sábado, 14 de janeiro de 2017

LINDÍSSIMA E CRUELÍSSIMA





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LINDÍSSIMA E CRUELÍSSIMA

Antes de nominar essa superlativa criatura, permitam-me quatro dedinhos de prosa. Quero prosear sobre a radicalização de certos críticos/resenhistas da literatura ficcional brasileira. Essa gente administra pavorosa fogueira literária e gerencia arrepiador pau de arara das letras. Donos da verdade, ordenam:
“O texto precisa ser enxuto, conciso, moderno. Fuja dos arcaísmos. Corte palavras que estão ali só para engordar o texto. Adjetivos, gerúndios e advérbios, por exemplo”.
Para essa patota, apenas substantivos e verbos têm vez. Só porque pouca usadas, chamam de arcaicas certas expressões. De mais a mais, porquanto, conquanto e quiçá são habituais frequentadores de seus paus de arara. Adjetivos, gerúndios e advérbios vivem de lombo esfolado de tanto espernearem na fogueira deles.
Trata-se de opinião, concordo, mas de forte influência para certos escrevinhadores.  Resultado: texto estéril, apenas descrições da aridez cotidiana.
Há poucos dias, num jornal do Sudeste, impiedoso resenhista mostrou-se cozinheiro de adjetivos ao comentar este fragmento de um conterrâneo: “... A mulher, além de bonita, era linda e charmosa. Com seus trinta e quatro anos, suas bochechinhas rosadas, seus olhos azuis, suas curvas perfeitas...” O resenhista tachou o excerto de gordurento, vejam só, em razão da série “bonita, linda, charmosa”. Desperdício. Bastava uma palavrinha dessas, escreveu o moço.
Na frigideira do mestre-cuca não havia um pingo de gordura nos “seus trinta, suas bochechinhas, seus olhos, suas curvas”. Questão de estilo, dirá alguém, mas, porra, nem sequer um comentário a respeito do excesso dos possessivos pronominhos? Ele podia ter temperado o fragmento assim: “Além de bonita, era linda e charmosa. Trinta e quatro anos, bochechinhas rosadas, olhos azuis, curvas perfeitas...”
Não há gordura nos adjetivos, porquanto bonita, linda e charmosa expressarem conceitos distintos, conquanto equivalentes na fala do dia a dia. Do ponto de vista masculino, bonita é a mulher de linhas faciais harmoniosas e pronto. A mulher linda vai além. Ela carrega boniteza no rosto, transporta simetria no corpo e caminha com sutil rebolado, haja a vista o excesso de beleza espalhada por todos os cantos. Já charmosa é a mulher simples, sedutora, graciosa, cativante. Atitude em detrimento do físico. Daí que a mulher pode ser bonita ou linda, mas pedante, de charme zero - a chamada cu doce. Ou nem tão bonita, contudo carismática, encantadora, de charme dez, também conhecida por dama.
Merece pena máxima o resenhista por ter jogado na fogueira os inocentes adjetivos, já que, certamente, a personagem de seu conterrâneo preenchia os atributos de bonita, linda e charmosa. E, em nome de pretensa concisão, autor algum deve prejudicar a precisão. Dez para a tecnicidade do autor.
Ah, ia me esquecendo de um detalhe: a mulher lindíssima. Lindíssima é a mulher linda e charmosa.  Ela representa o pico da imaginação masculina. E, por vezes, o vértice da feminina.

FIQUEM AGORA COM A LINDÍSSIMA E CRUELÍSSIMA
(E que certos resenhistas não me leiam, porquanto abunda aqui tudo o que para eles é excesso)
Oi, meu nome é Kélvia, mas
os amigos me tratam por Ké. Adoro os dois nomes. Contudo, o que amo, mas amo mesmo, é o lindíssima. Fico toda ancha ao ouvir o “Oi, lindíssima”. Tenho trinta e quatro anos, bochechinhas rosadas, olhos azuis, curvas perfeitas. Sou médica com especialização em gastroenterologia. Fiquei viúva há cinco anos, quando um assaltante assassinou o meu marido na minha frente. Tirou-me o marido e a saúde mental. Vivo me equilibrando entre coragem e medo. Em determinados momentos, sou fria e cortante tal qual uma pedra de gelo. Noutros, sou cortada pedra de gelo derretendo pavor.
Agora, por exemplo, cinco horas da tarde, o sobrosso começa a me aquecer. Estou parada num vermelho de trânsito, uma moto ao lado, os passageiros me estudando, pois me esqueci de levantar os vidros do carro.
Levanto os vidros, o verde surge, arranco, a moto vem atrás. Vermelho seguinte, e seguinte, e seguinte, e a motocicleta atrás, adverte-me o retrovisor. Diminuo a velocidade, a motoca também. Vou dar um quinau neles. Vou voltar para a clínica, penso. Penso, ajo. Estou fazendo um retorno proibido e voltando.
A moto sumiu. Ufa!
Pego outro caminho. Segundo vermelho e a infeliz aparece atrás de mim. Não dera o quinau. Vermelho seguinte, e seguinte, e seguinte, e a maldita atrás. Não restava dúvida: vão me assaltar. As pernas tremem, o sobrosso agora é pânico, o corpo é gelo, é suor frio. Paro num posto de combustível. Só Deus sabe como estou descendo do carro.  Exponho minha aflição ao bombeiro, que me aconselha ficar um tempinho na conveniência do posto.


“A bonitona cabritou, Paulão. Para nessa rua lateral. Vou lá no posto tirar o serviço dela. Esse Honda é o ideal, boy. Fica aqui”, disse o carona da moto, Daniel, trocando a camisa - a do Flamengo, a que estava usando por cima, foi pra baixo, e a que estava usando por baixo, uma branquinha, foi pra cima.
Daniel foi direto para a lojinha. Compraria uma barra de cereais e faria sintomática cerinha com a intenção de localizar a bonitona. Não precisou da cera, já que Kélvia conversava com a gerente da loja. Passados alguns minutos:
- Desculpe interromper, moça, mas não pude deixar de ouvir o seu aperreio. Meu nome é Pedro, sou policial civil. A senhora pode me dar detalhes da perseguição desses vagabundos?
Daniel apresentava-se exibindo fajuta identidade policial.
- Ah, meu pai. Graças a Deus. É que uma moto, moço...
Foi assim que Daniel ficou ciente do que fora protagonista e Kélvia tomou ciência de que Pedro e um parceiro patrulhavam aquela área. Estavam no encalço de dois meliantes que, de moto, eram especialistas em tomar carro de mulher. E foi também assim que Kélvia ouviu o galanteio:
- Mas, nesse caso, e com o devido respeito, os ocupantes da moto podiam estar apenas admirando a sua beleza. A senhora é lindíssima, moça.
Bom, discutida a questão segurança, amizade se instalando, ficou combinado que o policial deixaria Kélvia no apartamento dela. Iria dirigindo o Honda Fit, posto Kélvia ter discordado da sugestão de ela dirigir e, a fim de surpreender os assaltantes, Pedro ir escondido no banco traseiro.
“Está bem. Vou pedir que meu parceiro nos siga”, concordou Daniel, afastando-se um pouquinho. Enquanto Kélvia se despedia da gerente, Daniel vangloriava-se:
- Escuta, boy. Foi mais fácil do que eu pensava. Depois te falo. Agora sou polícia, Paulão. Vou deixar a gostosona no apartamento dela, no bairro das Sétimas. Fica ligado. Vou obrigar ela descer ali pertinho do estádio. A gente se encontra no Dudu. Valeu, boy.
Kélvia colocava o cinto, puxava conversa:
- Cinco e meia. O trânsito deve estar horrível. O senhor é daqui de Natal mesmo? Conhece as Sétimas? Pode ir pelo prolongamento. Ah, o senhor é quem sabe.
“Conheço o bairro, senhora Kélvia. Já morei lá. Vamos pelo prolongamento”, concordou o simulacro de policial, tirando horroroso revólver da virilha, pondo-o embaixo da perna esquerda e olhando descaradamente para as coxas da passageira. Por querer se mostrar ou por burrice, certo é que Daniel cometia escancarado erro, pois policiais usam armas modernas e não um enferrujadão daqueles. Assim também pensou Kélvia, dando início à caçada de minúcias.
Caçar minúcias é essencial na vida de todo mundo. Devemos praticar esse esporte a fim de capturarmos sofismas e fugirmos de alguns sofrimentos. Vejamos o que Kélvia capturou:
Nossa, que arma mais feia! Parece o revólver do assaltante que matou meu marido. Será mesmo policial? Por que chegou à lojinha tão logo cheguei? Gesticulava e ria ironicamente quando avisou ao parceiro que ia me deixar em casa. Parecia brincar. Agora olha paras as minhas coxas parecendo um tarado. Estou até com medo de que não bata o carro.
Kélvia raciocinava. A pedra de gelo que derretia temor começava a ficar pontiaguda e cortante. Afiada lâmina erótica cortava-lhe o medo. Puxou conversa:
- Não está vendo ninguém nos seguindo não, né? Com o senhor dirigindo, eles devem...
- Não estão doidos não, senhora Kélvia. Escute, tenho trinta e dois anos, mais ou menos a idade da senhora. Por que não me chama de você?
Acontece que ao se virar para responder, Daniel entregava a Kélvia suculenta caça de minúcias. Um botão da camisa havia se desabotoado, fazendo com que ficasse exposta parte da camisa de baixo: o denunciante escudinho do Flamengo.
Camisa do Flamengo. A camisa do carona da moto que me seguia. Ah, bandido. O miserável quer por quer o meu carro. Então, contraditoriamente feliz, excitação se instalando, Kélvia ri e faz o jogo dela:
- Só o chamo de você, amável protetor, se deixar de me chamar de senhora Kélvia.
- Já deixei, amável protegida Kélvia.
O assanhado falou e logo botou a mão na coxa esquerda da protegida.
- Cuidado para não bater o carro e matar uma pobre viúva.
- Bato, não. Taí um homem que não bate. Sabe, Kélvia, você é muito gostosa. Você é viúva, é? Há quanto tempo? Tem filhos?
Neste ponto, ao ouvir a palavra gostosa, Kélvia atinge o estágio da completa frieza mental e dá início ao processo da plenitude orgástica, da sensação prazerosa do sexo. Processo que só termina quando... Veremos já.
- Ah, Pedro. Você me deixa encabulada. Enviuvei faz cinco anos. E não tenho filhos, infelizmente. Moro sozinha, Pedro.
- E é!?
O e é saiu com ênfase fora do comum. Até porque a voz de Kélvia era de extrema luxúria. De mais a mais, Pedro via no “moro sozinha” um convite, um abre caminho libidinoso. Daí não ter titubeado:
- Estou esperando o convite para tomar um viozinho no seu apartamento.
- Sei não, Pedro. Nunca levei homem ao meu apartamento. Sou meio careta, entende? Mas não sou ingrata. Você está me prestando um grande favor. Agora, seria bom eu chegar dirigindo. Você vai no banco traseiro, encolhidinho, pois preciso me apresentar na cancela do condomínio, compreendeu?
Mal entraram na cobertura e as línguas puseram-se a se cobrir. Fingindo-se apertado, Pedro, ou melhor, Daniel, pediu para ir ao banheiro.
Kélvia o levou e voltou rindo. Sabia que ele ia apenas encontrar uma forma de livrar-se da camisa do Flamengo. E encontrou: fez um embrulhinho e a escondeu no bolso traseiro da calça. Voltou faceiro e pronto para os apertos.
Mas não passaram de juvenis apertos. A metódica Kélvia tinha planos.
- Não, Pedro. Desculpe. Aqui não rola não. Pode até rolar, mas...
- Mas o quê?
- Tenho vergonha, Pedro. Desculpe. Além disso, tenho uma fantasia. Tenho uma fantasia, Pedro. Nunca falei isso para homem nenhum. Mas com você, acho, você... Vou falar. Tenho a fantasia de transar num carro, num local deserto, onde o carro possa se balançar e ninguém xeretar. Se você... Depois podemos até ir a outro lugar, mas... Pronto, falei
- Feito. Vamos. Conheço uns três locais assim, Kélvia.
- Seis horas. Não é muito cedo não?
- Não. A gente só vai chegar lá pra sete horas. Lá é deserto. Não tem perigo.
- Então vou me arrumar.
Kélvia saiu cantarolando, Pedro ficou sonhando. A bela voltou de vestido preto, curvas no cio. Pedro não se segurou:
- Nossa! Que gata é essa! Você está pronta para matar, Kelvinha.
- Obrigada, querido. É apenas um vestido preto numa pobre viúva. Vamos?
Foram.
Mas apenas a Kélvia voltou.
Passados dois dias, ela lia no jornal local:
A FACA DE SERRA ATACA NOVAMENTE. O CORPO DE DANIEL...

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O novamente da manchete, leitor, é porque aquele era o sétimo corpo encontrado em cinco anos com uma faca de serra enfiada no coração.
A série teve início depois que um assaltante matou o marido da Kélvia, o Tavares, cinco anos atrás. O casal ia entrar no automóvel quando anunciaram o assalto. Já com os pertences do casal, um dos bandidos (eram dois) descontrolou-se: vou comer essa gostosa, falou, agarrando-se com a Kélvia. O Tavares voou para cima do tarado, o que fez o outro bandido a atirar nele, Tavares. Kélvia correu ouvindo os gritos de volta aqui, gostosa, vou te pegar, gostosa.
A partir daquele episódio, Kélvia passou a amaldiçoar assaltantes e a sentir-se mal com a simples audição do adjetivo gostosa. Transtorno atípico, porque, quando protagonista, a exemplo do caso ora narrado, ela dá início a um processo de extrema excitação, só o encerrando ao transar com o bandido. Não transa, na verdade. Na verdade, o que ela quer é ver o sangue do bandido a mapear o V da vingança. É o sangue desenhando e ela se contorcendo de prazer. Intensos e infinitos orgasmos chegam a lhe mostrar o marido batendo palmas.
O caminho macabro mantém-se inalterado. Kélvia não seleciona as vítimas. São as circunstâncias, quiçá boladas pelo coisa-ruim, que as fazem entrar na vida dela. Kélvia direciona o coito para um lugar deserto, besunta a princesa com incolor substância, veste-se com provocante vestido preto, põe enferrujada faca de serra na bolsa e sai beijando o infeliz. Em contato com a língua, a incolor substância (fórmula criada por ela) faz o língua santa ficar grogue em segundos. O trabalho da Kélvia, então, é enfiar a faca de serra no coração do língua santa e empurrá-lo do carro.
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Kélvia pôs o jornal de lado e comentou em voz alta: Mandamos mais um para o inferno, Tavares. O sétimo. Engraçado, amor, como esse pessoal não tem criatividade. Apresento-me com aquele vestido que você adorava, o preto justinho, e logo dizem que estou pronta para matar. Será que eles nunca estão prontos para morrer?
Agora segure-se na sela. Acabo de saber que o nosso sete se chamava Daniel. Esse Daniel foi o taradão do assalto, o que me chamou de gostosa. Como há tempos lhe informei, o peste fugiu da cadeia no dia seguinte ao da prisão. Pois não é, Tavares, que o peste me chamou novamente de gostosa? Dá para acreditar nisso?  Destino, não? Sabe, amor, os senhores do destino devem viver de porre. Por isso, nem sabem que botão estão apertando. Taí uma profissão boa, concorda comigo? Já que nunca erram, nunca serão demitidos. Tem como errar o destino de alguém? Não tem, Tavares. Qualquer botão tem serventia, não é, amor?
Não reconheci o tarado, juro. Mas a voz dele me parecia familiar. Cinco anos, não é, amor? De mais a mais, ele dizia chamar-se Pedro e não Daniel. Matei-o como Pedro, porquanto o Satanás ter usado esse nome na carta de recomendação a mim, entregue lá no posto de combustível.

Janeiro/17, sem carta de recomendação alguma, mas com forte abraço,
TC