sábado, 4 de fevereiro de 2017

NO QUARTO DA VALDIRENE




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NO QUARTO DA VALDIRENE

Mal ele entrou em casa, a mulher o tomou pelas mãos, ansiosa:
– Estava aflita para você chegar.
E sussurrou, apontando dramaticamente para os lados da cozinha:
– Tem um homem no quarto da Valdirene.
Sacudiu a cabeça com irritação:
– Desde o primeiro dia eu achei que essa menina não era boa coisa. Ela nunca me enganou.
Valdirene, a jovem empregada, uma mulata de olhos grandes, não faria feio num palco.
– Como é que você sabe? – perguntou ele, para ganhar tempo. Não partilhava da opinião da mulher: desde o primeiro dia achou que a Valdirene era ótima.
– Sei porque vi. Escutei um ruído qualquer aí fora no corredor, olhei pelo olho mágico, e vi quando ela punha ele para dentro pela porta de serviço.
– Ele quem?
– O homem. Não sei quem é, só sei que é um homem. Deve ser o namorado dela, ou o amante, tanto faz. O certo é que os dois estão trancados lá no quarto faz um tempão.
– Vai ver que já saiu.
– Não saiu não, que eu não sou boba, fiquei de olho. Está lá dentro com ela até agora.
– E o que é que você quer que eu faça?
– Quero que bote ele pra fora, essa é boa.
– Por quê?
Ela botou as mãos na cintura:
– Por quê? Você ainda pergunta por que? Então tem cabimento
a gente deixar que a empregada receba homens no quarto dela? O que é que essa menina está pensando que minha casa é? Um motel? Se você não for lá, eu mesma vou.
– Espera aí, vamos com calma, mulher. Você tem razão, mas deixa a gente raciocinar um pouco. Não podemos é perder a cabeça. Pode ser perigoso. Como é que ele é?
– Não cheguei a ver direito. Só vi que era um homem. Para mim, basta.
– Não posso ir lá no quarto dela sem mais nem menos. Quem sabe é algum parente? Um irmão, talvez…
– Um irmão, talvez… Você tem cada uma! Pior ainda: que é que um irmão tem de ficar fazendo trancado no quarto com a irmã como eles dois estão? Você tem de pôr esse homem pra fora.
– E se estiver armado? Ele pode muito bem estar armado.
– Já que você está com medo…
– Não estou com medo. Só que temos de agir com calma. Vamos ver como a gente sai dessa. Deixa comigo.
Ele respirou fundo e se meteu pela cozinha, ganhou a área de serviço, ficou à escuta. Nada, tudo quieto e às escuras no quarto da Valdirene. Bateu de leve na porta:
– Valdirene.
Via-se pelas frestas da veneziana na própria porta que o quarto continuava no escuro. Ele bateu de novo:
– Valdirene, está me ouvindo? Valdirene!
Escutou alguém se mexendo lá dentro e a voz estremunhada da moça:
– Senhor?
– Tem alguém com você aí dentro, Valdirene?
– Tem não senhor.
– Abra um instante, por favor.
Em pouco ela abria a porta, furtivamente, e o encarava sem piscar. Vestia um baby-doll pequenino e transparente que, sob a luz mortiça vinda da área, deixava quase todo seu corpo à mostra.
– Acenda essa luz, minha filha.
Mais para vê-la melhor do que para olhar o quarto, pois mesmo no escuro podia-se verificar que ali dentro não havia mais ninguém. Luz acesa, ela se protegia discretamente com os braços, enquanto ele dava uma olhada rápida por cima do seu ombro:
– Tudo bem. Desculpe o incômodo. Boa noite.
Voltou para a sala, onde a mulher o aguardava, tensa de expectativa. – E então?
– Não tem ninguém.
– Como não tem ninguém? Pois se eu vi o homem entrando!
– Se viu entrando, não viu saindo. O certo é que não tem ninguém no quarto da Valdirene, além dela própria. Vamos dormir.
– Como é que eu posso ir dormir sabendo que tem um estranho dentro de casa? Você vai voltar lá e olhar direito.
– Eu olhei direito. Se não acredita, vai lá e olha você.
– Quem é o homem nesta casa? Se você não for olhar eu não fico aqui dentro nem mais um minuto. Vou direto à polícia.
Ele ergueu os braços e os deixou cair, com um suspiro resignado:
– Essa mulher, meu Deus. Agora é você que está com medo. Direto à polícia. Como se fosse um crime… Tudo bem, eu vou lá olhar direito.
Voltou a bater na porta da empregada:
– Valdirene.
Desta vez ela respondeu logo:
– Senhor?
– Abra aí um instante, por favor.
– Sim senhor.
Ela abriu e foi logo acendendo a luz. Estimulado pela nova oportunidade de vê-la tão de perto, ele perdeu a cerimônia e entrou no quarto. Sempre de olho nela e ouvido atento à mulher lá na sala. Ali dentro só cabia a cama e o armariozinho com uma cortina, atrás da qual ninguém poderia se esconder. Ainda assim ergueu o pano para se certificar. Satisfeito, voltou-se para a moça que, ao sentir seus olhos tão próximos, abaixara modestamente os dela:
– Desculpe, minha filha. É que minha mulher, você sabe, quando ela cisma uma coisa… Mas pode dormir sossegada. Boa noite.
Na sala, a mulher voltou a questioná-lo:
– Você olhou direito desta vez?
– Não há como olhar errado. Um quarto deste tamaninho! Olhei o que tinha para olhar: a Valdirene e a cama.
– A Valdirene e a cama? O que você quer dizer com isso?
– Não quero dizer coisa nenhuma. É que ali dentro não cabe mais nada além da Valdirene e da cama.
– Não é isso que parece estar insinuando, com essa sua cara.
– Que é que tem minha cara? Você é que insinuou que tinha um homem lá dentro, não fui eu. Não me admiraria nada. Mas acontece que não tem. Só faltou olhar debaixo da cama.
– Não admiraria nada – ela o imitou, com um trejeito. E ordenou, braço estendido:
– Pois então vai olhar debaixo da cama.
– Essa não! – relutou ele: – Já disse que não cabe ninguém…
Mas acabou indo. Pobre da menina, de novo importunada:
– Me desculpe, Valdirene, mas é preciso que você abra aí outra vez.
Ela acendeu a luz, abriu a porta e deu-lhe passagem. Seus olhos o acompanharam impassíveis, quando ele entrou e se agachou para olhar debaixo da cama. De quatro, sentindo-se ridículo naquela postura, ele baixou a cabeça até que a ponta do queixo tocasse o chão, e enfiou-a sob o estrado. Seu nariz esbarrou de cheio em algo branco e macio – era nada menos que o traseiro de um homem.
– Oi – assustou-se, recuando.
– Oi – fez o homem, como um eco, encolhendo-se ainda mais.
Ele se ergueu. Perturbado, limpou a garganta, procurando dar firmeza à voz:
– O senhor tem um minuto pra sair deste quarto.
Um último olhar para Valdirene, como a dizer que sentia muito, mas não podia deixar de cumprir o seu dever, e foi ter com a mulher na sala:
– Tinha sim. Tinha um homem debaixo da cama. Está satisfeita?
– Eu não disse? E o que é que você fez?
– Mandei que ele se pusesse pra fora. É o tempo de se vestir.
– Meu Deus, ele estava nu?
– Que é que você queria? Não sei é como ele pôde caber lá debaixo. Imagino o susto dele. E o da Valdirene, coitadinha.
No dia seguinte, mal amanheceu, ela despedia a Valdirene, coitadinha.

****
O Quarto da Valdirene foi escrito por Fernando Sabino (1923 – 2004) em 1983. Não sabiam? Mas à medida que liam, iam tendo a certeza de que tão prazerosa prosa não podia ter sido escrita por mim, não é verdade? Permitam-me, porém, uma indiscrição. O intuitor Bião, gente – lembram-se dele? –, afirma que o Sabino excluiu detalhes e alterou o desfecho da história. O Bião me confidenciou:
A história, Tião, passou-se no Rio de Janeiro em 1983. A patroa da Valdirene chamava-se Rita e o patrão era conhecido por Guedinho. O patrão, o Guedinho, era amante da empregada, a Valdirene. Viviam apenas os três na casa. A rotina noturna era esta, Tião. Sete horas e já estavam jantando. Apenas a Valdirene e a Rita, pois o Guedinho costumava ficar bebendo e jogando sinuca na rua. Jantavam e, na companhia da vizinha, a Claudete, assistiam às novelas da Globo na TV da sala. Só a Rita e a Claudete, diga-se, pois a Valdirene logo começava a cochilar e ia dormir. Dormir, mas era só chegar aos aposentos para o sono passar e ela passar a esperar o Guedinho. Já a Rita e a Claudete emendavam Guerra dos Sexos, Louco Amor e por aí vai.
É lógico, Tião, que nem toda noite o Guedinho batia ponto no quarto da Valdirene. Mas para não dar bandeira, todas as noites o sono dela passava o cartão na hora da novela. Esperta, a mulata. O Guedinho, por sua vez, assinava ponto nos bares, porém nas noites combinadas abria o portão do beco da casa, embrenhava-se na área de serviço, dava duas batidinhas na porta da Valdirene e conferia o cartão de ponto dela. Terminada a conferência, fazia o caminho de volta aos bares ou fazia barulho na cozinha como a avisar à esposa que estava em casa. A intenção era quebrar o comportamento único. Malandro, o danado.
Ligadona nas novelas, a Rita nem sonha com a caseira pegação. Ocorre que naquela noite, Tião, a patroa acha de ir à cozinha tomar água justo na hora em que o Guedinho está entrando no quarto da Valdirene. A Rita não o reconhece, pois o vê de relance, visualiza apenas os seus quarenta e cinco minutos do segundo tempo. Atônita, ela fofoca com a Claudete, deixa-a sozinha na novela e fica de olho no quarto da Valdirene. Esperava o homem sair para conhecer de quem a serviçal era a espingarda.
- Espingarda, Bião?
- Porra, Tião. Espingarda é a mesma coisa de amante, concubina, compreendeu? Bom, sabe por que a Rita não conheceu o homem? Acontece, Tião, que ela foi ao banheiro fazer xixi. Xixi de dois minutos, é certo, mas o suficiente para o Guedinho sair do quarto e voltar para a rua. Amantes têm sorte, cara.
Mais um detalhe. O Guedinho foi quatro vezes ao quarto da amante e não três, como disse o Sabino. Entenda, Tião, o Guedinho não podia ficar de papo com a Valdirene, já que fora ao quarto apenas para ver se havia um homem com ela. Então ele voltava e dizia displicentemente à consorte que não havia homem lá. Inconformada, a Rita o mandava retornar: “Olhe direitinho, veja a cortina, espie debaixo da cama”. Era só o que Guedinho queria. Voltava e fazia planos com a Valdirene. Procuravam argumentos que justificassem a presença do felizardo varão. Entenda de novo, Tião. A Rita tinha convicção de que havia um homem com a Valdirene. A empregada seria despedida na manhã seguinte, portanto. A solução seria a Rita ir ao quarto a fim de ver que não havia homem lá. Solução momentânea, posto ela estar convencida de que vira um homem entrando no quarto e dele não saindo.
- Momentânea também porque, mesmo testemunhando a ausência, a Rita, já que convencida da presença, iria ficar de olho na Valdirene. Então os encontros entre o casal tenderiam a receber condolências, o convívio Rita/Valdirene iria azedar e mais dia, menos dia a empregada ganharia o olho da rua. Os amantes ficaram numa sinuca de bico, Bião.
- Exatamente, Tião. E só sairiam da sinuca se a Rita ficasse convencidíssima de que se enganara: nenhum homem entrara no quarto. Tarefa impossível, convenhamos. E foi nesse sentido o arremate do Guedinho:
- A verdade é que estamos numa sinuca de bico, minha linda. É impossível convencer a Rita de que nenhum homem entrou aqui.
“Mas há saída pra tudo, meu rei. Não quero sair daqui. Traga a patroa e nos deixe a sós”, pediu, contraditoriamente gargalhando.
A Rita veio. De cara fechada, mas veio. Conversaram por dez minutos. Saíram sorridentes.
- Ah, Guedinho, a mente pregou-me uma peça. A Valdirene abriu a porta do quarto para sacudir uma bermuda, imaginando que tinha visto uma barata nela, e nessa sacudida eu vi a bunda de um homem entrando no quarto. Já jantou? Esquenta a janta do Guedinho pra mim, Valdirene? Vou assistir à última parte de Louco Amor.
-Nossa! Ela acreditou nisso, minha linda?
- É claro que não. Até porque não falei isso, meu rei. Disse a ela que, realmente, tinha recebido um antigo namorado, que eu estava subindo pelas paredes, que ela, como mulher, devia entender essas coisas, que o namorado tinha saído sem ela notar e que nunca mais isso iria acontecer.
“Beleza, minha linda”, alegrou-se o Guedinho, dando um beliscão na coxa da Valdirene.
A Valdirene botava a janta do Guedinho e ria.
Não convinha, Tião, a Valdirene dizer ao Guedinho que dissera à Rita que ela, a Rita, e a vizinha, a Claudete, costumavam assistir às novelas em sofás separados. Mas que bastava ela, a Valdirene, ir dormir, para as duas ficarem juntinhas. E sempre sem calcinhas e sem sutiãs.
- Essa é a verdade verdadeira da prosa do Sabino, Tião.
Acredito no intuitor Bião. Dou fé, gente!

Fevereiro/17

TC