domingo, 16 de abril de 2017

JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA DE SÃO MATEUS







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JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA DE SÃO MATEUS

O relógio marcava cinco horas da manhã do Sábado de Aleluia quando o soldado Galdino avistou a majestosa figura sentada num banquinho da praça. De paletó e gravata, óculos escuros, imponente pasta de couro nas pernas, Judas tão elegante jamais fora visto em São Mateus. Galdino bateu uma foto e abriu a pasta. Pensava no tradicional testamento. Não havia testamento. Mas havia cópias da esperada e temida Lista do Juca.
Dali a instantes a imaculada São Mateus fervia de curiosidade e as redes sociais saboreavam as novidades. A Lista do Juca... Bom, preciso justificar o adjetivo imaculada e contextualizar a assustadora lista.
São Mateus, com cerca de três mil habitantes, situa-se no nordeste brasileiro e é conhecida como a mais honesta e autêntica cidade do país. Não que viva com zero de violência. Nada disso. Acontecem homicídios, assaltos, pistolagens. Mas tudo conforme as devidas regras criminosas. O que o matoeense não aceita é pregar uma coisa e fazer outra, o fingimento, o falso moralismo, por assim dizer. A população sente-se orgulhosa com o slogan “São Mateus dez, onde o falso moralismo é zero”. A cidade é tão ciosa dessa pureza
que mantém uma curadoria para zelar pelos bons costumes. Boatos são prontamente apurados pelo Curador-Geral do município, o Dr. Renan Cunha.
Quanto à Lista do Juca, a tira-sono começou a ser formada, digamos assim, há dois meses. Teve início com o moleque Pedrinho.
Sucede que a mãe do Pedrinho pede que ele vá ao centro vender um galo a fim de arrumar dinheiro para comprar um botijão de gás. O moleque, dez anos, vai passando no oitão de uma casa, vê uma janela aberta e escuta gemidos. Curioso, dá dois pulinhos no parapeito da janela e flagra um casal transando. Vendedor nato, Pedrinho pula a janela e “Moço, me compre esse galo”. O “porra, moleque” é abafado, pois um barulho de moto diz que o marido da mulher está chegando. “Meu marido. Fiquem debaixo da cama. Rápido”.
Enquanto marido e mulher conversam sentados na cama, Pedrinho e o Ricardão negociam embaixo dela. Mão arrochando o pescoço da ave, Pedrinho vende o galo. Em seguida o compra e torna a vendê-lo. E fica na gangorra de vender caro e comprar barato. Ao menor gesto de relutância, Pedrinho exibe o sinal convencedor: rindo, começa a aliviar o pescoço do galo. Só no sexto vende/compra/vende/compra, Pedrinho já de burra cheia e com o relógio do incauto no bolso, é que o marido da mulher se afasta. Vai tomar banho, já que tira a camisa e põe uma pistola na cômoda. Pedrinho faz finca-pé e pula a janela. Pula e o galo escapole da mão. Resultado: o galo espatifa-se no meio-fio e transforma-se em pedaços de gesso. Espatifa-se o galo e começa a se espatifar a pureza de São Mateus.
Bem, Pedrinho volta pra casa e conta tudo à mãe, a desejada Messalina. Mas que belo relógio, meu filho. Quer dizer que o homem que desconjuntava a Maria Preá tinha um lenço no rosto. Que galinha! E o corno do Galdino não estava nem aí. Não diga isso a ninguém, Pedrinho, senão o curador Cunha vem atrás da gente.
O filho ficou na dele, mas a mãe segredou a uma colega, que rumorejou com uma amiga, que mexericou com mais duas, que caiu nas ouças do curador Renan Cunha, que enxergou a fumaça do mau costume, que abriu um procedimento investigatório com o nome de Operação Lava-Caráter, que interrogou a Maria Preá, que rebateu a acusação de adúltera.
Vou falar com o padre Luluca, visto a Maria Preá viver se confessando, devota assumida que é, decidiu o curador Cunha. O vigário não ligava muito para certos preceitos, até já o ajudara em outros procedimentos, de forma que o curador dava como certa a deduragem. Mas o sacerdote foi taxativo: Maria Preá não havia transado com ninguém. Ocorre que o pároco Luluca não podia falar a verdade. E a verdade é que tivera tremendo arranca-rabo com a Maria Preá.
Acontece que o vigário Luluca e a Maria Preá eram amantes. Isso diz tudo, não? Existe, por sinal, jocosa expressão popular nascida do romance deles. Permitam-me um parágrafo sobre esse fato.
Belo dia, o sacristão pega o padre Luluca em cima da Maria Preá e tome extorquir dinheiro do pobre padre. Até que noutro belo dia (a vida é prenhe de belos dias, não é certo?), o vigário Luluca flagra um fiel “ajeitando” o sacristão. O sacristão subia as calças e ouvia o sorridente Luluca: morreu Maria Preá, sacristão. A partir daquele dia “Morreu Maria Preá” passou para o anedotário como um assunto morto, algo que deve ser esquecido.
Muito bem, frustrada a tentativa com o padre Luluca, restou ao curador Cunha rastrear o boato. O falso moralismo da Maria Preá não podia ficar por isso mesmo. Rastreou e chegou à mãe do Pedrinho, a bela Messalina. Durante a oitiva, a nervosa mãe não dizia coisa com coisa. Ficou detida. Em cinco dias, Messalina negociou a delação premiada. Como prova inicial, apresentou um relógio: “O relógio do ex-prefeito Adécio Cabral, o galinha que comia a Maria Preá. Tenho nome e endereço de mais de uma centena de falsos moralista daqui de São Mateus, Dr. Renan Cunha. Principalmente na área do sexo”.
Messalina, nas horas vagas professora, conhecia muita gente graúda: deu cento e quatorze nomes. Nominou-os vinculando-os às mais diversas falsidades de condutas. Dr. Renan Cunha a liberou, ainda que com tornozeleira. Liberou-a e se pôs a elaborar a lista a fim de enviá-la ao juiz Juca Romero, pedindo autorização para a abertura de inquérito. Providência necessária, posto a maioria dos componentes - a exemplo de prefeitos, ex-prefeitos, vereadores, suplentes deles, secretárias, babás - gozarem do foro privilegiado. A notícia correu a cidade, o burburinho foi de carona. O magistrado Juca logo informou que assim que recebesse a lista quebraria o sigilo.
“Dizer que faz é uma coisa, fazer é outra. Essa lista não existe”. Falava assim o povão sabido.
Mas existia. E encontrava-se na imponente pasta do Judas. E estava cheia de lama. A imaculada São Mateus transformava-se em pura sujeira. O povão logo notou que não era a lista oficial, até porque dela duvidava, mas a verossimilhança entre apelidos e fatos garantia a autenticidade. A população vibrava, a elite estrebuchava, os bares se enchiam, as ruas fofocavam.
Pois é, a lista não mostrava nomes e sim codinomes. Ao lado deles uma abreviatura da falsa conduta e entre parêntesis a explicação.
Alguns codinomes:
Batina amiga, Caju, Feia, Brocha, Caranguejo, Goleiro, Fanhoso, Velhinho, Angorá, Buchudo.
Algumas abreviaturas:
PD – Pedófilo; AG – Agiota; SP – Sapatão; CL – Caloteiro; PET – Pederasta; PT – Puta; CHF – Chifreira; IRR – Enrolão.
A confusão foi tão grande que carros de som invadiram a cidade chamando a atenção para o embuste. A lista era pura ficção, arte de cafajeste, coisa de alguém que queria soterrar a paz da sociedade mateense, e que a Curadoria-Geral estava investigando a autoria da desfeita.
Da janela de minha quitinete, eu observava o alvoroço da rua quando o Pedrinho chegou com uma sacola na mão:
- Bença, pai. Mãe me falou hoje que o senhor é meu pai. Taqui que ela mandou pro senhor. Vou embora. Mãe disse que eu viesse num pé e voltasse noutro.
Atordoado, abri a sacola. Tinha um bilhete, uma vestimenta feminina e um estojo de maquiagem. Li o bilhete:
O Pedrinho deu a bença a você? Vista-se de mulher, vá para a BR e vê se pega uma carona para Natal. Não se preocupe com a gente. O delegado está babando para nos proteger. Ainda bem que ele não está na lista, viu?
Te cuida. Beijos. Te amo, doido!
Messa

Abril/17

TC