segunda-feira, 29 de maio de 2017

A MORTE DO DELATOR





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A MORTE DO DELATOR

O que acha que vai acontecer, Cabeça Dura?
A pergunta foi feita por uma amiga do peito. De peito, de boca e de outras anatomias. Mas o “Cabeça Dura” originava-se de minha fama de teimoso. Também, né?
Não tenho ideia, Branquinha.
Tratava-a por Branquinha em razão da pele lanuda. Atributo que lhe trazia temores e tremores, haja a vista o assédio de gulosos lobos, a exemplo daquele que, sem a menor consideração ao pudor, comia-a com os olhos.
Bicho nojento, disse Branquinha, desviando-se do ardiloso olhar e colando-se a mim.
Nunca vi o Planalto tão cheio, Cabeça Dura. Que fauna, hein!
Tinha razão a Branquinha. O ambiente acolhia sotaques para todos os gostos. Alguns soltavam brincadeiras, outros aturavam-se, porquanto inimigos de longas datas, mas a maioria estampava a interrogação no semblante. Não era para menos: havíamos recebido a ordem de estar ali às oito horas da manhã. “Para cientificá-los de uma notícia de extrema gravidade”, dizia a nota assinada pelo chefão. Agora estávamos a esperá-lo.
Olha ali, olha ali aqueles dois, Cabeça Dura. A mocinha e o velhote. A orelhuda impiedosa e o bengaludo impiedoso. De papo, hiena e pantera. Pode um negócio desse? Só acredito porque estou vendo, Cabeça Dura.
Dei a concordância de cabeça. A reunião tinha o mérito de juntar aquelas figuras, cobras criadas, com umas a engolirem outras. Se bem que, aqui acolá, algumas engoliam sapos. É a vida, a lei da selva. É o secular jogo de interesse, em que predadores e presas vivem trocando de posição e ingênuos caindo na conversa de espertalhões. O Homem bem que podia ter bolado uma travinha nessa criação a fim de harmonizar os interesses antagônicos. Brequei a tola reflexão, já que o chefe acabava de chegar.
Não digo silêncio sepulcral porque detesto chavões. Mas o silêncio que se fez era sepulcral, sim. Éramos os vassalos aos pés do rei.
Como a nos lembrar que aquele território era dele, o chefe deu tremenda patada, situou-se no centro dum círculo, olhou-nos ferozmente e abriu o discurso em forma de rugido:
Falta um camarada aqui. Já perceberam? Esse camarada é um infrator da lei. Traidor de nossos princípios. Esse...
Não notamos a falta de ninguém. Será que...
Como ousa me interromper, seu veado?
Vejam. Brigamos por termos a violência em nosso sangue. Isso nunca vai mudar. Matamos exclusivamente para sobreviver. Saciados, cessamos a matança. Isso também é milenar. Pois bem, há dias eu investigava um camaradinha. Não sei como soube, certo é que ontem ele me procurou. Disse que se entregava, mas tinha valiosíssima informação a me dar. Em troca, queria o perdão da pena. Concordei. Concordei, mas vou matá-lo, vou extinguir a sua raça. Odeio delatores. Era isso que eu queria compartilhar com vocês. Agora, a delação dele, camaradas, é gravíssima. Precisamos extinguir também a raça...
Data vênia, majestade. Quem é o...
Porra, caralho! Feche essa matraca, filho duma cadela. Por que não vai coçar o focinho, seu cão sarnento?
Devia ter mais respeito com a gente, seu velho safado, e não ficar estuprando a educação com essa bocarra fedorenta. Não basta esmagar a ética com as suas patadas?
Cadê você? Me respeite. Me chame de majestade.
Respeito uma ova. Você não merece respeito, tampouco o título de majestade. Nem o tratamento padrão de nossa espécie, o amável camarada, você merece mais. Merecia a nossa reverência até ir passear no podre território dos humanos. Divertia-se nos circos e jogava fora os nossos valores. Tanto é verdade
que voltou crápula e com essa linguagem chula. Misericórdia! Vai ter de me escutar agora, seu mentiroso duma figa. Vou desmascará-lo, bandido. Escutem, camaradas.
Ficamos de queixo no chão. Eram milhares de vozes sincronizadas, mas não víamos as falantes. Voz limpa, comunicação perfeita, verdadeira arte. Sabíamos, contudo, que a voz era das camaradas formigas. Deitaram falação:
Escutem, camaradas. Vou dar nome aos bois. O infrator da Lei da Selva, infratores, aliás, são o camarada Búfalo Americano e esse aí. O camarada Búfalo não vai morrer. Está chupando o dedo, leve e solto por aí. Não houve investigação, pena, muito menos delação, camaradas. Mas houve e está havendo crime. O camarada Búfalo e esse aí estão estocando alimentos. Estocando carne, camaradas. Carne, entenderam? Sabíamos da tramoia, por isso, ontem, uma formiga-rainha seguiu o camarada Búfalo. A lua estava no começo de minguante quando o infeliz se encontrou com esse verme. Antenas ligadas, nossa mestra flagrou a safadeza.
O safadão do Búfalo dizia estar desconfiando de nós. “As camaradas formigas são organizadas, comunicativas, espertas. Elas podem nos derrubar, majestade”, reforçava o babão. Então a dupla satânica traçou o diabólico plano.
O bandidão aí marcaria o presente encontro a fim de nos dar ciência da suposta delação do camarada Búfalo. Artimanha, cujo objetivo era escorar outra ciência. A de que um crime estava sendo cometido por uma camarada. Sabem quem era essa camarada, a raça que seria extinta, nas palavras desse imbecil? Nós, as formigas. E sabem qual era o nosso crime? Estaríamos roubando fungos de um frigorífico. Agora segurem-se na cela, camaradas. O camarada Búfalo matava outros camaradas apenas para bajular esse infeliz. Dava-lhe a carne e ficava sorrindo. Matar para não se alimentar viola o primeiro artigo da Lei da Selva, camaradas. Digo matava porque agora ele está noutra. O camarada Búfalo está se corrompendo, camaradas. Ele e o cabeludão aí. Para quem desconhece, há um frigorífico no limite sul de nosso território. O tal de quem estaríamos roubando fungos. Chama-se Frigorífico Dois Irmãos. Pois bem, os irmãos querem parte de nosso território para criar bovinos. O que fizeram? Corromperam a duplinha infame. Estão dando carne ao peste do Búfalo, que repassa a esse vagabundo. Propina, camaradas. Então, camaradas...
Se há uma coisa que animais não toleram é falsidade. Daí que começaram a caminhar na direção do camarada leão. Caminhavam lentamente, olhar fixo. A hiena, o tigre de bengala, o cachorro e o veado puxavam a fila.
Cercado, o rei se encolhia. Acabou se deitando para que não notássemos a tremedeira.
Nossa, Cabeça Dura. Vai rolar confusão. Vamos também, meu Carneirinho. Dar uma marrada nele, gato, incentivava-me Branquinha, a mais linda das ovelhas daquele planalto.
 Não rolou confusão. O camarada leão liberou um lamento em forma de rugido, escutamos um estrondo e o fedor fez a galera recuar. Quem tinha nariz saiu com ele tampado.
 Também não suportamos.
  E permanecemos de nariz tampado.

Maio/17
Carneiro