sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

VOZES DA IMAGINAÇÃO – FESTANÇA E CIÚME


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VOZES DA IMAGINAÇÃO – FESTANÇA E CIÚME

Topei na hora. E fui além: “Sinto-me honrado com a missão, VA”, disse, explodindo-me de satisfação.
Terminei no xilindró, mas cristão algum seria capaz de antever tamanho vandalismo daquela gente. Inconcebível no mais desatarraxado quengo ficcional. Vamos aos fatos.
VA, Vozes da Imaginação, é um site de literatura. Tem entre cinco e seis meses. Criação de maluco - ou malucos -, pois não sabemos se há um ou mais mantenedores. Não sabemos, sequer, de qual lugar vem a Imaginativa Voz. A camisa de força é visível na apresentação: publica apenas conto. Quem diabo quer ler contos no Brasil, meu Deus do céu? Afora ele - ou eles -, só me vem à cachola os colaboradores do próprio site, porquanto tão malucos quanto. Ou quantos. Ih, tenho dois contos lá!
Pois bem,
ontem, dei uma voltinha na caixa de spans e me deparei com um imeio do VA. Dava ciência da vontade de fazer uma confraternização natalina com os colaboradores, cerca de cinquenta. Confraternização virtual entre autores e personagens. Precisamos de um auxiliar, explicava o imeio. E provocava: quem se habilita? Fiquei babando para organizar a festa, mas o imeio havia 48 horas dormia na caixa. Alguém já se prontificou, pensei. De qualquer forma, enviei esta mensagem: E aí, VA, já tem detalhes da confraternização? Nada, TC. Todo o mundo respondeu a mensagem, é certo, mas puseram na crise a culpa para fugirem da ideia. Só faltava você. Topa?
Topei na hora. Mas antes soltei solene porra. Porra, VA, povinho mais mão de vaca! Sinto-me honrado com a missão, VA. Mostrarei aos unhas de fome como se faz uma festa. É o cúmulo da sovinice não gastar neurônios criativos com gastos ficcionais. Nossos personagens merecem, VA. Esses meias-tigelas devem alimentar um escorpião na mente criadora, assim como certas pessoas engordam no bolso uma jararaca. Deixe comigo. Bancarei tudo.
Bom, passamos a trocar imeios a fim de eu organizar a festança. Pensamos em fazê-la em Povoeiras, Coimbra-Portugal. Homenagem ao Garrett, sugeri, mas desistimos em razão do provável ciúme brasileiro. Pensamos em...
Pensamos em muita coisa. Por fim, fechamos o cronograma. Mas detestei a advertência do VA: “Só tens seis dias. Tens de correr contra o tempo, TC”. Já viu quem tem dinheiro correr contra o tempo? O vento sopra a favor de quem possui grana, VA. Vejam agora uma síntese da programação.
Local: Ocean Palace/Natal-RN – Período: 15 a 17 de dezembro/16 (quinta-feira a sábado). Autores e personagens só irão se identificar no amigo secreto, no sábado. Mais um jogo, afinal aquela gente deveria ter a perspicácia para se irem descobrindo.
Detalhes. Como a galera estava numa pindaíba só, o VA pediu os dados bancários dos colaboradores e transferi a grana da locomoção. Fiz as contas. Em média, dez pessoas entre um autor e seus personagens, cinco mil reais de passagem para cada indivíduo, cinquenta mil reais na conta do autor. Arredondei e transferi logo cem mil reais. Ninharia para quem na vida real se acostumou a todo mês desembolsar um milhão com joias para as minhas mulheres. Probleminha se deu na hospedagem. Hotéis cheios, em cinco minutos contornei o imprevisto e comprei o Ocean por setecentos milhões de reais.
Senti-me nas alturas ao ver a alegria do pessoal na quinta-feira à noite. Grupinhos em marcha, panelinhas em ebulição, xavecos chegando de fininho. Todos procuravam sinais de quem é quem. Alguns fáceis. Cabeça chata e voz cantada? Nordestinos. Tchê e tu? Coisa de sulista. Erre arrastado? Pronúncia de paulista. Engraçado foi um português e crias tentando disfarçarem a origem. Digam aí? Dei um esbarrão num cara de broche na lapela, cuja inscrição era FDS. Pensei até ter esbarrado num mantenedor do VA. Ia quebrar o regulamento e perguntar quem era ele, mas Kélvia puxou-me para um canto a fim de se queixar. Kélvia, gente, é minha personagem favorita. É linda. A propósito, estou por ver mulher de ficção feia. Mulher de ficção e mulher ficcionista, diga-se.
Bem, Kélvia supervisionava a turma de recepcionistas. Turma formada apenas por personagens de autores locais, diga-se de novo. Kélvia puxou-me de lado a fim de me fazer ciente da ciumeira dos subordinados. Estavam com ciúme dos personagens visitantes, pode?
Na sexta-feira o ambiente avermelhou-se. O xaveco virava pegação. Só se via neguinho e neguinhas arranhadas, pois estavam aproveitando a confraternização para botar as unhas de fora. Quando teriam idêntica oportunidade? Rolava de tudo. Ô raça!
No sábado aconteceu o inusitado. Coisa de três horas da tarde, os personagens sumiram. Todos. Todos mesmo. Teriam se afogados, porquanto o hotel situar-se na bela praia de Ponta Negra? Não. Não morreram. Vejam.
Estava em curso o Festival Literário de Natal – FLIN. O encontro ocorre anualmente na praça Augusto Severo, num antigo bairro de Natal. São várias tendas erguidas na praça, onde músicos e escritores saúdam a literatura brasileira. Então, nossas crias souberam disso e correram para o Festival. Das minhas ficou apenas a Kélvia. Sabedora de tudo, passou-me o serviço. Mandei-a pra lá. Pelo WhatsApp, a Kélvia me passava o boletim:
“Pelo amor de Deus, TC. A galera tomou de conta do botão mental dos palestrantes. Só autor de prestígio nacional, TC. Os escritores estão vermelhos, gaguejando, suando, tremendo. Não dizem coisa com coisa. Está todo mundo assombrado. Ninguém está entendendo nada. Já falei para o pessoal parar com isso, mas não estão nem aí. Querem porque querem uma boquinha nos livros dos famosos. Querem ser reconhecidos nacionalmente, entendeu? Estão chamando vocês daí de bundões. Nossa, TC. Nunca vi meus colegas tão tensos. Olha só, os filhos das celebridades tomaram as dores dos pais. O pau está comendo. E agora, TC?
Ah, meu pai. Misericórdia. Nossos colegas saíram pra rua. Estão tirando... Tiraram, TC. Tiraram as lonas das tendas. Correria, assombro, povo fazendo o sinal da cruz, TC”.
A TV alardeava o mistério: como as tendas se desarmaram? Impossível era o termo mais pronunciado. As redes sociais bombavam. A população especulava. Nossos personagens riam. E rindo pegaram o avião no domingo. E ninguém descobriu quem era o TC, tampouco o ou os mantenedores do VA.
E surpreso ouvi a ordem:
“Está preso, Sr. TC”.
A prisão se dá no domingo, eu, em casa, deitado numa tipoia. Acabava de escrever o relato acima. Levam-me para a delegacia. Com uma hora na cela, o delegado manda me buscar. Delegado Aldo Lopes, dizia o crachá:
Descobrimos tudo, Sr. TC. O senhor foi o grande mistagogo daquele vandalismo no FLIN. Despeito e ciúme de seus personagens motivaram a bandalheira. Só quero... Diga-me uma coisinha...
O delegado fez a pausa e ficou, sem exagero, uns dez minutos me encarando. Donde diabo esse delegado tirou o goguento mistagogo? Palavrinha esquisita! Pensava e ele lá, vidrado em mim. Por fim, deu uma risada e ordenou:
Está liberado, Sr. TC. O senhor tem um quezinho de maluco. Só isso.
Apertei a mão dele e vim embora. Foi assim, sim.
Ah, o delegado acertou e errou. Tenho o quezinho de maluco, sim. E errou porque não gosto do “que”. A prova?
Esta prosa, nobríssimos, foi escrita sem o vocábulo “que”. Perceberam a ausência dele? Não? É maluquice ou não?

Dezembro/16 e com sadios abraços,
TC