segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O SURREAL BOTECO 891






Imagem real - Rua Baraúna, 891, Natal


O SURREAL BOTECO 891

Sou fissurado em botecos, confesso numa boa. Algumas pessoas diferenciam botecos de barzinhos, mas os degusto como iguais, embora ache mais saboroso o termo boteco. A atmosfera prazenteira de botecos é indescritível. Ali, algo cósmico cozinha a nossa mente e logo nos serve a solução para as mazelas da vida. Boteco é terapêutico, porquanto elimina angústias. É produtivo, já que cria soluções. É circense, porque injeta sorrisos. É democrático, visto acolher qualquer assunto. É extrovertido, posto destravar línguas. É abastado, pois torna o cliente endinheirado. É conquistador, beijoqueiro e excitante, não se pode negar, por... Por motivos óbvios, ora pois. Não entendeu? Santa inocência! Santuário do prazer, boteco é, enfim, pura poesia.
Atrevo-me a sugerir aos não devotos dessas casas do saber que chutem o preconceito e os visitem regularmente. Nem precisa beber. Estar na companhia de alguém “emborcador” é o bastante. É oportuno aconselhar: procure saber o nome de seu ou de sua atendente e o trate ou a trate pelo nome. Aja assim e terá atendimento vip, haja vista estar dando cordialidade. E quem dá recebe. Lembre-se de que é dando que se recebe e de que ninguém vai se interessar por você se antes não se interessar por esse ninguém. É extrema ignorância querer receber sem dar. De mais a mais, não há som mais relaxante do que ouvir o próprio nome. Aprendi essas coisas em botecos, viu? Torne-se assíduo de botecos, gente boa, e verá como a sua vida vai mudar. Ainda que em razão da cara trombuda da patroa.
Sou habitué de botecos, já disse. Obcecado, vagabundeio o país a procura dessas preciosidades. A última obsessão é localizar botecos, cujos nomes sejam engraçados, criativos. A ideia é catalogá-los e escrever um livro sobre a história deles. Já catalogueis alguns. Veja.
Em Curitiba - MASTUR-bar (Mas a conta não é de faz de conta). No Rio de Janeiro – Tô no Trabalho (Enfim, labutando com prazer). Em Salvador – Habeas Copos (Seu copo livre de cerveja). Maragogi, AL -  Quero Bim Bar (Noite e dia de prontidão). Ipaumirim, CE – Confessionário Bar (Onde a bebida entra e a verdade sai).
Bem, cheguei ontem a Natal. Ontem mesmo
dei um rolé. Meia hora de pesquisa, num bairro, salvo engano de nome Quintas, encontro um tal de Boteco 891 (1000 é a nossa meta). Fiquei inculcado com o 1000 é a nossa meta. Meta de que, meu Deus? Mil clientes? Ou seria mudar-se para o número 1000 da rua? Boteco de esquina, mesas na calçada, jeitão de simpático. Não titubeei. Vou tirar a limpo esse negócio de 1000 é a nossa meta.
Acomodei-me numa mesinha e pedi uma cerveja. A três metros de mim uma banquinha de jogo do bicho, joguei logo a centena 891 invertida. “Obrigada”, agradeceu o cambista. Fiz um risinho de discriminante cumplicidade para um vizinho de mesa e... Carrancudo estava, carrancudo o vizinho permaneceu. O cara, gente, um coroa branquelo, era muito parecido com um amigo meu, jornalista dos bons, professor universitário. Parece demais com o Dinarte, pensei, esvaziando o copo. Esvaziava quando vi um aviso colado na mesinha. Fiquei todo arrepiado, emoção a mil, quando li a informação. Agora mesmo, pessoal, estou me arrepiando ao descrever o episódio. Dizia o aviso:
Prezado cliente, sinta-se seguro para usar o celular. Não será assaltado, pois há um aparelho à disposição do assaltante naquela mesinha, no pé da árvore. Caso um assaltante encare você, aponte o dedo para a mesinha.
Diga aí. É pra se engasgar ou não? Bom, no pé da árvore, na ponta duma haste fixada em uma mesinha forrada com seda azul e ornamentada com flores naturais, cintilante cartaz dava este aviso:
Nobre assaltante, pegue aqui seu smartphone de última geração e vá com Deus. Atenção. Não pegue se não for assaltante, pois sua vida mudará radicalmente. Apenas os assaltantes estão imunes a essa mudança. Não toque no aparelho. Quem avisa amiga é.
Que boteco legal, matutava eu. Não segurei a curiosidade e chamei a dona do boteco:
Vanessa, mulher de Nossa Senhora (já havia indagado o nome dela), desculpe, mas preciso lhe perguntar duas coisinhas. O smartphone do assaltante é tão somente um simulacro, não é? A segunda. Estou vendo que 891 é o número do boteco. Mas você diz que a meta é chegar a 1000. Entendo que você está reunindo forças para botar o boteco na cabeça e levá-lo para o número 1000 da rua. É isso mesmo?
- Ah, meu pai. Você só pode ser biruta ou muito brincalhão. 1000 é a nossa meta é somente uma brincadeira, homem de Deus. Não quer dizer nada, mas muita gente senta aqui, pede uma cerveja e já puxa conversa sobre isso. Agora, é a primeira vez que alguém me pergunta se pretendo botar o boteco na cabeça. Misericórdia! Não é simulacro não. São aparelhos de última geração, sim. Escute. Estou proibida de falar acerca do projeto, mas você é tão simpático que vou abrir uma exceção.
“Agradeço-lhe pela confiança”, disse, esfregando as mãos, voltando a me arrepiar.
- É o seguinte. É um projeto do Ministério da Justiça. Meu boteco é o piloto nacional. O smartphone tem...
Vanessa interrompeu o relato, já que um cara de moto acabava de pegar um aparelho. Ela foi lá dentro, voltou com outro bicho e botou na mesinha. Esperta, ela deixava apenas um mimo na mesa.
- Como eu ia dizendo, O smartphone tem um chip poderoso. Quando alguém toca no aparelho, o chip já lê o passado desse alguém. Se assaltante, com dez minutos o sujeito se arrepende do assalto, começa a chorar, fica lelé da cuca e vai se entregar à polícia. Lá, os policiais mandam o indivíduo para o hospital de malucos. Em cinco meses o meliante esquece o passado, se recupera e volta bonzinho, bonzinho para a sociedade. É isso.
- Bem bolado, Vanessa. Mas o negócio de mudar a vida radicalmente. Quer dizer, se o incauto não for assaltante.
- Se não for assaltante – e o chip sabe disso -, o incauto, como diz você, inverte a direção sexual.
- Inverte a direção? Como assim, Vanessa?
- Tesão. Por exemplo. Se o cara sente tesão por mulher, passa a sentir por homem. Se sente por homem, passa a sentir por mulher.
- Caramba! Precisa ter muito cuidado mesmo. Vai que sem querer... Agora, é mão na roda para quem mudar.
“É verdade. Mas é um problemão para quem não quer.
 - É verdade de novo. Se certas pessoas soubessem disso, viriam correndo pegar no...
“Ora se viriam”, concordou Vanessa, chegando mais perto de mim, falando baixinho:
- O cambista aqui, ó! Foi a única pessoa a quem expliquei essas coisas. Mas foi só eu dar as costas e ele correu para a mesinha. Sei disso porque quando voltei, em dois minutos, ele começou a me chamar de Vanessinha querida.
- Já percebi, já percebi. Fala uma coisa, Vanessa. Você fica repondo o danado. Há pouco você repôs um. Fica pegando, portanto. Desculpa, mas você...
- Sou o que sempre fui, se é isso que quer saber. Acontece que só desbloqueio o chip depois de colocar o aparelho na mesinha, entendeu? Desculpe, a conversa está boa, mas agora vou... Pegue nisso não, senhor.
Tive até medo do grito da Vanessa. Ela gritava para o vizinho de mesa, a criatura parecida com o meu amigo, o coroa jornalista professou universitário. A criatura soltou o smartphone e recriminou a Vanessa:
- Nossa, mulher! Precisa de semelhante histerismo, Vanessinha querida?

Revelador outubro/16,

TC