domingo, 20 de novembro de 2016

UM DIA IRIA ACONTECER




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UM DIA IRIA ACONTECER

É bom avisá-los. “Um dia iria acontecer” é uma novela de 7 páginas do word, 3675 palavras e 21 minutos de leitura. Vão encarar? Então boa leitura. Ou não boa leitura. Preferem assistir na Globo, é? Um abraço.


Parece cenário de filme. Ambiente sombrio, um interrogado, dois agentes: o barrigudo, malvestido, sovaqueira nos trinques, tênis da primeira moda, careca, chamam-no de Frederico. E de Fed. Por trás, é lógico. A esbelta, vestida com apuro, aromatizada, tênis da última geração, madeixas a cair-lhe nos olhos, chamam-na de Lindalva. E de Linda. Pela frente, é claro.
Estão numa delegacia de Natal, nordeste do Brasil. Calor braseiro, visto o diminuto quartinho e o ventilador quebrado, a bela e a fera interrogam um estuprador: Linda, com bunda se irritando numa cadeira de ferro, pés se deliciando em cima de um birô e olhos se divertindo com ancestral TV. Frederico cheira espinhas espremidas da cara e espreme os tênis de um lado para o outro. Os olhinhos do estuprador saltam da fera para a bela, como se filmando as cenas, e os lábios rascunham um sorrisinho de canto de boca. O velho deliciava-se com o porvir.
Frederico parou de caminhar, sentou-se de frente para o velho e perguntou:
– O que é que toma, velho? Oitenta anos e fazer um estrago daquele na velha, deve ser... Já era para o senhor ter descido. Mas, como fica negando a coisa, o delegado amarelou e fez a gente ficar matando o tempo aqui. Se não tem culpa, por que foi para a rodoviária?
O ancião sorriu:
– Porque não sabia que ir à rodoviária era prova de estupro. Quantos vezes tenho que repetir, policial, que não estuprei a Nísia? O senhor é idiota. E fedorento. E seboso também.
Frederico levantou-se. Bufava. A barriga entrava
e saía. Em média vinte centímetros Mão espalmada, partiu para cima do velho:
– Não brinque com isso, velho safado.
A reação do idoso foi sorrir. Vivia sorrindo, na verdade. A reação da Linda foi mandar Frederico sentar-se na cadeira dela:
“Sente aqui, Frederico. Deixe-me cuidar disso”, falou, sentando-se na cadeira do colega e alisando o braço do velho. Uma simpatia só.
- Bom, vamos repassar a história. Vejamos os fatos e... Por que o senhor não pára (com assento, sim) de sorrir? O senhor...
            - Perdão, nobre policial. Ocorre que seu colega me chamou de velho safado, então me lembrei do Charles. Era de safado que no fim da vida chamavam o velho Bukowski. Figuraça, viu? Aliás, tivesse ele visto como a senhora falou com o parceiro, certamente falaria assim: “A mulher é a grande educadora do homem: ensina-lhe as virtudes encantadoras, a polidez, a discrição, a altivez. Ela mostra a alguns a arte de agradar e a todos a arte útil de não desagradar”.
            - OK, Sr. Indosp. Vamos repassar os acontecimentos. As câmeras do condomínio da Sra. Nísia mostram a alegre anfitriã recebendo o senhor. Passada meia hora, o senhor sai cabisbaixo do apartamento. Dali a dez minutos, a alegre anfitriã, agora num choro só, mal consegue falar com a portaria e pedir socorro, dizendo-se estuprada. A Sra. Nísia saiu sem voz para o hospital, Sr. Indosp. O senhor estuprou a Sra. Nísia, sim. O que me diz, Sr. Indosp W?
            O velho tornou a sorrir e respondeu:
            - A nobre policial é muito simpática. Porém, desculpe, é tão idiota quanto o colega aí. Mas, como consolo, é oportuno dizer que a idiotice não sobrevive apenas na sua repartição. Ela passa o tempo levantando a mão para todas as chamadas deste país. Exagero, obviamente, mas, acredite, o nosso numeral de estúpidos é muito alto. Bom, o que me diz, Sr. Indosp, perguntou você.
            Direi perguntando, nobre policial. Perguntas de evidentes retornos nãos. Vamos lá:
Testemunhe a transa do dislate com a estupidez. Tenho 80 anos. A Nísia também. A jovem supõe possível um estupro de 160 anos? Surreal, não é?
Agora veja o feto com cinco meses. A polícia tem a prova do estupro, o laudo médico? Não, não é?
Por fim, apascente o olhar com as palminhas do bebê. Há registro policial com o nome Indosp W? Não, não é?
E nunca haverá. Sabe por quê? Porque tal nome não existe no mundo das leis. Indosp, minha jovem, é tão somente a abreviatura de meu nome. Peço clemência pelo azedume, falta do charuto, imagino, mas a jovem sabe o que significa dislate, surreal e apascente? Decerto não, já que no olhar brilha a inépcia para o aprendizado, o aperfeiçoamento. Por isso não enxerga um palmo à frente do nariz. As três respostas provam a inaptidão dos nobres policiais. Não estuprei a Nísia. Não se deram conta ainda de que o ridículo está se mijando de tanto rir e que o bom senso está se desmanchando em lágrimas?
- O senhor é grosseiro, irônico e presunçoso, velho safado. E que história é essa de abreviatura?
- Nobre policial, a senhora deve saber que aparentar não significa obrigatoriamente ser. Falar duas ou três palavras difíceis não torna ninguém erudito. Vestir-se como mulher não quer dizer que por baixo o indivíduo seja mulher. Da mesma forma que se trajar de homem não garante genitália masculina. O diferencial reside na figura que transportamos entre as pernas. Daí que Indosp e meu traje masculino são apenas pistas, abreviaturas, aparências, aspectos de quem eu sou.
            - Ah, velho falastrão, me poupe. Traduza isso.
            - Traduzindo, então, minha nobre. Indosp W significa Internete dos Pontos Dáblius. Esse é o meu nome. Sou mulher. Quer ver a marmota?
            Linda e Frederico soltaram a gargalhada. A pança de Frederico dançava feito bailarina. As madeixas de Linda se sacudiam. Esperavam apenas o riso se recolher para encerrar o interrogatório: o coroa seria internado como maluco. Mas não foi, conquanto o riso tenha se recolhido. O riso agora era espanto, pois o som da ancestral TV aumentara de forma absurda. Simultaneamente, os celulares da dupla tocaram acima do volume normal e ficaram sintonizando a TV. 
Com queixos pendurados e olhos fixos na TV, Frederico e Linda liam no centro da tela a palavra ATENÇÃO e ouviam o Tema da Vitória, instrumental do maestro Souto Neto. Dos cantos do aparelho brotavam setas coloridas em direção ao centro. Lá se juntavam e tangiam a “atenção” para o topo da tela. Cristão algum seria capaz de arredar os sentidos do espetáculo. Cinco minutos, a “atenção” já no cume da TV, e eis que surge a azulada mensagem:
           
Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil:
            Valho-me desta mensagem a fim de convocar Vossa Excelência, os governadores das unidades federativas e o do Distrito Federal para excepcionalíssima reunião, cuja pauta será de vital importância para a população brasileira. A reunião realizar-se-á amanhã, 15 de novembro de 2016, às 17h17, no Palácio do Planalto. Informo que não será permitida a presença de assessores, tampouco da imprensa e de pessoal técnico, independemente da área de atuação. A reunião será transmitida ao vivo e se tornará automaticamente visível em todos os aparelhos eletrônicos do país, a exemplo de TVs, rádios, celulares. A transmissão começará às 17h11. Espero que Vossa Excelência proporcione as condições adequadas para a realização do evento. Informo, ademais, que será perda de tempo a tentativa de me identificar.
            Conto com a presença de todos. Julgo desnecessário alertar Vossa Excelência para a severa punição na hipótese de a reunião não ser realizada. Mesmo assim, tão logo seja concluído este comunicado, a internet ficará fora do ar por cinco minutos e vinte e dois segundos.
            Saudações e até amanhã às 17h17,
            Ed
- Meu Deus! Que porra é essa, Frederico? Cadê o velho, Frederico?
- O velho fugiu, Linda. Aproveitou a distração da gente e fugiu. Vamos informar ao chefe. O que é isso?
O “isso” era um bilhete no pé da cadeira do velho. Estava escrito: “Obrigada. Beijos. Internete dos Pontos Dáblius”.
O gabinete do chefe já ia se enchendo de curiosos. O show televisivo e a afoita mensagem começavam a travar o Brasil. Como desgraça pouca é bobagem, mais um inusitado acontecimento chegava à população. Naquela manhã, nos vinte e seis estados e em Brasília, e no mesmo horário, um velhinho de oitenta anos havia estuprado uma velhinha da mesma idade. As duplas haviam usado idêntico modus operandi: a estuprada – homem - se passando por mulher; e o estuprador – mulher - se passando por homem. Tinham em comum, além da idade, o semblante sorridente. Ainda em comum o local da prisão: rodoviária.
Nessas alturas, os serviços secretos do mundo inteiro já estão em alerta, porquanto impossível o que tinha acontecido na internet brasileira. Como complicador, nenhum especialista conseguira identificar de qual computador partira a mensagem do Ed. Mais nervosos ficam com o noticiário dos falsos estupros. As notícias se espalham. Dos hospitais: as “estupradas” haviam fugido deixando beijos e identificando-se como WWW Silva. Da polícia: os “estupradores” haviam fugido deixando beijos e identificando-se como Internete dos Pontos Dáblius. Pior. A polícia não consegue prender ninguém. Registros do Samu desaparecem, e socorristas não lembram o local de onde socorreram as “estupradas”.
Grande agitação sacode os natalenses, já que nas redes sociais a verdade é chocante: extraterrestres invadiram Natal. Ninguém havia fugido e sim se transformado. Canetas, celulares, gatos, cachorros, tudo podia ser um extraterrestre. Mais. Quem tocara num deles e quem num tocado tocasse passava automaticamente a ser extraterrestre. Frederico, por exemplo, ficou em polvorosa, querendo se lembrar se ele e a Linda haviam se tocado, visto a danada ter interrogado o velho alisando o braço dele. “Tomem cuidado. Fiquem distante um dos outros, visto não sabermos quem foi tocado por um dos tocados”, encerrava-se assim o aterrorizante aviso.
A inusitada convocação e os fingidos estupros não deixavam dúvida. O Brasil estava sendo invadido por extraterrestres. A tomada do Poder seria no dia seguinte, conforme implícito na mensagem do Ed. O mundo ficava de prontidão
Convém ser dito que essa era a conclusão dos serviços de inteligência pelo mundo afora. Entretanto, a comunidade científica, a exemplos de astrofísicos e exopolíticos, discordava com veemência da conclusão.
Parte da imprensa especializada também tinha um pé atrás contra a teoria da invasão alienígena. O New York Times escreveu em editorial.
“Não existe nada ligando os dissimulados estupros ao comunicado do Ed. A não ser que forcemos o raciocínio para encontrar tal elo na brincalhona assinatura deixada pelos fujões, o WWW Silva e a Internete dos Pontos Dáblius. Tudo bem que as esquisitices aconteceram na mesma manhã. Mas coincidência e esquisitice não provam nada, embora a tentação seja irresistível. Agora a pergunta crucial. Se os alienígenas querem tomar o Brasil, por que sairiam amedrontando o povo? Por que darem pistas de que estariam lá? Estupidez, não? Bastaria a convocação do Ed. Extraterrestres então longe de serem estúpidos, gente”.
E concluiu:
“Daí que ou algum projeto de extrema planificação dribla a espionagem mundial ou estamos prestes a receber a visita do ineditismo.     Ambas as hipóteses escancaram a verdade e trazem a lição: a internet já era. A desmoralizante convocação do Ed prova tudo. Não devíamos ficar dependentes de matriz comunicativa tão vulnerável. Está na hora de voltarmos ao bom e velho telex e à boa e velha carta.”
            A tevê mundial só fala do Brasil. Aqui, cientistas varam a noite analisando os fatos. O pânico tira plantão na cara do povo. Nos bares, os “doutores” concluem: Os governadores vão para esse negócio só para saber o nome do cabeção de antena nos chifres que vai governar no lugar deles. Estava na cara que isso podia acontecer a qualquer momento, pois o mundo come nas mãos da Internet. A Internet foi bolada pelos ETs. O objetivo era esse mesmo. Planejamento nota dez. A ocupação estava prevista para daqui a cem anos, mas o assombroso descalabro brasileiro fez os golpistas anteciparem a ação. Acho é pouco. O Temer não deu o golpe na Dilma? Por que os caras de Varginha não podem dar o golpe nele? Essas são algumas das conclusões.
            Bom, chega o dia seguinte, 15 de novembro, feriado da República. Manchete da Folha de São Paulo: CHUPA, TERRA! Manchete da Tribuna do Norte: PERDEU, TERRÁQUEO!
            O Brasil passou a noite acordado. O Brasil tem medo. O mundo tem medo.
17h11. Começa a transmissão. Faltam seis minutos para a reunião.

A REUNIÃO

A TV mostra enorme salão com vinte e oito mesinhas dispostas em semicírculo e etiquetadas com o nome da unidade federativa e a do respectivo governador. Estão todas ocupadas. No centro do salão, isolada, uma mesa maior acolhe uma garrafa d’água mineral, um copo e um computador.
Circunspectos, os governantes trocam olhares.
17h17. Susto geral.
Susto, sim. O repentino e volumoso som do Tema da Vitória surpreende todo o mundo. Muitos pulam da cadeira. O presidente é um deles. Trinta segundos e o instrumental é substituído por inesperada voz feminina:

Boa tarde. Obrigada por...
Nesse momento, o susto transforma-se em surpresa, inquietação, mistério. Talvez por machismo, a verdade é que as autoridades viam em Ed uma identificação masculina. Inquietos, porque, conquanto a voz lhes chegasse pelo serviço de som, sentiam-na verbalizada da mesa do centro, embora lá não estivesse ninguém. Mas a sensação foi tão convincente que muitos governantes juram que, nos segundos de cumprimentos, viram um crachá pendurado em elegante pescoço feminino. Só divergem na leitura do crachá. Uns leram Clarice; diversos, Hilda; alguns, Cecília; outros, Raquel.
Bom, ouvindo pelos olhos, a plateia escutava:
... terem vindo. Obrigada por tudo, senhor presidente. Peço a Vossa Excelência, aos excelentíssimos governadores e à população em geral que me tirem a culpa pelos momentos de angústia que minhas ações certamente lhes provocaram. Foi por causa justa. Mas podem repô-la se justa não julgarem. 
Chegou a hora de me apresentar, senhores governantes. As colegas me chamam carinhosamente de Ed. Simples redutor de Educação. Meu nome é Educação Brasil da Silva. Agora permitam-me contextualizar esta cerimônia.
Participei, recentemente, no Chile, do trigésimo seminário de Educação nas Américas, o Ename/16. Em 2019, Senhor presidente, o Ename será realizado no Brasil. Então, terminado o encontro, jantávamos, quando uma colega, bêbada, expressou-se assim, grosseria e escárnio aplaudindo-a de pé:
“Sabe, Ed, os governantes brasileiros são imbecis ao extremo, amiga. Como são burros. Nossa!”
Essa senhora, Senhor presidente, reportava-se a um estudo sobre Albin. Albin, o alfabetizado inocente, é como classificamos em nossas pesquisas o que aqui chamamos de analfabeto funcional. E nesse quesito, senhores, não damos o primeiro lugar a ninguém. Fechei a cara para a colega, é evidente. Afinal, sou brasileira. Mas, no íntimo, completei: e idiotas, e obtusos, e estúpidos. E assassinos. A opinião da colega, Senhor presidente, foi a gota d’água para iniciar o processo que suponho estar encerrando com esta reunião.
Naquele instante, fica claro o desconforto das autoridades: olham-se nos olhos, mexem-se nas cadeiras, tornam-se carrancudos. Assassinos! Assassino passara do ponto. Mas como se defender do rosário de adjetivos, se a acusadora não mostrava a cara? Como se estivesse a ler o pensamento da assembleia, a Senhora Educação pôs o dedinho na ferida:
Não se sintam ofendidos com a verdade, senhores. Defender o amor próprio é compreensível, mas é bom compreender que a verdade não ofende. O que ofende é maneira de expressá-la. Espero ter me expressado bem, assim como bem cogito me expressar quando lhes provar tudo daqui a minutos.
Mais mexidas nas cadeiras. Agora com certa aparência de comiseração. Provar o quê? Aquela dona só podia ser maluca. Aliás, a própria reunião era alienada. Educação Brasil da Silva. Que coisa mais insana! Palhaçada!  Mas palhaçada boa. Dez mil vezes melhor do que o temido golpe dos ETs.  Melhor relaxar e rir. E rindo ficaram.
Que bom que estejam se sentindo confortáveis. Dez mil vezes melhor do que o temido golpe dos ETs, não? A propósito, deixem-me esclarecer logo esse mal-entendido. Bom, sentia-me péssima com a grosseria da confrade, ainda que ela estivesse coberta de razão. Como, entretanto, passar na cara quão estúpidos são os senhores? Como dizer, olho no olho, que os senhores vivem falando de mim nos períodos eleitorais, mas, encerrada a votação, logo me desprezam?
Estou mentindo, senhores?
Bem, encontrei-me no Galeão com a Dra. Internete e, papo vai, papo vem, contei-lhe da minha angústia. A internet pode lhe ajudar, disse ela. Então, senhores, em dois meses montamos um plano. Dra. Internete dar-me-ia (vênias, presidente) as condições para o ousado pronunciamento em rede nacional e eu criaria o contexto de apreensão. É que imaginamos que a simples convocação, embora viesse acompanhada de retaliações, não traria o impacto desejado. Precisávamos de um suporte, de uma implícita conexão, de algo que prendesse o imaginário popular. Sugeri os estupros.
Muito bom, muito bom, Ed, concordou ela, morrendo de rir. Os senhores não imaginam como a Inter é besta pra rir. E previu a prazenteira: os poderosos patranheiros parirão pavor, porquanto pensarem perder o Poder para os pestinhas paranormais.
Bem, convidei os compartes e formei as vinte e sete duplas presepeiras. Aproveito o momento para usar a dupla conterrânea, o antropólogo Câmara Cascudo e a educadora Nísia Floresta, como os primeiros da fila a quem agora agradeço.
Dadas as explicações, entremos no objeto desta reunião: analfabetismo funcional, a fonte de chacota de minha colega. Antes, preciso fazer quatro observações. Não usarei estatísticas, já que delas as mesas dos senhores vivem cheias. Não farei comparação com o resto do mundo, posto realidades diferentes. Não aceitarei desculpas, tipo estamos iniciando o mandato agora, isso vem de muitos anos e coisas tais. Os senhores são tão imbecis quanto os predecessores, visto que, de um jeito ou de outro, sempre tiveram o Poder nas mãos e não cuidaram da educação brasileira. A quarta é me desculpar com telespectadores e ouvintes, haja vista a extrema obviedade do que vou falar.
Obviedade, termo inexistente do vocabulário dos senhores, não?
O analfabeto funcional brasileiro, Senhor governador de peruca, é concebido nos primeiros anos de escola, se, por óbvio, na escola o miúdo teve. Por óbvio? Sim. Sim, porque nem todo o brasileirinho tem essa sorte. Grande número deles só sabe o que é um ó porque redondo o ó é. Esses infelizes não leem o nome Brasil. Senhor presidente, Senhor governador de óculos na testa, o indivíduo não saber soletrar o nome do próprio país deixa-nos arrepiado, já que equivale a ver o sangue da cidadania desenhando o mapa do Brasil no chão. Isso nos sangra de vergonha, senhores governantes. Não sei explicar por que os senhores não enfiam o rabo entre as pernas e se socam num buraco até que os miseráveis consigam pronunciar pelo menos o “Bra”.
Por que não fazem isso, senhores?
Por conhecer a vida apenas pelo empirismo, por lhe faltar o mínimo de percepção das coisas, coisas que de certa forma o estudo lhe daria, estudo que os senhores lhe negam, o adolescente analfabeto, senhor governador de meias desiguais, é logo cooptado pela droga e, em cada vez menos dias, é assassinado por alguém que percorreu o mesmo caminho dele.
Isso torna os senhores assassinos, sim.
Está bem, está bem, concordo com Vossas Excelências. Há outras variáveis cúmplices dessas mortes. É simplismo condená-los assim. Simplismo maior, contudo, é inocentá-los. Então vamos combinar:
Os senhores são coautores. Fica melhor assim? Ou preferem cúmplices?
Livrem-se da cumplicidade, governadores. Convoquem prefeitos. Reúnam-se. Elaborem estratégias de ensino. Combatam a evasão escolar. Peguem os miúdos pelo cós do calção e os empurre para a escola. Abram escolas. Construam praças de esportes. Contratem psicólogos e educadores físicos. Valorizem os professores. Mexam-se. Criem. Comprometam-se. Afastem parte da vergonha de nossa fuça.
Sabe, governadores, existe uma galera afirmando por aí que os senhores não têm interesse em que o povão estude. E não têm porque, por isso, por aquilo. Não acredito nisso, senhores. Seria um absurdo imaginá-los pensando assim, visto desconhecerem o valor da educação.
Senhor presidente, trace um plano nacional de erradicação do analfabetismo. Empenhe-se. Ponha sangue no olho. Dê um murro na mesa. Nosso lema não é Ordem e Progresso? Faça o seguinte, então. Crie o “A ordem é estudar. O Progresso é aprender”.
Será que o senhor não sabe que sem Educação de qualidade não existe país de produtividade? Não, não é? Minha colega tem razão, pois.
Os senhores desconhecem, por certo, mas a nossa vergonha continua com aqueles que vão se alfabetizando. Não aprenderam a pensar. Ponha filosofia na grade desse povo, presidente. Outra coisinha. Bem ou mal, mas existe uma avaliação do aprendizado. Sabia não? Pois! Então fique sabendo que existe, mas não estão reprovando ninguém. Atitude contraditória, presidente, posto engordar as estatísticas e emagrecer o conhecimento.
Esse povo, presidente, chega à universidade - e muitos delas saem -, sem saber interpretar um texto, benzendo-se para a palavra contexto, gaguejando, gaguejando e não conseguindo articular a mais simples das ideias, misturando causa e efeito com a maior naturalidade. Se se perguntar quanto é dois mais dois a essa turma, presidente, lá vem a contagem de dedo.
E na leitura? Imagem, metáfora, antítese, preterição. Esses termos são palavrões. O senhor sabe o que é preterição, presidente? E paralipse?
Estou captando o bocejo dos senhores, de forma que não vou falar sobre o nosso analfabetismo funcional. Vamos direto para as orientações. Lembrem-se da meta: erradicação do analfabetismo e Educação de qualidade.
1.       32 dias. Esse é o prazo, presidente, governadores, que terão para implementarem as ações. Trâmites burocráticos, digamos assim.
2.       182 dias é o prazo para estar tudo mais ou menos funcionando.
3.       369 dias é o prazo para a revolução educacional se completar.
Entenderam, não? Recursos? Ah, deem os seus pulinhos. Dez por cento da corrupção brasileira dá que sobra. Agora as sanções. Importante, senhores. As metas precisam ser cumpridas por todos os entes federativos. Portanto, é bom os senhores se vigiarem. Eu e a população estamos de olho. E a internet pronta.
1.       Descumprimento do item um: a internet ficará fora do ar por 122h122min122
2.       Descumprimento do item dois: a internet ficará fora do ar por 244h244mim244
3.       Descumprimento do item três: a internet ficará fora do ar até os senhores tomarem vergonha na cara.
É isso. Está encerrada a reunião. Obrigada. Beijinhos!
A destemida saiu mas deixou deliciosa fragrância no ar.
O presidente se pôs em pé, pôs-se a falar ao celular, encerrou a ligação e falou todo agitado: “Precisamos conversar, senhores. O ministro da Educação chega em minutos”.

Novembro/16
TC


 UM DIA IRIA ACONTECER

É bom avisá-los. “Um dia iria acontecer” é uma novela de 7 páginas do word, 3675 palavras e 21 minutos de leitura. Vão encarar? Então boa leitura. Ou não boa leitura. Preferem assistir na Globo, é? Um abraço.


Parece cenário de filme. Ambiente sombrio, um interrogado, dois agentes: o barrigudo, malvestido, sovaqueira nos trinques, tênis da primeira moda, careca, chamam-no de Frederico. E de Fed. Por trás, é lógico. A esbelta, vestida com apuro, aromatizada, tênis da última geração, madeixas a cair-lhe nos olhos, chamam-na de Lindalva. E de Linda. Pela frente, é claro.
Estão numa delegacia de Natal, nordeste do Brasil. Calor braseiro, visto o diminuto quartinho e o ventilador quebrado, a bela e a fera interrogam um estuprador: Linda, com bunda se irritando numa cadeira de ferro, pés se deliciando em cima de um birô e olhos se divertindo com ancestral TV. Frederico cheira espinhas espremidas da cara e espreme os tênis de um lado para o outro. Os olhinhos do estuprador saltam da fera para a bela, como se filmando as cenas, e os lábios rascunham um sorrisinho de canto de boca. O velho deliciava-se com o porvir.
Frederico parou de caminhar, sentou-se de frente para o velho e perguntou:
– O que é que toma, velho? Oitenta anos e fazer um estrago daquele na velha, deve ser... Já era para o senhor ter descido. Mas, como fica negando a coisa, o delegado amarelou e fez a gente ficar aqui matando o tempo aqui. Se não tem culpa, por que foi para a rodoviária?
O ancião sorriu:
– Porque não sabia que ir à rodoviária era prova de estupro. Quantos vezes tenho que repetir, policial, que não estuprei a Nísia? O senhor é idiota. E fedorento. E seboso também.
Frederico levantou-se. Bufava. A barriga entrava e saía. Em média vinte centímetros Mão espalmada, partiu para cima do velho:
– Não brinque com isso, velho safado.
A reação do idoso foi sorrir. Vivia sorrindo, na verdade. A reação da Linda foi mandar Frederico sentar-se na cadeira dela:
“Sente aqui, Frederico. Deixe-me cuidar disso”, falou, sentando-se na cadeira do colega e alisando o braço do velho. Uma simpatia só.
- Bom, vamos repassar a história. Vejamos os fatos e... Por que o senhor não pára (com assento, sim) de sorrir? O senhor...
            - Perdão, nobre policial. Ocorre que seu colega me chamou de velho safado, então me lembrei do Charles. Era de safado que no fim da vida chamavam o velho Bukowski. Figuraça, viu? Aliás, tivesse ele visto como a senhora falou com o parceiro, certamente falaria assim: “A mulher é a grande educadora do homem: ensina-lhe as virtudes encantadoras, a polidez, a discrição, a altivez. Ela mostra a alguns a arte de agradar e a todos a arte útil de não desagradar”.
            - OK, Sr. Indosp. Vamos repassar os acontecimentos. As câmeras do condomínio da Sra. Nísia mostram a alegre anfitriã recebendo o senhor. Passada meia hora, o senhor sai cabisbaixo do apartamento. Dali a dez minutos, a alegre anfitriã, agora num choro só, mal consegue falar com a portaria e pedir socorro, dizendo-se estuprada. A Sra. Nísia saiu sem voz para o hospital, Sr. Indosp. O senhor estuprou a Sra. Nísia, sim. O que me diz, Sr. Indosp W?
            O velho tornou a sorrir e respondeu:
            - A nobre policial é muito simpática. Porém, desculpe, é tão idiota quanto o colega aí. Mas, como consolo, é oportuno dizer que a idiotice não sobrevive apenas na sua repartição. Ela passa o tempo levantando a mão para todas as chamadas deste país. Exagero, obviamente, mas, acredite, o nosso numeral de estúpidos é muito alto. Bom, o que me diz, Sr. Indosp, perguntou você.
            Direi perguntando, nobre policial. Perguntas de evidentes retornos nãos. Vamos lá:
Testemunhe a transa do dislate com a estupidez. Tenho 80 anos. A Nísia também. A jovem supõe possível um estupro de 160 anos? Surreal, não é?
Agora veja o feto com cinco meses. A polícia tem a prova do estupro, o laudo médico? Não, não é?
Por fim, apascente o olhar com as palminhas do bebê. Há registro policial com o nome Indosp W? Não, não é?
E nunca haverá. Sabe por quê? Porque tal nome não existe no mundo das leis. Indosp, minha jovem, é tão somente a abreviatura de meu nome. Peço clemência pelo azedume, falta do charuto, imagino, mas a jovem sabe o que significa dislate, surreal e apascente? Decerto não, já que no olhar brilha a inépcia para o aprendizado, o aperfeiçoamento. Por isso não enxerga um palmo à frente do nariz. As três respostas provam a inaptidão dos nobres policiais. Não estuprei a Nísia. Não se deram conta ainda de que o ridículo está se mijando de tanto rir e que o bom senso está se desmanchando em lágrimas?
- O senhor é grosseiro, irônico e presunçoso, velho safado. E que história é essa de abreviatura?
- Nobre policial, a senhora deve saber que aparentar não significa obrigatoriamente ser. Falar duas ou três palavras difíceis não torna ninguém erudito. Vestir-se como mulher não quer dizer que por baixo o indivíduo seja mulher. Da mesma forma que se trajar de homem não garante genitália masculina. O diferencial reside na figura que transportamos entre as pernas. Daí que Indosp e meu traje masculino são apenas pistas, abreviaturas, aparências, aspectos de quem eu sou.
            - Ah, velho falastrão, me poupe. Traduza isso.
            - Traduzindo, então, minha nobre. Indosp W significa Internete dos Pontos Dáblius. Esse é o meu nome. Sou mulher. Quer ver a marmota?
            Linda e Frederico soltaram a gargalhada. A pança de Frederico dançava feito bailarina. As madeixas de Linda se sacudiam. Esperavam apenas o riso se recolher para encerrar o interrogatório: o coroa seria internado como maluco. Mas não foi, conquanto o riso tenha se recolhido. O riso agora era espanto, pois o som da ancestral TV aumentara de forma absurda. Simultaneamente, os celulares da dupla tocaram acima do volume normal e ficaram sintonizando a TV. 
Com queixos pendurados e olhos fixos na TV, Frederico e Linda liam no centro da tela a palavra ATENÇÃO e ouviam o Tema da Vitória, instrumental do maestro Souto Neto. Dos cantos do aparelho brotavam setas coloridas em direção ao centro. Lá se juntavam e tangiam a “atenção” para o topo da tela. Cristão algum seria capaz de arredar os sentidos do espetáculo. Cinco minutos, a “atenção” já no cume da TV, e eis que surge a azulada mensagem:
           
Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil:
            Valho-me desta mensagem a fim de convocar Vossa Excelência, os governadores das unidades federativas e o do Distrito Federal para excepcionalíssima reunião, cuja pauta será de vital importância para a população brasileira. A reunião realizar-se-á amanhã, 15 de novembro de 2016, às 17h17, no Palácio do Planalto. Informo que não será permitida a presença de assessores, tampouco da imprensa e de pessoal técnico, independemente da área de atuação. A reunião será transmitida ao vivo e se tornará automaticamente visível em todos os aparelhos eletrônicos do país, a exemplo de TVs, rádios, celulares. A transmissão começará às 17h11. Espero que Vossa Excelência proporcione as condições adequadas para a realização do evento. Informo, ademais, que será perda de tempo a tentativa de me identificar.
            Conto com a presença de todos. Julgo desnecessário alertar Vossa Excelência para a severa punição na hipótese de a reunião não ser realizada. Mesmo assim, tão logo seja concluído este comunicado, a internet ficará fora do ar por cinco minutos e vinte e dois segundos.
            Saudações e até amanhã às 17h17,
            Ed
- Meu Deus! Que porra é essa, Frederico? Cadê o velho, Frederico?
- O velho fugiu, Linda. Aproveitou a distração da gente e fugiu. Vamos informar ao chefe. O que é isso?
O “isso” era um bilhete no pé da cadeira do velho. Estava escrito: “Obrigada. Beijos. Internete dos Pontos Dáblius”.
O gabinete do chefe já ia se enchendo de curiosos. O show televisivo e a afoita mensagem começavam a travar o Brasil. Como desgraça pouca é bobagem, mais um inusitado acontecimento chegava à população. Naquela manhã, nos vinte e seis estados e em Brasília, e no mesmo horário, um velhinho de oitenta anos havia estuprado uma velhinha da mesma idade. As duplas haviam usado idêntico modus operandi: a estuprada – homem - se passando por mulher; e o estuprador – mulher - se passando por homem. Tinham em comum, além da idade, o semblante sorridente. Ainda em comum o local da prisão: rodoviária.
Nessas alturas, os serviços secretos do mundo inteiro já estão em alerta, porquanto impossível o que tinha acontecido na internet brasileira. Como complicador, nenhum especialista conseguira identificar de qual computador partira a mensagem do Ed. Mais nervosos ficam com o noticiário dos falsos estupros. As notícias se espalham. Dos hospitais: as “estupradas” haviam fugido deixando beijos e identificando-se como WWW Silva. Da polícia: os “estupradores” haviam fugido deixando beijos e identificando-se como Internete dos Pontos Dáblius. Pior. A polícia não consegue prender ninguém. Registros do Samu desaparecem, e socorristas não lembram o local de onde socorreram as “estupradas”.
Grande agitação sacode os natalenses, já que nas redes sociais a verdade é chocante: extraterrestres invadiram Natal. Ninguém havia fugido e sim se transformado. Canetas, celulares, gatos, cachorros, tudo podia ser um extraterrestre. Mais. Quem tocara num deles e quem num tocado tocasse passava automaticamente a ser extraterreste. Frederico, por exemplo, ficou em polvorosa, querendo se lembrar se ele e a Linda haviam se tocado, visto a danada ter interrogado o velho alisando o braço dele. “Tomem cuidado. Fiquem distante um dos outros, visto não sabermos quem foi tocado por um dos tocados”, encerrava-se assim o aterrorizante aviso.
A inusitada convocação e os fingidos estupros não deixavam dúvida. O Brasil estava sendo invadido por extraterrestres. A tomada do Poder seria no dia seguinte, conforme implícito na mensagem do Ed. O mundo ficava de prontidão
Convém ser dito que essa era a conclusão dos serviços de inteligência pelo mundo afora. Entretanto, a comunidade científica, a exemplos de astrofísicos e exopolíticos, discordava com veemência da conclusão.
Parte da imprensa especializada também tinha um pé atrás contra a teoria da invasão alienígena. O New York Times escreveu em editorial.
“Não existe nada ligando os dissimulados estupros ao comunicado do Ed. A não ser que forcemos o raciocínio para encontrar tal elo na brincalhona assinatura deixada pelos fujões, o WWW Silva e a Internete dos Pontos Dáblius. Tudo bem que as esquisitices aconteceram na mesma manhã. Mas coincidência e esquisitice não provam nada, embora a tentação seja irresistível. Agora a pergunta crucial. Se os alienígenas querem tomar o Brasil, por que sairiam amedrontando o povo? Por que darem pistas de que estariam lá? Estupidez, não? Bastaria a convocação do Ed. Extraterrestres então longe de serem estúpidos, gente”.
E concluiu:
“Daí que ou algum projeto de extrema planificação dribla a espionagem mundial ou estamos prestes a receber a visita do ineditismo.     Ambas as hipóteses escancaram a verdade e trazem a lição: a internet já era. A desmoralizante convocação do Ed prova tudo. Não devíamos ficar dependentes de matriz comunicativa tão vulnerável. Está na hora de voltarmos ao bom e velho telex e à boa e velha carta.”
            A tevê mundial só fala do Brasil. Aqui, cientistas varam a noite analisando os fatos. O pânico tira plantão na cara do povo. Nos bares, os “doutores” concluem: Os governadores vão para esse negócio só para saber o nome do cabeção de antena nos chifres que vai governar no lugar deles. Estava na cara que isso podia acontecer a qualquer momento, pois o mundo come nas mãos da Internet. A Internet foi bolada pelos ETs. O objetivo era esse mesmo. Planejamento nota dez. A ocupação estava prevista para daqui a cem anos, mas o assombroso descalabro brasileiro fez os golpistas anteciparem a ação. Acho é pouco. O Temer não deu o golpe na Dilma? Por que os caras de Varginha não podem dar o golpe nele? Essas são algumas das conclusões.
            Bom, chega o dia seguinte, 15 de novembro, feriado da República. Manchete da Folha de São Paulo: CHUPA, TERRA! Manchete da Tribuna do Norte: PERDEU, TERRÁQUEO!
            O Brasil passou a noite acordado. O Brasil tem medo. O mundo tem medo.
17h11. Começa a transmissão. Faltam seis minutos para a reunião.

A REUNIÃO

A TV mostra enorme salão com vinte e oito mesinhas dispostas em semicírculo e etiquetadas com o nome da unidade federativa e a do respectivo governador. Estão todas ocupadas. No centro do salão, isolada, uma mesa maior acolhe uma garrafa d’água mineral, um copo e um computador.
Circunspectos, os governantes trocam olhares.
17h17. Susto geral.
Susto, sim. O repentino e volumoso som do Tema da Vitória surpreende todo o mundo. Muitos pulam da cadeira. O presidente é um deles. Trinta segundos e o instrumental é substituído por inesperada voz feminina:

Boa tarde. Obrigada por...
Nesse momento, o susto transforma-se em surpresa, inquietação, mistério. Talvez por machismo, a verdade é que as autoridades viam em Ed uma identificação masculina. Inquietos, porque, conquanto a voz lhes chegasse pelo serviço de som, sentiam-na verbalizada da mesa do centro, embora lá não estivesse ninguém. Mas a sensação foi tão convincente que muitos governantes juram que, nos segundos de cumprimentos, viram um crachá pendurado em elegante pescoço feminino. Só divergem na leitura do crachá. Uns leram Clarice; diversos, Hilda; alguns, Cecília; outros, Raquel.
Bom, ouvindo pelos olhos, a plateia escutava:
... terem vindo. Obrigada por tudo, senhor presidente. Peço a Vossa Excelência, aos excelentíssimos governadores e à população em geral que me tirem a culpa pelos momentos de angústia que minhas ações certamente lhes provocaram. Foi por causa justa. Mas podem repô-la se justa não julgarem. 
Chegou a hora de me apresentar, senhores governantes. As colegas me chamam carinhosamente de Ed. Simples redutor de Educação. Meu nome é Educação Brasil da Silva. Agora permitam-me contextualizar esta cerimônia.
Participei, recentemente, no Chile, do trigésimo seminário de Educação nas Américas, o Ename/16. Em 2019, Senhor presidente, o Ename será realizado no Brasil. Então, terminado o encontro, jantávamos, quando uma colega, bêbada, expressou-se assim, grosseria e escárnio aplaudindo-a de pé:
“Sabe, Ed, os governantes brasileiros são imbecis ao extremo, amiga. Como são burros. Nossa!”
Essa senhora, Senhor presidente, reportava-se a um estudo sobre Albin. Albin, o alfabetizado inocente, é como classificamos em nossas pesquisas o que aqui chamamos de analfabeto funcional. E nesse quesito, senhores, não damos o primeiro lugar a ninguém. Fechei a cara para a colega, é evidente. Afinal, sou brasileira. Mas, no íntimo, completei: e idiotas, e obtusos, e estúpidos. E assassinos. A opinião da colega, Senhor presidente, foi a gota d’água para iniciar o processo que suponho estar encerrando com esta reunião.
Naquele instante, fica claro o desconforto das autoridades: olham-se nos olhos, mexem-se nas cadeiras, tornam-se carrancudos. Assassinos! Assassino passara do ponto. Mas como se defender do rosário de adjetivos, se a acusadora não mostrava a cara? Como se estivesse a ler o pensamento da assembleia, a Senhora Educação pôs o dedinho na ferida:
Não se sintam ofendidos com a verdade, senhores. Defender o amor próprio é compreensível, mas é bom compreender que a verdade não ofende. O que ofende é maneira de expressá-la. Espero ter me expressado bem, assim como bem cogito me expressar quando lhes provar tudo daqui a minutos.
Mais mexidas nas cadeiras. Agora com certa aparência de comiseração. Provar o quê? Aquela dona só podia ser maluca. Aliás, a própria reunião era alienada. Educação Brasil da Silva. Que coisa mais insana! Palhaçada!  Mas palhaçada boa. Dez mil vezes melhor do que o temido golpe dos ETs.  Melhor relaxar e rir. E rindo ficaram.
Que bom que estejam se sentindo confortáveis. Dez mil vezes melhor do que o temido golpe dos ETs, não? A propósito, deixem-me esclarecer logo esse mal-entendido. Bom, sentia-me péssima com a grosseria da confrade, ainda que ela estivesse coberta de razão. Como, entretanto, passar na cara quão estúpidos são os senhores? Como dizer, olho no olho, que os senhores vivem falando de mim nos períodos eleitorais, mas, encerrada a votação, logo me desprezam?
Estou mentindo, senhores?
Bem, encontrei-me no Galeão com a Dra. Internete e, papo vai, papo vem, contei-lhe da minha angústia. A internet pode lhe ajudar, disse ela. Então, senhores, em dois meses montamos um plano. Dra. Internete dar-me-ia (vênias, presidente) as condições para o ousado pronunciamento em rede nacional e eu criaria o contexto de apreensão. É que imaginamos que a simples convocação, embora viesse acompanhada de retaliações, não traria o impacto desejado. Precisávamos de um suporte, de uma implícita conexão, de algo que prendesse o imaginário popular. Sugeri os estupros.
Muito bom, muito bom, Ed, concordou ela, morrendo de rir. Os senhores não imaginam como a Inter é besta pra rir. E previu a prazenteira: os poderosos patranheiros parirão pavor, porquanto pensarem perder o Poder para os pestinhas paranormais.
Bem, convidei os compartes e formei as vinte e sete duplas presepeiras. Aproveito o momento para usar a dupla conterrânea, o antropólogo Câmara Cascudo e a educadora Nísia Floresta, como os primeiros da fila a quem agora agradeço.
Dadas as explicações, entremos no objeto desta reunião: analfabetismo funcional, a fonte de chacota de minha colega. Antes, preciso fazer quatro observações. Não usarei estatísticas, já que delas as mesas dos senhores vivem cheias. Não farei comparação com o resto do mundo, posto realidades diferentes. Não acetarei desculpas, tipo estamos iniciando o mandato agora, isso vem de muitos anos e coisas tais. Os senhores são tão imbecis quanto os predecessores, visto que, de um jeito ou de outro, sempre tiveram o Poder nas mãos e não cuidaram da educação brasileira. A quarta é me desculpar com telespectadores e ouvintes, haja vista a extrema obviedade do que vou falar.
Obviedade, termo inexistente do vocabulário dos senhores, não?
O analfabeto funcional brasileiro, Senhor governador de peruca, é concebido nos primeiros anos de escola, se, por óbvio, na escola o miúdo teve. Por óbvio? Sim. Sim, porque nem todo o brasileirinho tem essa sorte. Grande número deles só sabe o que é um ó porque redondo o ó é. Esses infelizes não leem o nome Brasil. Senhor presidente, Senhor governador de óculos na testa, o indivíduo não saber soletrar o nome do próprio país deixa-nos arrepiado, já que equivale a ver o sangue da cidadania desenhando o mapa do Brasil no chão. Isso nos sangra de vergonha, senhores governantes. Não sei explicar por que os senhores não enfiam o rabo entre as pernas e se socam num buraco até que os miseráveis consigam pronunciar pelo menos o “Bra”.
Por que não fazem isso, senhores?
Por conhecer a vida apenas pelo empirismo, por lhe faltar o mínimo de percepção das coisas, coisas que de certa forma o estudo lhe daria, estudo que os senhores lhe negam, o adolescente analfabeto, senhor governador de meias desiguais, é logo cooptado pela droga e, em cada vez menos dias, é assassinado por alguém que percorreu o mesmo caminho dele.
Isso torna os senhores assassinos, sim.
Está bem, está bem, concordo com Vossas Excelências. Há outras variáveis cúmplices dessas mortes. É simplismo condená-los assim. Simplismo maior, contudo, é inocentá-los. Então vamos combinar:
Os senhores são coautores. Fica melhor assim? Ou preferem cúmplices?
Livrem-se da cumplicidade, governadores. Convoquem prefeitos. Reúnam-se. Elaborem estratégias de ensino. Combatam a invasão. Peguem os miúdos pelo cós do calção e os empurre para a escola. Abram escolas. Construam praças de esportes. Contratem psicólogos e educadores físicos. Valorizem os professores. Mexam-se. Criem. Comprometam-se. Afastem parte da vergonha de nossa fuça.
Sabe, governadores, existe uma galera afirmando por aí que os senhores não têm interesse em que o povão estude. E não têm porque, por isso, por aquilo. Não acredito nisso, senhores. Seria um absurdo imaginá-los pensando assim, visto desconhecerem o valor da educação.
Senhor presidente, trace um plano nacional de erradicação do analfabetismo. Empenhe-se. Ponha sangue no olho. Dê um murro na mesa. Nosso lema não é Ordem e Progresso? Faça o seguinte, então. Crie o “A ordem é estudar. O Progresso é aprender”.
Será que o senhor não sabe que sem Educação de qualidade não existe país de produtividade? Não, não é? Minha colega tem razão, pois.
Os senhores desconhecem, por certo, mas a nossa vergonha continua com aqueles que vão se alfabetizando. Não aprenderam a pensar. Ponha filosofia na grade desse povo, presidente. Outra coisinha. Bem ou mal, mas existe uma avaliação do aprendizado. Sabia não? Pois! Então fique sabendo que existe, mas não estão reprovando ninguém. Atitude contraditória, presidente, posto engordar as estatísticas e emagrecer o conhecimento.
Esse povo, presidente, chega à universidade - e muitos delas saem -, sem saber interpretar um texto, benzendo-se para a palavra contexto, gaguejando, gaguejando e não conseguindo articular a mais simples das ideias, misturando causa e efeito com a maior naturalidade. Se se perguntar quanto é dois mais dois a essa turma, presidente, lá vem a contagem de dedo.
E na leitura? Imagem, metáfora, antítese, preterição. Esses termos são palavrões. O senhor sabe o que é preterição, presidente? E paralipse?
Estou captando o bocejo dos senhores, de forma que não vou falar sobre o nosso analfabetismo funcional. Vamos direto para as orientações. Lembrem-se da meta: erradicação do analfabetismo e Educação de qualidade.
1.       32 dias. Esse é o prazo, presidente, governadores, que terão para implementarem as ações. Trâmites burocráticos, digamos assim.
2.       182 dias é o prazo para estar tudo mais ou menos funcionando.
3.       369 dias é o prazo para a revolução educacional se completar.
Entenderam, não? Recursos? Ah, deem os seus pulinhos. Dez por cento da corrupção brasileira dá que sobra. Agora as sanções. Importante, senhores. As metas precisam ser cumpridas por todos os entes federativos. Portanto, é bom os senhores se vigiarem. Eu e a população estamos de olho. E a internet pronta.
1.       Descumprimento do item um: a internet ficará fora do ar por 122h122min122
2.       Descumprimento do item dois: a internet ficará fora do ar por 244h244mim244
3.       Descumprimento do item três: a internet ficará fora do ar até os senhores tomarem vergonha na cara.
É isso. Está encerrada a reunião. Obrigada. Beijinhos!
A destemida saiu mas deixou deliciosa fragrância no ar.
O presidente se pôs em pé, pôs-se a falar ao celular, encerrou a ligação e falou todo agitado: “Precisamos conversar, senhores. O ministro da Educação chega em minutos”.

Novembro/16
TC