sábado, 26 de novembro de 2016

O DESUMANO




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O DESUMANO

Estamos sozinhos. Eu no sofá, ela na cadeira de balanço. Eu de olho nela, ela de olho em mim. De pernas cruzadas, ela mostra o véu branquinho adornando a espevitada rainha.  De pernas descruzadas, mostro a oculta coroa do buliçoso rei. Só desvio a visão por dever de ofício: beber encantamento. Ela só a desvia por involuntária obrigação: bebericar vinho. Ela enfeitiça pelo fogo do corpão. Eu prendo pela fumaça da ilusão. Ela é médica e poeta. Eu dou trabalho a médicos e distraio poetas.
Acabávamos de chegar do lançamento de um livro. A discussão começara lá. Por quê? Do nada. Ela sempre foi assim, mas ultimamente está impossível. Do nada, costuma vir com tudo pra cima de mim. Mas do nada fica boa e vem pra cima de mim com tudo.
Ela alisa um isqueiro com formato de caneta, fita-me de forma pidona e afasta os ruivinhos da testa.
Vejo nesses sinais a certeza de que ela está súper a fim, embora se expresse raivosamente. Estava careca de assistir àquele filme. Contradição é de sua natureza. Jogou-me na cara:
Disse que eu não fazia a menor noção do que era amor, que

domingo, 20 de novembro de 2016

UM DIA IRIA ACONTECER




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UM DIA IRIA ACONTECER

É bom avisá-los. “Um dia iria acontecer” é uma novela de 7 páginas do word, 3675 palavras e 21 minutos de leitura. Vão encarar? Então boa leitura. Ou não boa leitura. Preferem assistir na Globo, é? Um abraço.


Parece cenário de filme. Ambiente sombrio, um interrogado, dois agentes: o barrigudo, malvestido, sovaqueira nos trinques, tênis da primeira moda, careca, chamam-no de Frederico. E de Fed. Por trás, é lógico. A esbelta, vestida com apuro, aromatizada, tênis da última geração, madeixas a cair-lhe nos olhos, chamam-na de Lindalva. E de Linda. Pela frente, é claro.
Estão numa delegacia de Natal, nordeste do Brasil. Calor braseiro, visto o diminuto quartinho e o ventilador quebrado, a bela e a fera interrogam um estuprador: Linda, com bunda se irritando numa cadeira de ferro, pés se deliciando em cima de um birô e olhos se divertindo com ancestral TV. Frederico cheira espinhas espremidas da cara e espreme os tênis de um lado para o outro. Os olhinhos do estuprador saltam da fera para a bela, como se filmando as cenas, e os lábios rascunham um sorrisinho de canto de boca. O velho deliciava-se com o porvir.
Frederico parou de caminhar, sentou-se de frente para o velho e perguntou:
– O que é que toma, velho? Oitenta anos e fazer um estrago daquele na velha, deve ser... Já era para o senhor ter descido. Mas, como fica negando a coisa, o delegado amarelou e fez a gente ficar matando o tempo aqui. Se não tem culpa, por que foi para a rodoviária?
O ancião sorriu:
– Porque não sabia que ir à rodoviária era prova de estupro. Quantos vezes tenho que repetir, policial, que não estuprei a Nísia? O senhor é idiota. E fedorento. E seboso também.
Frederico levantou-se. Bufava. A barriga entrava

terça-feira, 8 de novembro de 2016

O ENEM DO POCILGA




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O ENEM DO POCILGA

Oi, pessoal,
Fui duramente criticado por muitos de meus pouquíssimos leitores a respeito da última postagem, a do pum do boi. Chamaram-me de sem noção e ao texto de excrementoso. Repetiram a esculhambação que me é impingida com os posts de sexo. Basta eu sair um pouquinho do sério para os azoretas contraírem melindres. Como se não dessem pum nem transassem. Eu, hein!
A fim de aliviar a barra com eles, até porque somos inimigos íntimos, postei os microcontos abaixo. Microconto, sabe você, é um fio de navalha só. Precisa narrar um episódio, mas sem narração parecer, já que ao leitor é atribuída a tarefa de preencher as lacunas contextuais. De mais a mais, qualquer escorregão e o bicho se transforma em piada. Daí que o metido a “microconteiro” tem que se virar para pôr alguma arte no enunciado e assim fugir das armadilhas.

Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)

NA FILA
1. Ih, tá rolando um flatozinho irado. – Obra do nervosismo. - É. Mais uma obra desse nojento.
2. Por que segurar tanto essa saia, se está usando horroroso short por baixo? – E é da sua conta, coxinha golpista? – Mas sou autêntico. Melhor que certas coxonas sem caráter: escondem o golpe por baixo dos panos.
3. Vazou, galera. O tema é intolerância religiosa. - Assim vaza eu. Fui! Não tolero religião.

NA PROVA
1. Preciso ir no banheiro, fiscal. – No, não, ao – Ao, no ou vestido, mas me deixe ir. É eu que tô com dor de barriga, não a senhora. - É eu, não. Sou eu, jovem. - Então vamos logo, senhora, pelo amor de Deus.
2. Tenho que revistá-la, moça. – Por quê? – Esse volumão no short. É um emissor de pontos eletrônicos, não é? – Não. É um receptor, fiscal. Mas só o de do exclamação, o !

NA SAÍDA
1. E aí, como se saiu? Fechou alguma prova? – Fechei todas. Fechei assim que abri. Mas só me deixaram sair agora.
2. Oi, deu pra passar? – Nada! Os fiscais nem olhar pra cara da gente olham.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O PUM DO BOI COMEDOR DE CAPIM






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O PUM DO BOI COMEDOR DE CAPIM

Lá vem fuleiragem, deve estar pensando assim, não? As aparências enganam, minha nobre. Não há fuleiragem alguma no pum de nosso boi. O cabeçalho é atípico, reconheço, mas