sábado, 26 de novembro de 2016

O DESUMANO




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O DESUMANO

Estamos sozinhos. Eu no sofá, ela na cadeira de balanço. Eu de olho nela, ela de olho em mim. De pernas cruzadas, ela mostra o véu branquinho adornando a espevitada rainha.  De pernas descruzadas, mostro a oculta coroa do buliçoso rei. Só desvio a visão por dever de ofício: beber encantamento. Ela só a desvia por involuntária obrigação: bebericar vinho. Ela enfeitiça pelo fogo do corpão. Eu prendo pela fumaça da ilusão. Ela é médica e poeta. Eu dou trabalho a médicos e distraio poetas.
Acabávamos de chegar do lançamento de um livro. A discussão começara lá. Por quê? Do nada. Ela sempre foi assim, mas ultimamente está impossível. Do nada, costuma vir com tudo pra cima de mim. Mas do nada fica boa e vem pra cima de mim com tudo.
Ela alisa um isqueiro com formato de caneta, fita-me de forma pidona e afasta os ruivinhos da testa.
Vejo nesses sinais a certeza de que ela está súper a fim, embora se expresse raivosamente. Estava careca de assistir àquele filme. Contradição é de sua natureza. Jogou-me na cara:
Disse que eu não fazia a menor noção do que era amor, que
eu era tão só e simplesmente um aproveitador e que seria incapaz de amar alguém.
Dei uma de ofendido, mas no íntimo dei-lhe razão. Insensibilidade é de minha natureza. Joguei-lhe na cara:
Afirmei que era ela quem se aproveitava de mim, que quando menos eu esperava ela me escondia das colegas, como se leproso, e que ela sempre manteve um pé atrás com relação ao nosso relacionamento. Você tem vergonha de mim. Tem ou não tem?
Ela admitiu o comportamento reservado e confessou que em algumas ocasiões se sentia incomodada com a minha desenvoltura, que eu me aproveitava disso para jogar fumacinhas sedutoras em suas amigas e que as incautas terminavam se incendiando da erótica vontade. Você quer pegar todas. Quer ou não quer?
Disse que era mulherengo, sim, que amigas dela me pegavam, sim, mas que só algumas, posto a maioria viver tapando o nariz pra mim.
E apelei. Você sabe disso, pois não faço nada escondido. Ao contrário do que certa pessoa faz com um tal de Don Porfírio.
Ela sentiu o golpe. Empalideceu e tentou fugir pela tangente.
Afastei-lhe o ponto mentiroso assim: e faz tempo que o cara é seu amante, viu, doutora?
Ela molhou os olhos, disse que já largara o Porfírio, que fora imatura, que o Porfírio era muito forte, que a deixava sufocada, que a deixava de peitos doloridos, que a deixava de garganta irritada, que, que e que. Por fim, pediu perdão.
Perdoa-me? És o meu gostosão, és quem me alivia, és quem me dar prazer, és quem...
Cortei o rosário de “quem” com filosófico discurso.
Não lhe dou prazer. Dou-lhe sensação prazerosa. Prazer é intransferível, é único, é divino, é individual. Igual a muita gente, você confunde sensação prazerosa com prazer. Confunde consequência com causa. Orgasmo não é prazer. É sensação prazerosa. O orgasmo não é a causa de alguém transar com alguém. É a consequência disso. A causa, razão de ser, é o prazer. A prova? A espécie humana. A sensação prazerosa fica pulando de galho em galho, a exemplo de você e Porfírio.  Mas o prazer fica. Se não ficasse, a efemeridade da sensação prazerosa, a rotina do ato e o livre-arbítrio dos atores fatalmente adormeceriam o apetite sexual. E daí para a extinção da espécie seria um pulo.
Por mais que goste de futebol, de peças teatrais, do calorzinho do álcool, pode chegar o momento de o indivíduo cansar-se dessas coisas e abandoná-las. Abandona porque o que sentia era sensação prazerosa e não prazer. Como disse, o prazer é único e exclusivo do sexo.
Ela não esperava o arroubo filosófico, de maneira que se limitou a deixar o queixo caído. Cansado de sua oscilação de humor, cheio daquela cara trombuda, como se fosse eu a causa dos dissabores dela, aproveitei para impingir-lhe insensibilidade.
Só quero quem me quer, querida.
Ao contrário de você, não faço o menor esforço para que alguém fique comigo.
Ao contrário de você, não cultivo o temor de não ser aceito por me diferenciar dos outros.
Ao contrário de você, sinto-me envaidecido por ser poderoso.
Veja, querida, estava por sentir toques mais carinhosos que os seus. Seu embevecimento por mim é de injetar ciúme em qualquer mortal. Suas chupadas, então! Mas...
Como assim estava por sentir? E por que o suspense?
Sapequei-lhe escandalosa mentira. Fui desumano:
Ia lhe dizer amanhã, mas o momento é oportuno. Aconteceu ontem, num boteco. Experimentei toques dez mil vezes mais carinhosos que os seus e conheci lábios de sugadas infinitamente mais gostosas que as suas. Você pode me largar agora, querida.
Então, em prantos, ela perguntou o nome da piranha:
Como se chama essa piranha, essa, essa, perguntava, caminhando para o sofá. Perguntava-me, agarrava-me, chamava-me de mentiroso e dizia que eu queria desestabilizá-la emocionalmente.
Fiquei na minha. Imobilidade é de minha natureza.
Ela não conseguiu ficar na dela. Instabilidade é da natureza dela.
Ainda não havia chegado a hora de a Dra. Glorinha largar o cigarro.
&&&
Certo é que a Dra. Glorinha levou a carteira de cigarros para a cadeira de balanço, abriu-a, tirou um cigarro e o acendeu. Trêmula, o isqueiro quase lhe queimava o polegar.
Fumou dois cigarros em dez minutos. Alternando-os com vinho, naturalmente.
ô vício danado o tal do tabaco, viu?
Novembro/16
TC

Nota: Don Porfírio é uma marca de cigarrilha.