sábado, 28 de janeiro de 2017

A MÃE, O MÉDICO E O MELADINHO




Resultado de imagem para imagem de médico
imagem Google


A MÃE, O MÉDICO E O MELADINHO

Ainda em pé, a mãe apontou o queixo na direção do filho:
- Vive balançando as coisas pra tudo que é mulher, doutor. Acho que está com um parafuso se soltando. Sou a mãe dele. Preciso que o doutor examine ele e...
O médico baixou a vista, mexeu no computador e falou ao telefone:
- A ficha do paciente não está no computador. Assim fica difícil, moça. Então devia ter me avisado. Pois imprima e venha deixar.
- Como ia dizendo, doutor...
- Só um minuto, minha senhora. Teve um problema no envio das informações de seu filho. Mas a atendente já está vindo deixar a ficha impressa.
        Passados alguns minutos...
        - Como ia dizendo...
     “Só mais um minutinho”, interrompeu o doutor, passando o dedão na tela do celular.
      - Por que o doutor não me escuta enquanto a atendente não chega? Posso me sentar? E por que o doutor não olha pra mim? Vim consultar meu filho, não aturar mau humor de seu ninguém. Tô pagando, viu?
        Nisso a atendente chega, pede tímida desculpa ao médico e lhe dá uma folha de papel. O médico ignora a reprimenda da mulher e faz preguiçosa leitura. Ganhava tempo a fim de amansar o impulso de expulsar a atrevida mãe. Era otorrino, não tinha nada a dizer sobre o desapertado parafuso do filho dela. Parafuso desapertado que, pelo visto, vinha de algum parafuso folgado da mãe tagarela. Mas relembrou o corretivo da mulher e deu-lhe razão: havia sido arrogante. Vivia enfezado desde que a esposa o largara. Ouviria a mulher e depois veria o que fazer:
       “Desculpe, senhora Leda. Estava distraído. Que é que o Bião tem, afora o parafuso folgado”, perguntou, mostrando-se brincalhão.
          - Ele é tarado, doutor.
          - Quê? Nove anos e tarado?
        - Pois é, doutor. Esse menino vive balançando as coisas pra tudo que é mulher. O doutor

sábado, 14 de janeiro de 2017

LINDÍSSIMA E CRUELÍSSIMA





Resultado de imagem para imagens de lindíssima
Imagem Google


LINDÍSSIMA E CRUELÍSSIMA

Antes de nominar essa superlativa criatura, permitam-me quatro dedinhos de prosa. Quero prosear sobre a radicalização de certos críticos/resenhistas da literatura ficcional brasileira. Essa gente administra pavorosa fogueira literária e gerencia arrepiador pau de arara das letras. Donos da verdade, ordenam:
“O texto precisa ser enxuto, conciso, moderno. Fuja dos arcaísmos. Corte palavras que estão ali só para engordar o texto. Adjetivos, gerúndios e advérbios, por exemplo”.
Para essa patota, apenas substantivos e verbos têm vez. Só porque pouca usadas, chamam de arcaicas certas expressões. De mais a mais, porquanto, conquanto e quiçá são habituais frequentadores de seus paus de arara. Adjetivos, gerúndios e advérbios vivem de lombo esfolado de tanto espernearem na fogueira deles.
Trata-se de opinião, concordo, mas de forte influência para certos escrevinhadores.  Resultado: texto estéril, apenas descrições da aridez cotidiana.
Há poucos dias, num jornal do Sudeste, impiedoso resenhista mostrou-se cozinheiro de adjetivos ao comentar este fragmento de um conterrâneo: “... A mulher, além de bonita, era linda e charmosa. Com seus trinta e quatro anos, suas bochechinhas rosadas, seus olhos azuis, suas curvas perfeitas...” O resenhista tachou o excerto de gordurento, vejam só, em razão da série “bonita, linda, charmosa”. Desperdício. Bastava uma palavrinha dessas, escreveu o moço.
Na frigideira do mestre-cuca não havia um pingo de gordura nos “seus trinta, suas bochechinhas, seus olhos, suas curvas”. Questão de estilo, dirá alguém, mas, porra, nem sequer um comentário a respeito do excesso dos possessivos pronominhos? Ele podia ter temperado o fragmento assim: “Além de bonita, era linda e charmosa. Trinta e quatro anos, bochechinhas rosadas, olhos azuis, curvas perfeitas...”
Não há gordura nos adjetivos, porquanto bonita, linda e charmosa expressarem conceitos distintos, conquanto equivalentes na fala do dia a dia. Do ponto de vista masculino, bonita é a mulher de linhas faciais harmoniosas e pronto. A mulher linda vai além. Ela carrega boniteza no rosto, transporta simetria no corpo e caminha com sutil rebolado, haja a vista o excesso de beleza espalhada por todos os cantos. Já charmosa é a mulher simples, sedutora, graciosa, cativante. Atitude em detrimento do físico. Daí que a mulher pode ser bonita ou linda, mas pedante, de charme zero - a chamada cu doce. Ou nem tão bonita, contudo carismática, encantadora, de charme dez, também conhecida por dama.
Merece pena máxima o resenhista por ter jogado na fogueira os inocentes adjetivos, já que, certamente, a personagem de seu conterrâneo preenchia os atributos de bonita, linda e charmosa. E, em nome de pretensa concisão, autor algum deve prejudicar a precisão. Dez para a tecnicidade do autor.
Ah, ia me esquecendo de um detalhe: a mulher lindíssima. Lindíssima é a mulher linda e charmosa.  Ela representa o pico da imaginação masculina. E, por vezes, o vértice da feminina.

FIQUEM AGORA COM A LINDÍSSIMA E CRUELÍSSIMA
(E que certos resenhistas não me leiam, porquanto abunda aqui tudo o que para eles é excesso)
Oi, meu nome é Kélvia, mas

domingo, 8 de janeiro de 2017

O VENDEDOR DE PEIXE


                               Bar do Assis (Litrinho bar)


O VENDEDOR DE PEIXE

“Não atino por que a implicância adora brincar com a gente. Aparece do nada e tome gozação”. Iniciei com essas palavras, há cerca de quatro anos, um texto aqui publicado, cujo título, IMPLICÂNCIA (leia), resume tudo. Naquela prosa eu implicava com capacetes. Engraçado é que a implicância aparece do nada, mas vai embora também do nada. Coisa de quem anda com parafusos tortos na cachola.
Bom, o tempo foi passando, igualmente a implicância “capacetuda”, mas outras implicâncias surgiram. O negócio estava ficando tão grave que tomei uma decisão: quer saber, não vou implicar mais com nada. Chega. Impliquei com isso e não é que colou? Colou, vírgula. Quatro meses atrás ela reapareceu com força. Minha implicância atual é com certo vendedor de peixe. Peço-lhe um parágrafo a fim de contextualizá-la.
Seguinte. Moro a cerca de cinquenta metros de uma feira livre. Ela cai nas quartas-feiras e chama-se Feira do Carrasco. Pois bem, de um tempo pra cá apareceu um vendedor anunciando peixe num carro de som. O carro fica parado na boca da feira e tome gravação:
“Peixe em posta, dez reais o quilo. Dez reais o quilo, dez reais o quilo. Posta de atum branco. Dez reais o quilo, um quilo por dez reais”. 
O dia todinho com essa ladainha. É dose, gente.
O som não chega alto a minha casa, mas o sobejo do pregão me tira do sério. Implico mesmo. Por causa da ininterrupta cantilena deixei até de ir ao bar de Assis. O bar de Assis fica