquice. Desça da lua, Carlão.
Carlão apenas comentou: custa-me acreditar que uma garota da sua idade tenha cuspido tais excrementos. Você é louca. Deixe-me em paz, criatura.
Agora, de certa coisinha Carlão tinha certeza: mais dias, menos dias, a Fifi o levaria pra cama, porquanto impossível suportar tamanha pressão de tão linda mulher. Pressão que atingira o ápice com o atrevimento daquela visita.
      Carlão saía do quarto, escutava o converseiro feminino. Uma voz desconhecida chamava-lhe a atenção. Lurdinha conversava com a dona da voz. Um pouquinho distante, Fifi falava ao celular.
     Devidamente apresentados, Lurdinha recordou: Que mundo pequeno, Carlão. A Gabi foi minha aluna, dois anos atrás. Quase não a reconhecia. E, veja só, é amiga da Fifi. A Fifi...
     Boa tarde, professor. Pois é. Fiquei com vergonha de vir sozinha, então a Gabi me fez companhia.
          Não pense, leitor, que a conduta da Fifi foi compatível com a frieza daquelas palavras. O boa-tarde saiu com chicotado beijo, cujos lábios ficaram desenhados na bochecha do encabulado Carlão. Também inexistia vergonha no desafiador olhar dela na direção da Lurdinha. Mas havia resignação no desbotado sorriso desta. Impassível ficou apenas a Gabi. Carlão deu-lhes as boas-vindas e trataram de se acomodar.
A fim de ser mais fidedigno aos fatos, transfiro agora a narração para o protagonista Carlão.
      Bem, desperta-me logo a curiosidade o jeito como a Fifi e a Gabi estão vestidas. Trajam sainhas curtas, blusas decotadíssimas, de alcinhas, sandálias de dedo. Estranho aquilo, pois as mulheres detestam vestirem-se iguais.
Eu e a Lurdinha, lado a lado, ficamos frente a frente com as visitantes. Conversávamos coisas de colégios, ríamos. Praticamente em sintonia, as duas cruzam as pernas. Depiladíssimas, começam a dedar o celular. O que essas meninas querem aprontar, meu Deus do céu? A Lurdinha vai já rodar a baiana. Mas ela mostra-se insensível, embora o olhar faiscante não se afaste das coxas das visitantes. Valho-me do WhatsApp:
      - Estão sem s e sem c, Lu. Tá vendo o q tô vendo? Tá tão calma?
       - Como ñ v? E tu de olho, né? Putinhas! Calma por fora. Tô fervendo. Tô bolando um plano.
        - Me diga.
- Mato a Gabi, vc mata a Fifi.
        - Q? V lá o q vai fazer, Lu.
        Bom, o ambiente fica engraçado, já que continuamos jogando conversa fora, rindo e trocando mensagens. Eu com a Lurdinha e a Fifi com a Gabi, suponho. Dez minutos nesse clima, o zap da Lurdinha orienta:
          - Puxe o enem e deixe o resto comigo.
          Não perco tempo.
          - E aí, Fifi, preparada para a redação?
        Uns minutinhos no assunto, e a Lurdinha informa que vai fazer um suco pra gente. A Gabi prontifica-se a ajudá-la, posto a chatice da conversa. Sopa no mel para a Fifi. Sorridente, levanta-se, enrosca os seios em mim e mostra o tablet.
- Comecei assim, Carlão:
        Atrevo-me a afirmar que de todas as profissões, a de professor é a mais nobre. Ou não seria elevado o ofício de quem ensina a desenhar o edifício, mostra como calcular a edificação e, depois dela habitável, fruto do trabalho de muitos anônimos profitentes, explica aos seus ocupantes, os médicos, como devem agir a fim de recuperarmos a saúde? Além do mais...
       - Não gostei, Fifi, desculpe. Meloso ao extremo. Deve se prender ao tema proposto, Fifi, O histórico desafio de se valorizar o professor.
            Pode começar com um pouco da história docente, o que era ser professor das antigas. Em seguida discorra sobre as causas do desprestígio da profissão. Depois faça uma ponderação de como podemos valorizar o professor. Termine contextualizando a possível valorização com as redes sociais, a televisão etc. Enfim, como deve ser o professor do futuro, Fifi?
            “Sei lá! E nem quero saber, se quer saber. Meu desafio é valorizar o professor do presente. O de carne e osso. Dou maior valor a você, Carlão”, brinca a sapeca, acocorando-se, beijando-me na coxa.
            - Fifi, menina danada, você quer por que quer acabar meu casamento, não é? Escute...
            Não termino a frase, pois a Fifi, semblante de terror, põe o dedo nos lábios, no clássico pedido de silêncio. Da cozinha, ecoava um barulho de louça se quebrando, seguido de breves gemidos. Quis correr, mas a pestinha segurou-me pelo braço:
           - Meu Deus! O que terá acontecido, Carlão? Vá lá não, amor. Espere um pouquinho. Estou com medo, Carlão.
           Ficamos de cabeça levantada, assuntando, a pescar barulhos. E pescamos. Não barulhos, e sim gemidinhos, uivinhos, gritinhos, ruidinhos. Sons monossilábicos nas ouças, e pé ante pé, caminhamos na direção de bocas sedentas. Sedentas, pois já não tínhamos dúvidas de que a sede amorosa imperava ali. Não caminhava, deixava-me levar. Flutuava, tropeçava, tremia. Fifi me beijava, consolava-me: “A vida é assim, Carlão. Tenha paciência, amor”. Por fim, a cena: pratos no chão, a Gabi derreada na mesa, a Lurdinha derreando-se na Gabi, as duas ignorando a nossa presença.
            Não aguento dez segundos. Ponho a Fifi nos braços e a levo para a minha cama. O menos dias acabava de chegar. A Lurdinha não estava matando a Gabi, por que eu não mataria a Fifi? A espirituosa Fifi ainda acha tempo para rascunhar um aviso e fixá-lo na porta:
            NÃO PERTURBEM. VALORIZANDO O PROFESSOR.
      - Bom, tirei minhas dúvidas, Carlão. Estou plenamente satisfeita. Ao menos por enquanto. Agora, amor, imagino que tenha alguns grilos na cabeça. Pode falar.
            Farei apenas três perguntas, Fifi.
1.       Por que a armação?
Porque sempre fui taradona por você. Porque você me rejeitava. Porque jurei desconjuntá-lo. Porque tinha que ser logo, pois o cursinho estava acabando. Porque queria provar que quando se diz que não quer, não implica dizer que não vai querer.
2.       Por que a Gabi entrou na história?
Porque é minha amiga e lésbica garota de programa. Ciente da situação, traçamos uma estratégia. Por meio das redes sociais, identificamos e localizamos a Lurdinha. A estratégia consistia em a Gabi paquerar a sua esposa. Deu certo trabalho, já que a Lu tinha aversão a mulheres. Mas a Gabi é boa nisso. Aproximação, encontros casuais, sorrisos, shoppings, cafés, livros. Com três meses, a Lu estava tomando chá no ap. da Gabi. Tomavam chá e se beijavam. A professora Lu é apaixonada pela Gabi. E a Gabi sempre deu valor a professoras, Carlão.
3.       Por que paquerar a minha mulher? A Lurdinha nunca foi professora da Gabi?
É claro que não, amor. Ainda não entendeu, cabeça dura? Quer o desenho, danado gostoso? Entenda. Sabíamos que a Lu não ficaria indiferente diante da Gabi. Mais do jeito que a Gabi se vestiu, com tudo a mostra. Ela veio assim pra Lu. Eu, pra você, Carlão. Então, em algum momento, as duas deveriam ficar a sós e se agarrarem. Até porque a Gabi deveria forçar a barra, se preciso fosse. O trabalho seria apenas de eu e você darmos o flagrante. Impossível, em contexto tão erótico, você ficar insensível a mim, concorda? Adorei quando me pôs nos braços, Carlão. Bom, o resto foi mão na roda. Tudo planejado, valho-me da redação do Enem, mando-lhe o zap e ficamos esfregando as mãos pela resposta.
4.       Devo concluir que a Lurdinha não sabia que a Gabi, a amante, viria com você?
Mais que diabo. Deve, homem. Quando a Lu viu a Gabi fez a cara de quem comeu e não gostou, mas, em seguida, antevendo o prazer, eliminou a conjunção e ficou uma manteiga só.

Você é uma belíssima feiticeira da sedução, Fifi. Bolar um negócio desses! Feiticeira e professora de sexo. Quase seis horas. Vamos sair, amor? Quero só ver a cara da Lurdinha.
    Saímos. Abaixo do aviso na porta “NÃO PERTURBEM. VALORIZANDO O PROFESSOR”, alguém acrescentara: PROFESSORES VALORIZADOS, ALUNAS SATISFEITAS.

            Professoral outubro/16
            TC