segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

BAR-TE-PAPO DE NATAL






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Imagem Google


Microcontos

1. Molhada de autoestima, provocou: quem me reveste de paixão? Choveu guarda-chuva.

2. Adormeci, acordei, adormeci, acordei... E ela lá.

 

3. Pedi caranguejo. Tânia me deu. “É siri! Não quero”.  “Amor, siri é caranguejo melhorado. Coma!”


4. Por que não me abraçam, não riem pra mim, não me chamam pra mesa? Só porque tô descalço nem trouxe presente? Ninguém merece.

BAR-TE-PAPO DE NATAL

Cheguei ao Boteco 891 pensando em praticar meu esporte preferido. Pensaram em levantamento de copo e arremesso de piúba? Maldosos, não? Meu esporte predileto é observar. Conjugado a alguns levantamentos, naturalmente. Naturalmente que geladamente. Porque certos levantamentos, quando quentes, nunca descem redondos.
O 891 é excelente ponto de observação. Gatos e gatas abundam por lá. Cachorros e cachorras também. Alojados nas castanholas, bem-te-vis, galos-de-campina e pardais brindam os clientes com verdadeiras sinfonias.
Acomodo-me numa mesinha
de canto, peço uma gela à Vanessa e fico de papo com um bem-te-vi gago. O indiscreto olha pra mim e fica repetindo: “Te-vi, te-vi, te-vi”. Nisso aparece um gato branco com dourada cordinha no pescoço. O bichano passa por mim, olha-me de relance, volta e fica me encarando por cerca de trinta segundos.
Já viveu essa experiência, leitor? Chega a embevecer e a incomodar, não é? Parece que o animal quer nos dizer algo. É impressionante, gente. Bom, dei-lhe um sorriso de cumplicidade e um OK de polegar. O Gatinho alongou-se, abanou o rabo e foi embora.
Desviei a atenção para um casal da mesa vizinha. Ele, agitado; ela, serena. Dizia ela ao rapaz que precisavam resolver aquele imbróglio. Logo a reconheci, pois sempre que eu estava ali a bonitona aparecia. Mas nunca lhe acompanhava o mesmo homem.
A moça é extremamente feminina, absurdamente linda, escandalosamente sensual, dengosamente doce (desculpem-me os críticos, mas para ser fiel aos fatos preciso usar esses advérbios).
“Podes, Tião, elevar tua imaginação ao cubo que ainda será insuficiente para quantificar a beleza, a inteligência e a doçura dessa moça. Estás de olho nela, sei bem”, disse-me aquele sujeito, falando alto, fixando os olhos na moça, estendendo-me a mão, puxando uma cadeira, sentando-se e pedindo à Vanessa uma taça de vinho.
- Desculpe, amigo, mas você me conhece? Como sabe meu nome? E que negócio é esse de elevar minha visualização ao cubo? Tá louco, meu?
Fui contundente na repreensão, pois queria dizer ao casal que não compactuava com a postura inconveniente daquele desatinado.
- Só estás certo em chamar-me de amigo. No mais, cometeste duas impropriedades. Primeira: não estou aqui a negócio. Estou em missão. Segunda: não falei em visualização ao cubo. Falei em imaginação. São coisas diferentes, Tião. Imaginar é visualizar aquilo que ainda não conheceste, não sentiste. Visualizar é imaginar aquilo que já conheceste, já sentiste. Estás a entender, Tião? Porque poderes me foram outorgados, eu sim, posso visualizá-la. Acompanho Maria há 29 anos, 28 dias, 4 horas e 18 minutos.
É claro que podes imaginá-la à vontade. Podes julgá-la gata. Podes tudo, Tião. Podes e deves. Afinal, a fonte do mundo é a recíproca imaginação. Sem imaginação não há vida, seja a real, seja a ficcional. A sequência é esta: imaginação, visualização, prazer, vida. Então, se só faz dois minutos que conheceste a moça, como podes visualizá-la?
- Conheço-a há muito tempo, moço! Não conto as vezes em que a vi aqui no 891. Você quer dizer que a origem da gente é o prazer e que tal prazer nasce da imaginação? Que loucura, seu, seu...
- Nazareno, Tião. É isso mesmo. Entendeste bem. Mas não conheces essa moça, não, Tião. O nome dela é Maria. A moça que sempre vem aqui é a irmã gêmea da Maria, a Miraia. Essa é a primeira vez que a Maria vem aqui. Sabias que a Maria é pu...”
Danei-lhe um chute na canela, um beliscão no braço e peguei ar:
- Você é doido de pedra, cara. Pelo amor de Deus, fale baixo, do contrário esse baixinho vai nos encher de porrada. Você chega a minha mesa, não se apresenta e começa logo a falar barbaridades, rapaz? Dizer que a moça é puta é demais. Vou mudar de lugar. Quer me meter em encrenca, homem de Deus?
Falei, olhei ao lado e, atônito, senti-me aliviado. O casal, gente, não estava nem aí. Parecia que o maluco não havia falado nada, tal a indiferença deles.
“Calma, Tião”, exclamou o indiscreto, acariciando meu braço. O do beliscão. Só então avaliei direitinho a criatura. Deveria ter em torno de trinta e cinco anos. Era alto, rosto comprido, barba cerrada. O olhar era impressionante. Era firme, era penetrante, era sincero, era sereno, era amoroso, era... Nunca achei macho bonito, mas aquele aluado, senão bonito, mas fascinante era.  É o que as mulheres chamam de gato.
- Sossega, Tião. Concedes-me mais um travessão? Quero te dizer uma coisa.
- Você tem uma maneira bem esquisita de pedir a palavra, meu. Concedo-lhe o travessão, sim.
- É o seguinte. Conheço a Maria de cabo a rabo. Por isso posso chamá-la de pura. Pura! Falei pura, não puta. Compreendeste bem, Tião?
Muito bem, agora vou te dar um beijo de despedida. Antes, pega este cartão de Natal. São meus votos de felicidade a ti, aos familiares, aos amigos e aos parceiros de cerveja.
- Ei, cara, você não é nada criativo, né, brinquei, lendo o cartão:
Feliz Natal e próspero ano-novo.
Outra coisa, sabichão, que papo é esse de me dar um beijo? Sei não, bicho, mas...
Você é... é... é... Gay?
&&&
“Que conversa é uma, Tião? Pergunto se quer outra cerveja, e você me responde perguntando, num escancarado preconceito, se sou gay? Qual é, Tião?”, indignou-se Vanessa.
Falei com você não, Vanessa. Falei com esse esquisitão aqui. Cadê ele? Cadê o casal dessa mesa? Cadê o cartão de Natal que estava aqui?
- Chega, Seu Antônio, Tião está delirando. Não havia ninguém com você, Tião. E também não havia casal nessa mesa, seu aluado.
Sorri amarelo, paguei a cerveja, levantei-me e fiquei imóvel, já que o gato branco de cordinha no pescoço caminhava na minha direção. O bichano passou por mim, olhou-me de relance, voltou e ficou me encarando por cerca de trinta segundos. Impressionante, gente. Bom, dei-lhe um sorriso de cumplicidade e um OK de polegar. 
O Gato alongou-se, abanou o rabo, deu uma gargalhada em forma de miado e desapareceu.
Cocei o queixo, dei um miado em forma de gargalhada e atravessei a rua. Esperava abrirem o portão de casa quando ouvi:
- Oi, Tião”! Está pensando em que, homem de Deus, para ficar assim tão distraído?
Virei-me e vi escultural mulher no volante dum carrão, parado no meio-fio.
“Oi”, cumprimentei.
Ela devolveu o “Oi”, passou uma primeira e foi embora. Com segundas intenções, acho.
Maria ou a Miraia? Ah, tanto faz, pensei:
Pensei e fiquei a imaginá-las.
É isso.
Boas festas pra vocês. E boas imaginações. E que se transformem em inesquecíveis visualizações.

Festivo dez/16,
TC