domingo, 8 de janeiro de 2017

O VENDEDOR DE PEIXE


                               Bar do Assis (Litrinho bar)


O VENDEDOR DE PEIXE

“Não atino por que a implicância adora brincar com a gente. Aparece do nada e tome gozação”. Iniciei com essas palavras, há cerca de quatro anos, um texto aqui publicado, cujo título, IMPLICÂNCIA (leia), resume tudo. Naquela prosa eu implicava com capacetes. Engraçado é que a implicância aparece do nada, mas vai embora também do nada. Coisa de quem anda com parafusos tortos na cachola.
Bom, o tempo foi passando, igualmente a implicância “capacetuda”, mas outras implicâncias surgiram. O negócio estava ficando tão grave que tomei uma decisão: quer saber, não vou implicar mais com nada. Chega. Impliquei com isso e não é que colou? Colou, vírgula. Quatro meses atrás ela reapareceu com força. Minha implicância atual é com certo vendedor de peixe. Peço-lhe um parágrafo a fim de contextualizá-la.
Seguinte. Moro a cerca de cinquenta metros de uma feira livre. Ela cai nas quartas-feiras e chama-se Feira do Carrasco. Pois bem, de um tempo pra cá apareceu um vendedor anunciando peixe num carro de som. O carro fica parado na boca da feira e tome gravação:
“Peixe em posta, dez reais o quilo. Dez reais o quilo, dez reais o quilo. Posta de atum branco. Dez reais o quilo, um quilo por dez reais”. 
O dia todinho com essa ladainha. É dose, gente.
O som não chega alto a minha casa, mas o sobejo do pregão me tira do sério. Implico mesmo. Por causa da ininterrupta cantilena deixei até de ir ao bar de Assis. O bar de Assis fica
na esquina oposta onde o peixeiro faz ponto. É uma glória ir ao bar, tomar uma gela, fazer uma fezinha no jogo do bicho, observar o vai e vem de feirantes e fregueses e ouvir as lorotas dos pré-bêbados. Ao menos para quem escreve e anda com parafusos tortos na cachola. Entenda, leitor, não tenho raiva do peixeiro. Sei que o moço está literalmente vendendo seu peixe, mas...
Ah, você já deve ter ouvido o dito popular “Vender meu peixe, está vendendo o peixe dele” e expressões semelhantes. Sabe a origem desse ditado? Não? Pois o bicho nasceu aqui, na Feira do Carrasco. Deu-se assim, ó. Preste atenção, pois nem o Google conhece a história. Vamos aos fatos.
O local era cheio de vegetação densa, ramos duros, entrelaçados. A denominação desses arbustos é Carrasco. Daí brotou o nome da comunidade e o da feira. Feira criada em 1708, informe-se. Chamava-se Severo de D. Chaguinha o único peixeiro da feira. Vendia somente cangati, peixe de água doce. Certa quarta-feira, Severo estava arrumando os cangatis na banquinha quando chega Severino. Severino, Severino do Carrasco, assim o chamavam, tinha uma rixa com Severo de D. Chaguinha e fora nomeado verdugo da província do Rio Grande do Norte. Cumpria a primeira missão:  levar Severo para o cadafalso. Seu desafeto seria executado no dia seguinte. Acusação: ter violentado a filha de cinco anos. Severo negava tudo e punha o perjúrio na conta de uma vizinha comadre. O infeliz alegava inocência e a própria esposa o defendia. Mas a comadre vizinha e a Justiça diziam que a esposa queria tão somente livrar a cara do marido. Certo é que Severino do Carrasco chega e ordena:
- Guarde seus peixes. O juiz mandou eu levar você. Será executado amanhã.
- Tá bem, Severino. Vai enforcar um inocente, viu? A gente se conhece desde menino, você sabe que não sou capaz de fazer aquilo. Ainda mais com a minha filha. Tanto é que a menina nunca teve um machucado. Vou repetir, Severino, a megera de minha comadre inventou essa história porque queria chamegar comigo e eu não quis. Mas eu vou com você. Deixe eu vender pelo menos um quilo de peixe. Sabe, Severino, em casa só ficou água no pote. Tenho que arrumar o dinheiro para comprar pelo menos farinha e açúcar que é para minha mulher alimentar as crianças.
- Então trate de vender, homem. Cuide! Não tenho tempo a perder.
Severo começou a gritar olha o peixe e baixou de quatro patacas para três patacas o quilo. Baixou o preço e sempre dava o jeitinho de dizer que estava baixando porque precisava deixar dinheiro com a mulher, já que seria levado por Severino para ser enforcado no dia seguinte. É claro que ninguém comprava, pois iria ficar com remorsos. Na verdade, Severo não estava querendo vender peixe e sim comprar compaixão. Principalmente do algoz Severino do Carrasco.
No quarto freguês, Severino entendeu a astúcia comunicativa de Severo:
- Assim não dá, Severo. O povo fica com pena de você e não compra o peixe. Deixe de lenga-lenga. Vamos acabar logo com isso, Severo.
- Vamos. Vamos. Entendo você, Severino. Seu trabalho é enforcar pessoas. O meu é vender peixe. Apesar de nossa desavença, não tenho raiva de você por causa disso. Então vamos acabar logo com isso. Fique aqui no meu lugar. Quando você fizer a primeira venda a gente vai embora. A gente passa lá em casa, dou o dinheiro a minha mulher, eu me despeço dos meus filhos e você me leva para a forca. Não, não, você não sabe vender peixe, Severino. Acho melhor...
Nesse ponto, Severo respirou fundo e arriscou. Sabia que viver é correr risco. De mais a mais, vitória sem risco não é vitória. É empate das circunstâncias. Daí a apelação:
Acho melhor, Severino, você comprar um quilo de meu peixe e pronto. Tá bom assim?
Severino respondeu com o sim de cabeça, botou a mão no bolso e deu uma fungadinha. Severo observava o verdugo pelo canto do olho. Severino colocou cinco patacas embaixo dum cangati e afastou-se. Fungava e chorava. Severo ficou chorando, fungando e alardeando: olha o cangati. Quatro patacas o quilo.
Foi assim, gente. Quando nos comunicamos com outras pessoas, estamos a falar de negociação. Convencemos ao vender bem as nossas ideias e somos convencidos quando o oponente negocia melhor. Argumentar, expor seu ponto de vista, persuadir, convencer. Foi isso o que fez Severo. E foi assim, na venda (e na não venda) de cangati - e na Feira do Carrasco - que a locução “Vender o seu peixe” fisgou a expressividade da língua portuguesa.
Desse episódio também surgiu o termo carrasco como sinônimo de verdugo. Ocorre que Severino do Carrasco não só não executou Severo como também convenceu a Justiça da inocência do peixeiro. Acontece que o resto do país ignorava a não execução e noticiou que Severo de D. Chaguinha havia sido enforcado por um tal de Carrasco. Daí a sinonímia foi um pulo só.
Mas dizia eu que havia deixado de frequentar o bar de Assis em razão de implicar com a gravação do peixeiro. Ontem, porém, tive a bela surpresa: quase meio dia e nada dos “dez reais o quilo”. Não contei conversa e fui ao bar. Pedi uma piriguete (skol pequena) e comecei a beber. Segunda golada, gente, e “Peixe em posta, dez reais o quilo. Dez reais o quilo, dez reais o quilo. Posta de atum branco. Dez reais o quilo, um quilo por dez reais”.
Porra! Soltei o desabafo, paguei a piriguete e joguei o troco (dois reais) no milhar com centena da placa do carro do peixeiro. Fiquei tomando o resto da cerveja em pé, puto da vida e pronto para ir embora. Nisso, chega um cara de moto, acomoda-se na mesa vizinha, pede uma cerveja e atende o celular. Informava que estava num posto de gasolina, na cidade de Macaíba. Rindo com a mentira e a voz estridente do motoqueiro, resolvi me sentar. Diverti-me à beça ouvindo o falastrão. Tanto que quando percebi já estava na quinta piriguete. Distraído, nem notei a aproximação de Valda, a cambista:
- Pense num homem de sorte. Deu 7232, o milhar que você jogou. Ganhou sete mil e setecentos reais.
- Não brinca, Val.
“Sério. Vou ligar para a banca mandar o dinheiro”, informou ela, afastando-se.
“Vem cá, Val”, pedi, bolando uma ideia.
- Não diz a ninguém, tá? Hoje em dia... Escute, separe quatrocentos reais pra você e faça três pacotes. Dois de três mil e quinhentos reais e um de trezentos. Faz um sinal que eu vou pegar a grana.
E assim ela fez. Uma hora depois, mufunfa no bolso, atravessei a rua, dirigi-me para o peixeiro e fiz a idiota pergunta:
- Quanto é mesmo um quilo do peixe?
- Dez reais, patrão. Atum branco. Primeira, patrão.
Passei a vista no caixão do peixe. De trinta para trinta e cinco quilos, avaliei, fazendo-lhe uma proposta:
- Vamos fazer um rolo? Quer quanto por esse resto?
Ele pensou, certamente calculando quantos quilos restavam, e exagerou na pedida:
- Quatrocentos reais, patrão.
Negociamos pra lá e pra cá e fechamos por trezentos reais:
- Só tem um detalhe, amigo. Estou bebendo ali no bar de Assis. Você faz uns pacotes de mais ou menos um quilo e vai deixar lá?
Tudo combinado, sugeri que desligasse o som. Sugeri por sugerir, mas confesso que já não sentia nadica de nada de implicância. Do nada ela tinha ido embora. Do nada ou das notas de reais, pensei, rindo. Voltei para o bar, pedi a Assis duas grades vazias de cerveja, um papelão e escrevi:
PODE LEVAR. UM PACOTE POR PESSOA.
Arrumei os pacotes de peixe sobre as grades, fixei o aviso e fiquei observando a distância. Em dez minutos os peixes voaram. Foi mesmo que manteiga em venta de gato. Exceto um menino, todos desrespeitaram o aviso e levaram dois, três pacotes. O vizinho falastrão de voz estridente pegou dois e ainda riu pra mim.  Mas, decepção, mesmo, tive com uma moça dona de um mercadinho nas vizinhanças. A lindeza socou um pacote nas calçolas e saiu, fogosa e faceira, olhar arrebitado, com mais dois pacotes protegidos pelos seios. Que decepção, gente. Povinho, viu? Falam dos políticos corruptos, mas vivem vendendo o peixe da contravenção.
Falar no vizinho falastrão, eu já estava me invocando com ele. A voz do cara era irritante. A implicância com o peixeiro estava se mudando para o motoqueiro. Na graça de antes eu antevia desgraça. Desgraça porque eu tinha certeza de que o bicho ia me assaltar. Ele ouviu a Val dizer que eu tinha ganho a dinheirama e esperava apenas a minha saída para ir atrás, encostar um ferro em mim e anunciar o assalto. Fugitivo de Alcaçuz, carrega duas armas na cintura. Implicância a mil, fui ao banheiro, liguei para a polícia. Dei a localização, detalhei tudo, tintim por tintim. “Tem cocaína na moto e está usando uma pistola privativa de vocês”, concluí.
Habituado a criar, não havia a menor chance de me enganar, concordam?
E não me enganei. Tudo comprovadíssimo, algemaram o peste e botaram no camburão.
Fui pra casa feliz da vida. Se a mulher implicar porque cheguei chumbado, apresento-lhe a mufunfa. Dinheiro é um santo remédio para implicância, matutei.
Mas, por via das dúvidas, apertei o botão da campainha com os pacotes de dinheiro na mão.
(E aí, vendi bem o meu peixe? Gostou da venda?)

Janeiro baludo de 2017,
TC