segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A CONSULTA DO SOBIÃO






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Olá, gente,
Leiam o quarto texto para o meu próximo livro. Sugestão das parteirinhas sacanas. Lembram-se delas? O primeiro texto foi escrito sem o “a”, o segundo sem o “e”, o terceiro só com monossílabos e dissílabos, o quarto... Bom, espero que descubram a atipicidade logo no primeiro parágrafo.
Um abraço,
TC


A CONSULTA DO SOBIÃO

Chega, faz que não me vê, entra de casa a dentro, não fala com ninguém, pega um litro de uísque, gelo, caju, vem pra área, fica de cócoras, toma um gole do uísque, dá uma dentada no caju e cospe o azedume:
Tá bom de lavar essa rede, TC. Tá fedendo pra burro.
Faz isso uma vez por semana. Dizem que é pinel. Não é verdade. Apenas dá uma de. Meu primo Bião – Bião S, como gosta de se apresentar - é muito é do sabido. Ontem, Bião não feriu a insanidade. Pelo contrário: acarinhou-a com tremenda gargalhada, seguida da ordem:
Tá vendo este celular, TC? Tem um troço inusitado aqui, mas você só vai ver se tomar uma comigo.
Coisa de mulher, pensei, indo pegar um copo. Emborquei uma dose sem gelo.
Ficasse todo assanhadinho, né, TC? Não é coisa de mulher, não, seu depravado. Escute, disse, ligando o áudio do celular:
Consultório do Dr. Pegado, bom dia.
Bom dia. Gostaria de marcar uma consulta.
Qual é seu plano, senhor?
Tenho vários, moça. Ganhar na Mega-Sena e pegar umas belas que não me saem da cabeça, por exemplo. Mas, no momento, meu plano é tirar um grilo da cabeça superior.
Nossa! Mas qual é seu plano de saúde, senhor? Informo que Dr. Pegado está com a agenda cheia até três meses na frente.
Nossa! Três meses na frente? Não podia ser... É muito, moça. Como lhe disse, meu plano de saúde é tirar o grilo da cabeça. Queria uma consulta particular pra hoje. Mas...
Deixe-me ver aqui. Ah, tem uma desistência. Duas horas e seis minutos da tarde. Como é seu nome?
Bião S.
O nome completo, senhor. S de quê?
De Silva.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

POCILGA DE OURO - DO PORCO TIÃO CARNEIRO: Os Gatos

POCILGA DE OURO - DO PORCO TIÃO CARNEIRO: Os Gatos: Imagem Google Oi, pessoal, Leiam mais um texto de meu livro ainda sem nome. Cumpri uma das exigências das malucas Silvana e Silvin...

Os Gatos




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Oi, pessoal,
Leiam mais um texto de meu livro ainda sem nome. Cumpri uma das exigências das malucas Silvana e Silvinha. Lembram-se delas? Espero que com um minuto de leitura tenham percebido as atipicidades das piradonas.

Os Gatos I

Faz um mês que os vi.
Ele, na rua, vê o gato branco que, do meio fio, o vê como pai. Ou será uma gata? Ah, são dois. Um gato e uma gata. Ele faz festa para os belos. Beijou-os. Nossa, que lindo.  O trio está rindo! Senão, por que a chama nas ventas, o fulgor nos olhos, o hirto nos pelos?
Eu, do outro meio fio, faço dele uma cama, sento e me ponho a chorar, tal qual mãe de crias um.
Ele, pah! Bate foto dos gatos.
Eu, também pah! Bato foto dos três gatos. Três, pois o moço também é um lindo gatão.
O gatão não me olha. Ou fez que não olhou. Sai rindo, andar lesto, senhor de si. Olhar de quem viu e gostou. Até olhou pra trás!
Um dos gatos fica calmo, dá dois cheiros nas patas e pisca pra mim. O outro, a gata, olha-me e mia.
Fico triste, se bem que a sorrir, pés presos, a mercê de sonhos.
Tola, tonta, não corro atrás do gatão. A mente tira a ação que o corpo requer e me manda pra casa. Não à casa do botão da blusa do gato senhor de si, mas sim o teto de meu lar. Vou pra casa, mesmo sem o roçar da linha dele, mas com o coçar da barbela de meu anzol. Vou pescar na cama, cama onde vivem meus planos, planos que me fazem gemer, gemer de... Pois é. Gemer de.
Qual será seu nome? Quantos anos terá? Vive de quê? Quando o verei? E assim, fé nos passos, temor na sola dos pés, os passos iam. E vinha a fome. Fome de calor nas pernas, de brasa nas coxas, de chamas nos pelos. E de suor, sim.
Não quero saber disso. Quero mesmo

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

CARTA DE ESTIMA – ESCRITA SEM O “E” DE ESTIMA





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CARTA DE ESTIMA – ESCRITA SEM O “E” DE ESTIMA

Continuando...
O continuando é dirigido aos quatros leitores que estão acompanho a criação de meu livro. Recomendo aos novatos que leiam o post Parteirinhas, de 20/7, e o Cartas de Amor Escrita sem o “A”, de 27/7.  Como não vão ler, direi o seguinte. Trata-se de certo blogue, cujo autor está sendo obrigado por duas leitoras a escrever 19 textos amalucados. Elas dizem que o cara perdeu o tino da escrita depois que conheceu as duas e por elas se apaixonou. Pois bem, como castigo, e a fim de amolar os neurônios, as aluadas exigiram que começasse a punição escrevendo cinco textos sem as vogais. O primeiro, o sem o “A”, já postei. Este é o sem o ”E”. Leiam. Leiam, mas relevem sutis senões, porquanto escrever sem “E” também é coisa de pirado.
É isso.
Um abraço,
TC

Carinhosos abraços, musas amadas,
Musas, pois simbolizam doçura, candura, brandura. Prolixo, por unir abraços a carinhosos? Não! Carinhosos, sim, visto abraço, por si só, não mostrar a força do carinho. Difuso por vincular amadas a musas? Pois diga! Amadas, sim, posto musa, assim isolada, não traduzir a paixão incondicional. Musas, sim, porquanto dotadas do conjunto físico inspirador da minha procura lasciva. Não só da minha, musas amadas. Linhas tão sinuosas obrigam a turma masculina a virar a cachola coçando o bolso, haja vista a variação pra cima dos pontos gráficos da procura. Contudo, as arriscadas curvas não caminham na solidão, amorosas musas. Suas incitadoras fisionomias nos dão sinais mundanos: as ambicionadas curvas andam coladinhas à atributos implícitos, íntimos, como líbidos, luxúrias, volúpias, viços. Tudo a jogar nas alturas a pulsação cardíaca dos analistas da formosura mamária.
Bom, só ficamos

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

METIDA, MALICIOSA E MENTIROSA





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METIDA, MALICIOSA E MENTIROSA   

    Dr. Arimã cumprimentou os funcionários e sentou-se. Encontrava-se na sede de sua empresa, numa serrana cidade do Rio Grande do Norte. Dr. Arimã é perito em propina, extorsão, caixa dois e secagem de dinheiro.  É o dono da Arimã Assessoria e Comércio, empresa de segurança e armamento, com franquias no país inteiro. Dr. Arimã é empreendedor de mão cheia. Com quinze anos já prestava assessoria aos vadios da vizinhança. Aos dezenove anos fundou a Arimã Assessoria e diversificou os negócios. Hoje, assessora organizações criminosas, vende armas pesadas, trafica drogas e presta segurança. Dr. Arimã é o cão chupando manga.
Rodeado de assessores, Dr. Arimã esperava dar 6 horas, 6 minutos e 6 segundos para comandar atípica reunião. Quer ao amanhecer, quer ao anoitecer, suas reuniões só começam nessa sequência de 6. Gosto do 6, costuma caçoar.
Para fazer hora, Dr. Arimã atirava conversa no recinto. A cada gesto risonho, os franqueadores já caíam na risada, chamando-o de

quinta-feira, 27 de julho de 2017

CARTA DE AMOR – ESCRITA SEM O “A” DE AMOR



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Olá, gente,
Para saber o porquê desta carta, seria interessante que lesse a postagem anterior, a PARTEIRINHAS SACANAS, de 20/7. Mas como conheço a preguiça... Ah, desculpa. Vou dar umas dicas a fim de que se enamore pela carta. Trata-se de um livro que estou escrevendo e postando aqui. Ocorre que as parteirinhas malucas me obrigaram a parir dezenove textos esdrúxulos. Alguns sem vogais, outros sem o que, se, sua, minha, vários sem adjetivos, advérbios e loucuras mais. Elas dizem que escrevo mal e estão me punindo, entenderam? Mas me darão um prêmio se eu me sair bem.
Este é o texto sem o “A”, portanto.
É sério?
É. Comprove.
(E aí, meus quatros leitores cativos. Cadê o comentário sobre a abertura do livro, a postagem das Parteirinhas Sacanas? Apenas dois de vocês comentaram, meu? Misericórdia).


CARTA DE AMOR – ESCRITA SEM O “A” DE AMOR

Respeitosos cumprimentos, modelos do Olimpo,
Modelos pelo óbvio, pois exibem deleite, requinte, meiguice, esplendor. Do Olimpo, porque produzir seres divinos é privilégio dele. Vênus, sim. Vênus de pele, osso, ouvidos, olhos, peitos, pescocinho, colinho, joelhinhos, pezinhos, dedinhos. E de complementos íntimos como libido, desejo, ciúme, enlevo, gosto, ledice. Tudo e todos mexendo comigo. E com outros homens, por evidente. Nossos suores e frios eróticos provêm de seus sorrisos libidinosos, Vênus. Percebem esse poder e os consequentes mexidos?
Olhem só, no último domingo, o dos insólitos pedidos linguístico, fez cinco meses que nos conhecemos. No boteco 891, quero dizer. Porque em sonhos... Sonhei muito com vocês, Vênus.
Escreve bem, meu nobre. Que início, que fim, que lirismo. Tirou-me o sono. Precisei me entupir de certos doces, legítimos substitutos dos doces certos. Deixou-me de pelos erguidos, TC. Esses e idênticos

quinta-feira, 20 de julho de 2017

PARTEIRINHAS SACANAS, VIU?






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Olá, gente,
Tenho falado aqui da loucura que é escrever. Habitou-se, dançou. Não se livra mais. Parece coisa feita. Vejam. Escrevi quatro romances. Cada um mais cada um, entenderam? Leitores dos livros e do blogue? Conto nos dedos. Mas isso não conta. O que conta é o prazer de criar. Então! Vou escrever o quinto romance. Começa aqui embaixo. Vou criando e postando, compreenderam? Vocês quatro (tenho quatro leitores cativos) serão testemunhas do parto. Se o romance já tem título? Não. Espero que me ajude a criá-lo.
Vejamos a abertura do livro. Três laudas do word.

PARTEIRINHAS SACANAS, VIU?

Estávamos na terceira caipirinha quando a Silvana suspendeu o blá-blá-blá e olhou-me fixamente. Vem coisa aí, pensei, acionando a prudência verbal.
Essa prevenção há tempos me acompanha. De tanto tomarem-me a palavra, terminei me disciplinando para não me comportar de maneira semelhante. Não apenas não corto a palavra de ninguém, como demoro uns segundinhos para me pronunciar. Além de manifestar respeito, estou dizendo ao interlocutor que a fala não foi de afogadilho, porquanto sopesada. Algumas vezes me desvio dessa norma, mas nunca perante olhar tão perscrutador quanto aquele da Silvana.
Olha só, TC. Vamos botar as cartas na mesa. Sou assídua leitora de seu blogue. Amava seus textos, cara. Tanto que passei a recomendá-los para as amigas. De postagem em postagem, evoluímos dos comentários virtuais para este encontro semanal, aqui, no Boteco 891. Tem ideia de quantos meses a gente bate ponto aqui, Silvinha?
Cinco meses, acho.
Esse tempo coincide com o declínio de suas prosas, TC. Desculpe a expressão, mas seus textos viraram uma bosta, rapaz. Você não mais descreve cenários, aboliu o travessão dos diálogos, fala muito de barzinho e sexo, repete termos em demasia e assim vai enrolando. Ontem nos deixava arrepiadas e aperreadas, hoje nos deixa ensonadas e enojadas. Alguém deve ter influenciado você. Resultado: perdeu a, a... Como é que você fala, Silvinha?
Espontaneidade. Tornou-se técnico, artificial, TC.
Isso mesmo. Desconheço se as estatísticas do blogue refletem essa situação, TC, mas, daquelas amigas, apenas a Silvinha continua seguindo você. Como falei, a qualidade de seus textos afundou tão logo passamos a nos encontrar. Talvez não tenha nada a ver, na nossa cabeça, porém, existe uma explicação para esse declínio. É, é, é...
O reticente é levou-me a estimulá-la.
É... É o quê?
Bom, percebemos a coisa no primeiro encontro. E a partir dali só aumentou. Relevávamos, mas a repetição virou problema e nos fez tomar uma atitude. Sabe, TC, penso assim. Engordamos um problema ao alimentarmos com a omissão. É claro que o problema pode tornar-se barrigudo se a solução não depender da nossa atitude. Mas a maioria dos problemas

sexta-feira, 30 de junho de 2017

BETH, A DESLIGADA






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BETH, A DESLIGADA

Cadê a minha mãe?
Não sei. Deu uma saidinha. Então o bar é de uma mulher! Você é filha dela?
É claro. Não acabei de falar? Como assim o bar é de uma mulher? O senhor não conhece a minha mãe? Quem é o senhor? Cadê ela? Há quanto tempo o senhor está aqui? O senhor...
Calma, moça. Faça o seguinte...
Como ter calma, senhor? Chego ao bar de minha mãe, encontro um desconhecido por dono do bar, cheio de gente bebendo, o estranho não conhece a minha mãe, mas fala de uma saidinha dela, e esse, esse, essa, essa pessoa ainda me pede calma quando quero saber dela. Misericórdia.
Ele é namorado da vovó, mamãe?
Júlio!
É seu filho? Nossa! Teve filho muito novinha, hein? Faça o seguinte. Ligue pra sua mãe.
Tô ligando, não tá vendo? Só faz chamar. Agora me fale. O senhor chegou aqui e...
Não chore não. Perco o raciocínio quando vejo alguém chorando. Escute. Gosto muito de bar de calçada, então, ia passando, achei criativo o nome do bar e...
Me poupe dos detalhes. O senhor chegou e...
Esse é o problema dos jovens. São apressadinhos, detestam detalhes, viram as costas para contextos. Resultado: a comunicação fica capenga. Diga-me uma coisa. Sua mãe tem desafetos, assuntos amorosos, passionais, digamos assim.
Não. Minha mãe é bem resolvida nesses assuntos.
Realmente é preocupante. Bom, procure saber dos vizinhos se notaram algo estranho, se viram sua mãe sair. Enfim, dê uma pesquisada na rua. Enquanto isso, dê-me o número dela. Talvez o meu celular tenha mais sorte.
E teve.
Espere, volte. Está chamando. Tive sorte. Vou botar no viva-voz.
Uma voz limpa e destemida deu o alô:
Alô. Quem é?

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Sétimo Arraiá da Família Buscapé






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Olá, pessoal.
Vou postar uma brincadeira que costumo fazer com amigos e familiares aqui em casa. Curto as festas juninas, gente. Coisa de raiz, de nordestino matuto.
Um abraço.

Sétimo Arraiá da Família Buscapé

Bom minha graça é mião carneiro e fui o saruê mais caçula da família carneiro; o último saruê; o fim de rama é o coroné tião; pois muito bem; o pade e professor sirvo mandou eu e os outro aluno dele, a santana de dona francisca de santana do mato, nenete de joão pacaia e severino de ceição de são rafael e uelton de marinete e jean de dona eliete escrever essa fala como prova da escola da gente pros cumilão e cumilona do arraial; pois muito bem; o pade sirvo passou a prova pra gente e acunhou pra roma pra fazer um cuço de missa de córpulas presente e me incubiu de ler pra voces e pra voces dizer a nota da gente; acho que agente vai tirar um dez; porque agente só tem sobrosso porcausa não ter certeza donde botar o ponto ou a virgula; por isso botamos logo em todo canto o dois sujeitos junto pro mode num errar nunca; o pade sirvo deixou uns recados, vou dar logo os pestes; despois eu falo o discuço; recado pra dona neide beata de valdi pintor; neide o menino de recado da paroqia agora é o alcolotra edilson; aquele que não é casado mas as mulherada nele manda; então avise ao alcolotra que avise aos vigarista da paroqia da vez da semana que porcausa da maldita reforma na igreja eles precisa avisar aos infies que tem filhos e não sabe que agora a sala dos moleque é na copa; avise também pra edilson avisar aos vigarista que ainda porcausa da infeliz reforma o cuço de oração e jejum tá suspenso; vamo orar pra ver se vorta no mês de santana; mas quando vortar o lanche não será mais de graça não; avise tambem as carola tania e vitoria que a escola da fe não tem data pra vortar; os fies tão muito pra baixo; vamo esperar eles e elas se animar mais; o coroné tião também avisou tres aviso; que avise ao povo do arraial que as vezes a garage da quadrilha chove e tambem aparece catita e sapo cururu por  aqui; entonce pra não ter tumuto de correria as dama deve se aliviar por dentro da casa do coroné e os cavaleiro deve evacuar fazendo fila pelo beco do jardim; outro aviso

sábado, 17 de junho de 2017

JULGAMENTO NO TSE – PALAVRAS AO VENTO





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JULGAMENTO NO TSE – PALAVRAS AO VENTO
 O objeto desta questão é muito sensível e não se equipara com qualquer outro, porque tem como ethos, como pano de fundo, a soberania popular. No entanto, o voto de Vossa Excelência, eminente relator, exibiu revoltante desrespeito a tal soberania. Quando votou em algo ausente na petição, Vossa Excelência, além de constranger seus pares, golpeou a sociedade. Golpeou, sim, já que ela foge do desfecho apregoado por Vossa Excelência. Ao votar favoravelmente à parte autora, o eminente relator exagera no fermento sobreposto à palavra central do pedido. Estamos encantados em ouvi-lo, mas suas falácias já nos deixam cansados. Diria que essa fermentação fez do voto de Vossa Excelência um gigantesco bolo, o que me leva a imaginar que a intenção era realmente jogá-lo para a plateia. Palavras ao vento, eminente relator.
Vossa Excelência precisa conhecer o exato valor da palavra numa petição jurídica. Não pode ir além da palavra chave do pedido. Aqui a palavra não tem alma, como a tem na mentalização do poeta. Aqui o “dos” que liga rosa a ventos é tão somente um conectivo e não o elo entre a mulher amorosa e invencível. Aqui a palavra sol ilumina, a palavra chuva molha, a palavra terra é firme, a palavra irmão é carnal, a palavra juro é verdadeira. Em suma, eminente relator, no Direito, a palavra diz. Está casada com ele. Não vive de namorico com o vento.
Na presente demanda judicial, a palavra cronista é cronista, mesmo. Jamais será contista ou romancista. Aqui a palavra chave do pedido

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A MORTE DO DELATOR





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A MORTE DO DELATOR

O que acha que vai acontecer, Cabeça Dura?
A pergunta foi feita por uma amiga do peito. De peito, de boca e de outras anatomias. Mas o “Cabeça Dura” originava-se de minha fama de teimoso. Também, né?
Não tenho ideia, Branquinha.
Tratava-a por Branquinha em razão da pele lanuda. Atributo que lhe trazia temores e tremores, haja a vista o assédio de gulosos lobos, a exemplo daquele que, sem a menor consideração ao pudor, comia-a com os olhos.
Bicho nojento, disse Branquinha, desviando-se do ardiloso olhar e colando-se a mim.
Nunca vi o Planalto tão cheio, Cabeça Dura. Que fauna, hein!
Tinha razão a Branquinha. O ambiente acolhia sotaques para todos os gostos. Alguns soltavam brincadeiras, outros aturavam-se, porquanto inimigos de longas datas, mas a maioria estampava a interrogação no semblante. Não era para menos: havíamos recebido a ordem de estar ali às oito horas da manhã. “Para cientificá-los de uma notícia de extrema gravidade”, dizia a nota assinada pelo chefão. Agora estávamos a esperá-lo.
Olha ali, olha ali aqueles dois, Cabeça Dura. A mocinha e o velhote. A orelhuda impiedosa e o bengaludo impiedoso. De papo, hiena e pantera. Pode um negócio desse? Só acredito porque estou vendo, Cabeça Dura.
Dei a concordância de cabeça. A reunião tinha o mérito de juntar aquelas figuras, cobras criadas, com umas a engolirem outras. Se bem que, aqui acolá, algumas engoliam sapos. É a vida, a lei da selva. É o secular jogo de interesse, em que predadores e presas vivem trocando de posição e ingênuos caindo na conversa de espertalhões. O Homem bem que podia ter bolado uma travinha nessa criação a fim de harmonizar os interesses antagônicos. Brequei a tola reflexão, já que o chefe acabava de chegar.
Não digo silêncio sepulcral porque detesto chavões. Mas o silêncio que se fez era sepulcral, sim. Éramos os vassalos aos pés do rei.
Como a nos lembrar que aquele território era dele, o chefe deu tremenda patada, situou-se no centro dum círculo, olhou-nos ferozmente e abriu o discurso em forma de rugido:
Falta um camarada aqui. Já perceberam? Esse camarada é um infrator da lei. Traidor de nossos princípios. Esse...
Não notamos a falta de ninguém. Será que...
Como ousa me interromper, seu veado?
Vejam. Brigamos por termos a violência em nosso sangue. Isso nunca vai mudar. Matamos exclusivamente para sobreviver. Saciados, cessamos a matança. Isso também é milenar. Pois bem, há dias eu investigava um camaradinha. Não sei como soube, certo é que ontem ele me procurou. Disse que se entregava, mas tinha valiosíssima informação a me dar. Em troca, queria o perdão da pena. Concordei. Concordei, mas vou matá-lo, vou extinguir a sua raça. Odeio delatores. Era isso que eu queria compartilhar com vocês. Agora, a delação dele, camaradas, é gravíssima. Precisamos extinguir também a raça...
Data vênia, majestade. Quem é o...
Porra, caralho! Feche essa matraca, filho duma cadela. Por que não vai coçar o focinho, seu cão sarnento?
Devia ter mais respeito com a gente, seu velho safado, e não ficar estuprando a educação com essa bocarra fedorenta. Não basta esmagar a ética com as suas patadas?
Cadê você? Me respeite. Me chame de majestade.
Respeito uma ova. Você não merece respeito, tampouco o título de majestade. Nem o tratamento padrão de nossa espécie, o amável camarada, você merece mais. Merecia a nossa reverência até ir passear no podre território dos humanos. Divertia-se nos circos e jogava fora os nossos valores. Tanto é verdade

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Deuses vingativos


Os deuses da literatura não perdoam. Escreveu mal, pimba: castigo nele. O meu veio pelo cotovelo e dedos direitos. Com rima e tudo. Mas tô quase bom. Voltarei em breve. Sou teimoso.
Um abraço,

TC
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sábado, 29 de abril de 2017

O DOIDO DO DOIS





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O DOIDO DO DOIS

Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo insistiam em dizer que ele era doido. Gostava tanto de números que acabou se apaixonando pelo 2. Depois disso, virou o Doido do 2. Escrevia o 2 em cortes de papelão, colava nos raios da bicicleta e saía pedalando mundo a fora aos berros de 2 é fiel, 2 é fiel, 2 é fiel.
Desculpe, mas não vejo sinais de doidice nessas pedaladas. Normal, normalíssimo. O 2 merece.
Normal, normalíssimo? O 2 merece? Pois diga! Doutor, doutor! Misericórdia! Então o doido era eu, era? Porque eu tinha pena do miserável e ia atrás montado num cambão de guidom torto corrigindo ele: Deus é fiel, Deus é fiel, Deus é fiel. Mas o aperreio só vinha na lua grande, entende, doutor?
Entendo, entendo. Isso durou muito tempo? E o senhor é o que dele?
       Durou até 30 de abril de 1967, quando ele fez 17 anos. Aí ele deu um fora no 2, foi vender os números do jogo do bicho, apaixonou-se pelo 7 e

sábado, 22 de abril de 2017

A ARARA VERMELHA





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A arara vermelha (conto)

Contrabandista não é bandido, é? Nunca roubei, nunca matei. Tenho ficha limpa, pode examinar. Se eu pudesse, tinha feito uma faculdade, ia ser advogado, andava de terno e gravata, como o senhor. Trabalho com quinquilharia paraguaia, mas não sou traficante. Relógio Jean Vernier, Tissot, Girard Perregaux. Sim, sei dizer o nome direitinho, aprendi com uma dona chique. Trabalho perto dos hotéis de luxo, lá na Paulista, e no Teatro Municipal. Tem gente endinheirada que compra de dúzia. Dão de presente? Revendem? Por encomenda, trago máquina fotográfica, computador de bolso, GPS, mas tem que fazer um adivance, me falta capital pra bancar produto muito caro.
Hoje se negocia qualquer coisa, cocaína, crack, rim, fígado. Já me ofereceram uma boa grana pra ser mula, pra carregar pasta de coca, pedra, papelote. Não topei. Tenho os meus limites, lido com muamba, e só. Dinheiro é bom, faz a gente feliz, mas não compra tudo, minha mãe já dizia.
Fui de ônibus, como sempre, a Foz do Iguaçu. Atravessei a fronteira a pé,

domingo, 16 de abril de 2017

JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA DE SÃO MATEUS







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JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA DE SÃO MATEUS

O relógio marcava cinco horas da manhã do Sábado de Aleluia quando o soldado Galdino avistou a majestosa figura sentada num banquinho da praça. De paletó e gravata, óculos escuros, imponente pasta de couro nas pernas, Judas tão elegante jamais fora visto em São Mateus. Galdino bateu uma foto e abriu a pasta. Pensava no tradicional testamento. Não havia testamento. Mas havia cópias da esperada e temida Lista do Juca.
Dali a instantes a imaculada São Mateus fervia de curiosidade e as redes sociais saboreavam as novidades. A Lista do Juca... Bom, preciso justificar o adjetivo imaculada e contextualizar a assustadora lista.
São Mateus, com cerca de três mil habitantes, situa-se no nordeste brasileiro e é conhecida como a mais honesta e autêntica cidade do país. Não que viva com zero de violência. Nada disso. Acontecem homicídios, assaltos, pistolagens. Mas tudo conforme as devidas regras criminosas. O que o matoeense não aceita é pregar uma coisa e fazer outra, o fingimento, o falso moralismo, por assim dizer. A população sente-se orgulhosa com o slogan “São Mateus dez, onde o falso moralismo é zero”. A cidade é tão ciosa dessa pureza

sexta-feira, 31 de março de 2017

A LIÇÃO DE JL






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A LIÇÃO DE JL

(Duas mil e cem palavras, doze minutos de leitura. Vai? Então vamos. Se não for, a amizade é a mesma),

Ainda bem que eram aparas de grama. Algo mais sólido teria machucado o pé e adeus o joguinho de futsal.
Idiota. Se enxergue, menino. Nunca viu mulher não, moleque?
Desculpe, moça. É que...
O humilhado travou a explicação, já que a deseducada não o ouvia: mal calçou a arrogância e já saiu pisando a urbanidade, como se o gesto de encantamento do moleque fosse fugitivo de uma mente maligna.
Que anta é uma, avaliava o moleque, despejando as sobras do jardim numa carroça de entulhos e dirigindo-se para a Sede dos Campeões. Idiota! Idiota se a sacola tivesse caído nos pés dela. Mas seria compreensível, pois dava para ela imaginar que eu não tinha tido a intenção. Foi meu olhar bater nela e a sacola cair junto com o queixo. Fazer o quê? Mas fui idiota por ter pedido desculpa sem necessidade. Mulher ignorante da bexiga. Quem será?