sábado, 29 de abril de 2017

O DOIDO DO DOIS





Resultado de imagem para IMAGENS DE DOIDO DO DOIS
Imagem Google



O DOIDO DO DOIS

Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo insistiam em dizer que ele era doido. Gostava tanto de números que acabou se apaixonando pelo 2. Depois disso, virou o Doido do 2. Escrevia o 2 em cortes de papelão, colava nos raios da bicicleta e saía pedalando mundo a fora aos berros de 2 é fiel, 2 é fiel, 2 é fiel.
Desculpe, mas não vejo sinais de doidice nessas pedaladas. Normal, normalíssimo. O 2 merece.
Normal, normalíssimo? O 2 merece? Pois diga! Doutor, doutor! Misericórdia! Então o doido era eu, era? Porque eu tinha pena do miserável e ia atrás montado num cambão de guidom torto corrigindo ele: Deus é fiel, Deus é fiel, Deus é fiel. Mas o aperreio só vinha na lua grande, entende, doutor?
Entendo, entendo. Isso durou muito tempo? E o senhor é o que dele?
       Durou até 30 de abril de 1967, quando ele fez 17 anos. Aí ele deu um fora no 2, foi vender os números do jogo do bicho, apaixonou-se pelo 7 e

sábado, 22 de abril de 2017

A ARARA VERMELHA





Resultado de imagem para imagem de arara vermelha
Imagem Google


A arara vermelha (conto)

Contrabandista não é bandido, é? Nunca roubei, nunca matei. Tenho ficha limpa, pode examinar. Se eu pudesse, tinha feito uma faculdade, ia ser advogado, andava de terno e gravata, como o senhor. Trabalho com quinquilharia paraguaia, mas não sou traficante. Relógio Jean Vernier, Tissot, Girard Perregaux. Sim, sei dizer o nome direitinho, aprendi com uma dona chique. Trabalho perto dos hotéis de luxo, lá na Paulista, e no Teatro Municipal. Tem gente endinheirada que compra de dúzia. Dão de presente? Revendem? Por encomenda, trago máquina fotográfica, computador de bolso, GPS, mas tem que fazer um adivance, me falta capital pra bancar produto muito caro.
Hoje se negocia qualquer coisa, cocaína, crack, rim, fígado. Já me ofereceram uma boa grana pra ser mula, pra carregar pasta de coca, pedra, papelote. Não topei. Tenho os meus limites, lido com muamba, e só. Dinheiro é bom, faz a gente feliz, mas não compra tudo, minha mãe já dizia.
Fui de ônibus, como sempre, a Foz do Iguaçu. Atravessei a fronteira a pé,

domingo, 16 de abril de 2017

JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA DE SÃO MATEUS







Resultado de imagem para imagem de judas
Imagem Google



JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA DE SÃO MATEUS

O relógio marcava cinco horas da manhã do Sábado de Aleluia quando o soldado Galdino avistou a majestosa figura sentada num banquinho da praça. De paletó e gravata, óculos escuros, imponente pasta de couro nas pernas, Judas tão elegante jamais fora visto em São Mateus. Galdino bateu uma foto e abriu a pasta. Pensava no tradicional testamento. Não havia testamento. Mas havia cópias da esperada e temida Lista do Juca.
Dali a instantes a imaculada São Mateus fervia de curiosidade e as redes sociais saboreavam as novidades. A Lista do Juca... Bom, preciso justificar o adjetivo imaculada e contextualizar a assustadora lista.
São Mateus, com cerca de três mil habitantes, situa-se no nordeste brasileiro e é conhecida como a mais honesta e autêntica cidade do país. Não que viva com zero de violência. Nada disso. Acontecem homicídios, assaltos, pistolagens. Mas tudo conforme as devidas regras criminosas. O que o matoeense não aceita é pregar uma coisa e fazer outra, o fingimento, o falso moralismo, por assim dizer. A população sente-se orgulhosa com o slogan “São Mateus dez, onde o falso moralismo é zero”. A cidade é tão ciosa dessa pureza