sábado, 22 de abril de 2017

A ARARA VERMELHA





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Imagem Google


A arara vermelha (conto)

Contrabandista não é bandido, é? Nunca roubei, nunca matei. Tenho ficha limpa, pode examinar. Se eu pudesse, tinha feito uma faculdade, ia ser advogado, andava de terno e gravata, como o senhor. Trabalho com quinquilharia paraguaia, mas não sou traficante. Relógio Jean Vernier, Tissot, Girard Perregaux. Sim, sei dizer o nome direitinho, aprendi com uma dona chique. Trabalho perto dos hotéis de luxo, lá na Paulista, e no Teatro Municipal. Tem gente endinheirada que compra de dúzia. Dão de presente? Revendem? Por encomenda, trago máquina fotográfica, computador de bolso, GPS, mas tem que fazer um adivance, me falta capital pra bancar produto muito caro.
Hoje se negocia qualquer coisa, cocaína, crack, rim, fígado. Já me ofereceram uma boa grana pra ser mula, pra carregar pasta de coca, pedra, papelote. Não topei. Tenho os meus limites, lido com muamba, e só. Dinheiro é bom, faz a gente feliz, mas não compra tudo, minha mãe já dizia.
Fui de ônibus, como sempre, a Foz do Iguaçu. Atravessei a fronteira a pé,
sobre a ponte internacional, e voltei com a cota. Fiz a travessia várias vezes, pra que valesse a pena. Deixava a muamba na mala, no hotel, e voltava pra Ciudad del Este.
Numa dessas idas e vindas, encontrei a arara. Não, viva não. Era uma arara empalhada. De longe, parecia que ela ia levantar voo, tinha o olho brilhante, as penas do peito eram vermelhas, quase sangue, e das pontas das asas e do rabo, pretas.
Retornei a São Paulo em ônibus de linha intermunicipal, fugindo da fiscalização, por estradas esburacadas, comendo poeira e pastel de rodoviária, e pensando na arara vermelha. Imaginava aquele bicho na floresta, nas árvores, comendo frutinha, longe da maldade dos homens. Até que alguém a caçasse, abrisse a barriga e enchesse tudo de palha seca. É triste. É triste pensar que uma ave linda, que nasceu pra andar pelas estrelas, que tinha visto o mundo de cima, agora olhava a gente com um olho de vidro, sem poder se mexer. Sinto um arrependimento danado de não ter comprado a arara. Só não fechei o negócio porque não teria coragem de passar adiante depois, eu me apego às coisas bonitas, e o dinheiro já andava curto. E agora, sem mercadoria pra revender, encurtou de vez. Eu tinha prometido a mim mesmo que ia trazer o pássaro empalhado na semana seguinte, quando voltasse. Só que eu ainda não sabia que tudo ia acabar numa delegacia de polícia, em Cascavel, no Paraná.
Às vezes, eu fico lembrando a voz da mulher, a beleza do rosto, o cabelo escuro e liso, mas penso, também, na criança que ela trazia no colo, penso muito. E era, mesmo, uma menina, como ela me disse. Assim que olhei pra ela, no ônibus, eu me lembrei da Virgem de Guadalupe. As duas tinham a pele morena e aquele sorriso manso no rosto. Se eu encontrasse a mulher noutro lugar, no Horto Florestal, por exemplo, ou na Praça Quinze, eu ia me apaixonar por ela, mas encontrei na viagem, e deu no que deu. Fui chamado pra ser testemunha do flagrante de prisão e vou levar processo por contrabando. Quando a polícia abriu uma das minhas malas, encontrou a montanha de relógios suíços, fabricados no Paraguai. Perdi tudo e ainda vou me incomodar com o inquérito. A dona da pensão onde eu moro me aconselhou a falar com o senhor.
“Um bom advogado, você vai precisar de um bom advogado”, ela me disse. 

Depois de algumas horas, senti vontade de ir ao banheiro. Quando estava me levantando, vi, meio sem querer, que a mulher, essa que se parecia muito com a Virgem, borrifava perfume no rosto da criança. Entrei no reservado e enquanto sacolejava e tentava acertar o vaso, pensei em tudo. Ela embarcou na primeira parada que o ônibus fez, logo que saímos de Foz. Entrou com a criança no braço esquerdo, e com uma sacola plástica dependurada no direito. Tenho certeza, porque ela bateu aquela sacola no meu rosto, quando passou no corredor.
Durante a viagem, ela não saiu nunca do assento. Nem pra almoçar, nem pra jantar, naquelas paradas mais longas que o ônibus sempre faz. Teve uma hora que eu quase perguntei se ela não queria alguma coisa do restaurante, mas desisti quando vi ela tirar um sanduíche da sacola plástica.
Voltei pro meu assento e passei a observar a criatura com mais cuidado. Uma hora depois, se tanto, ela borrifou perfume sobre a criança outra vez. Uma coisa óbvia como que tilintou na minha cabeça: nunca, em nenhum momento, o bebê tinha chorado. Horas e horas de viagem, num caminho esburacado e lento, sob um calor dos diabos, e uma criança de colo ficava o tempo inteiro quieta, adormecida, sem chorar ou mamar?
Entrei na cabine do motorista e comentei que havia algo estranho no assento vinte e um. Um pouco depois, ele parou.
“Estamos com um problema no motor. Peço a todos que desçam. O conserto será rápido”, ele disse, na porta do corredor.
Depois que todos saíram, menos a mulher, voltei pra dentro do ônibus e perguntei:
–Não quer descer?
– Prefiro ficar aqui.
Vi que um lenço cobria o rosto da criança.
– Não vai se afogar com esse calor?
– Não, ela está bem – a mulher disse e sorriu.
E é esse sorriso que eu não esqueço. No quarto da pensão, quando eu lembro tudo que aconteceu, quando eu penso na mala de relógios que perdi, no bicho empalhado que não comprei, o que salta diante de mim feito uma arara enlouquecida, grasnando, é o sorriso e a doçura de santa que a mulher tinha.
– Então, é uma menina... – eu disse.
– Sim, e se chama Luísa – ela respondeu.
Falei com o motorista. Ele disse que não podia obrigar a mulher a se levantar, que ia dar rolo, depois, na empresa.
Recomeçamos a viagem. Eu estava cansado. Dormi um pouco, acordei, voltei a ficar de olho na mulher. E ela lá, sentada, quieta, uma santa no nicho.
Paramos em Cascavel. No posto da Polícia Rodoviária descobriram que a criança não só estava morta há muitas horas como vinha recheada de cocaína.
Tão cedo não conseguirei viajar outra vez. Será que o senhor não conseguia recuperar a minha mercadoria? Se eu vendesse os relógios, teria dinheiro pra voltar pro Paraguai e encontrar a minha arara vermelha. Meti na cabeça que eu quero aquele bicho. Sim, eu sei, se eu tivesse trazido, seria pior, ela estaria agora recolhida no depósito da polícia, no escuro, sozinha, empoeirada, atacada por ratos e cupins.
Esse foi o segundo advogado. O primeiro foi o de São Paulo, o indicado pela dona da pensão. É isso?
Isso mesmo. O de São Paulo, mal comecei a contar a história e já vi que não ia dar em nada. Ele ouvia, mas não me escutava. Ficava fugindo, mexendo nas coisas. Não queira negócio com gente que não encara você, já dizia minha mãe. Bom, aí ele disse que não podia pegar a minha causa e me deu o cartão do colega de Cascavel. “Além de morar na cidade dos acontecimentos, é especialista nessas coisas”, ele disse.
Arrumei dinheiro emprestado com a dona da pensão e fui pra Cascavel. Preenchia a fichinha da pousada, então a moça viu o cartão do advogado. Conhecia ele, puxou conversa. Contei-lhe parte da história. “Ele vai passar por aqui daqui a pouquinho. Vou apresentar ele ao senhor”. Informou e sorriu.
 E é o segundo sorriso que eu não esqueço. Despejava mulher por tudo que era canto. Parecia uma arara amorosa a bicar a minha libido. Fiquei todo ancho, coisa de homem. Mas logo percebi que o sorriso era para o ausente advogado. Ela deve ser algo dele. Caixa dois, talvez.
Momentos depois, no refeitório, eu contava essa história ao advogado. Esse, sim, atencioso. Encorajado, eu disse que não tinha dinheiro para pagar o serviço dele. Esperava pagar com a venda da muamba que estava na polícia. Será que o senhor consegue recuperar a minha mercadoria?
Ele foi sincero:
Não temos muita chance. Mas o senhor está com sorte, já que veio se hospedar logo aqui e me encontrou num feriado. A dona daqui é minha amiga, sabe? A gente... Ah, o senhor sabe. Vou ajudar o senhor. Gostei de sua sinceridade. E a arara vermelha? Tenho uma filha de nove anos. Ela adora arara. Se tivesse escutado essa conversa, nossa! Olhe só. Costumo ir à Ciudad del Este e nunca vi loja de arara empalhada. Acho que aqui em Cascavel o senhor faria bons negócios.
Acho que só vende arara na loja do Gordo. Mas o senhor me deixou animado com a informação de que posso fazer bons negócios aqui em Cascavel. Vou pra São Paulo vê se arrumo alguma grana. Cinco mil reais estão de bom tamanho. Se tudo der certo, vou comprar GPS, computador e arara pra vender aqui. Vendo e acompanho o processo, né não?
Ele tirou cópia de meus documentos a fim de bater o contrato, apanhou uma cerveja e ficamos batendo uns pezinhos de amenidades. Na segunda cerveja, ele quase me mata do coração:
Vou lhe emprestar os cinco mil reais. E vê se não topa com alguma mulher perfumando bebê, viu?
O segundo advogado foi primeira sem segunda, então.
Não é isso! Quase não pegava no sono naquela noite. De manhãzinha estava viajando para Ciudad del Este. Comprei GPS, relógio e celular. Não voltei no mesmo dia porque não tinha arara pronta. Comprei sete araras no dia seguinte e voltei para Cascavel. Fiz o mesmo trajeto do dia da menina cheirosa. Tive um medo danado quando a polícia subiu no ônibus no posto da Polícia Rodoviária. Mas eles só deram uma geral de vista e desceram. Peguei um táxi na rodoviária e fui para a pousada. Estava no quarto ajeitando a mercadoria, separava uma arara para dar à filhinha do advogado, quando a dona da pousada chegou com ele:
“São lindas. Vou ficar com as sete”, disse o advogado, alisando as araras.
Nisso o senhor chegou, delegado, e deu a voz de prisão.
É triste, seu delegado, pensar que uma ave linda, que nasceu pra andar pelas estrelas, que tinha visto o mundo de cima, agora ia viver ao rés do chão, já que amarelados homens haviam transformado o vermelho de sangue em branco de cocaína. Ao rés do chão por algum tempo, porquanto o destino delas será a fogueira da incineração, não é verdade?
O delegado balançou o sim de cabeça. Tinha os olhos avermelhados.

Abril/17
TC

Atenção. Muita atenção.
A parte boa desse conto é do escritor gaúcho (pensem numa terra pra dar escritor bom?) Charles Kiefer. A outra é minha, né, gente? São 1093 palavras dele e 651 minhas. Ele começa, eu termino. Mas vocês logo identificaram onde começo a me intrometer, não é certo? Pode me processar, seu Charles. Estou de braços pra trás. Estão prontos e eu pronto pra o que der e vier. Principalmente pro que vier. O original do belo conto do mestre Charles está no blogue dele, aqui http://charleskiefer.blogspot.com.br/2010/07/arara-vermelha-conto.html
Um abraço, Sr. Kiefer,

Tião Carneiro