quinta-feira, 17 de agosto de 2017

METIDA, MALICIOSA E MENTIROSA





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METIDA, MALICIOSA E MENTIROSA   

    Dr. Arimã cumprimentou os funcionários e sentou-se. Encontrava-se na sede de sua empresa, numa serrana cidade do Rio Grande do Norte. Dr. Arimã é perito em propina, extorsão, caixa dois e secagem de dinheiro.  É o dono da Arimã Assessoria e Comércio, empresa de segurança e armamento, com franquias no país inteiro. Dr. Arimã é empreendedor de mão cheia. Com quinze anos já prestava assessoria aos vadios da vizinhança. Aos dezenove anos fundou a Arimã Assessoria e diversificou os negócios. Hoje, assessora organizações criminosas, vende armas pesadas, trafica drogas e presta segurança. Dr. Arimã é o cão chupando manga.
Rodeado de assessores, Dr. Arimã esperava dar 6 horas, 6 minutos e 6 segundos para comandar atípica reunião. Quer ao amanhecer, quer ao anoitecer, suas reuniões só começam nessa sequência de 6. Gosto do 6, costuma caçoar.
Para fazer hora, Dr. Arimã atirava conversa no recinto. A cada gesto risonho, os franqueadores já caíam na risada, chamando-o de
mestre da comunicação. Estavam animados. Até porque o encontro tête-à-tête era raro. Só fato incomum fazia Dr. Arimã comparecer à sede da empresa, já que administrava tudo por meio da internet. Certo é que ninguém conhecia a morada do danadão. Moro por aí, dizia.
Gostava do vocativo mestre, o Dr. Arimã.  Costumava se amostrar discorrendo acerca da comunicação. E adorava sorrir dos sorrisos puxa-sacos dos presentes. Introduziu assim a prosa da ocasião:
O suprassumo da comunicação, senhores, é a verdade/sofisma. Existem termos arretados nessa área. Coerência é um. Coerente é o sujeito firme nos seus ideais. Merece ovações. Merece ainda se mudar de opinião, já que só o jumento não muda. Não é uma dádiva? Mas fiquem atentos aos meus parceiros de distorção: usamos certo termo para dizer as coisas que queremos, quando, de fato, o termo apropriado é outro.
Sorrisos foram fieis ao cinismo. De funcionários e de patrão, é evidente.
            “Vamos começar a reunião”, anunciou Dr. Arimã, sorrindo para a secretária, a charmosa e demoníaca Diangas. Amante, na verdade. Diziam, porém, que Diangas foi a primeira pessoa a comer o pão que o capeta amassou.
Então, antes de entrar na pauta do Dr. Jórinson, o nosso representante aqui no Rio Grande do Norte, e já que o país todo se faz presente, gostaria de expressar um gesto de gratidão ao Dr. Miqueias, o gerente da franquia candanga.
Homem de visão, viu? Foi do Dr. Miqueias a ideia de ascendermos de 11% para 14% a Taxa de Participação Espontânea (TPE) incidente nos ganhos de nossos associados. Agradeço ao senhor, Dr. Miqueias.
Por fim, passamos ao que me trouxe aqui. A mim e aos senhores, porquanto Dr. Jórinson ter preferido não externar a novidade. É com o senhor, Dr. Jórinson.
Dr. Arimã, companheiros. Então, a Arimã Assessoria e Comércio ganhou uma concorrente, Dr. Arimã. E forte, diria.
Quê!?
Pois é, Dr. Arimã. Uma concorrente. Começou sorrateira, como quem não quer nada, mas querendo, querendo, foi entrando nos aceiros, e...
Como assim, Dr. Jórinson?
A coisa é meio confusa, Dr. Arimã. Imagine a cena:
Dois zoados encostavam um ferro no quengo de um desprevenido e saiam com tudo. Aí, a agora nossa concorrente, arremessava no mundo, mitigando os caras:
Dois jovens atacaram...
Na hipótese de os fardados prenderem os zoados, Dr. Arimã – o que era e é raríssimo – nossa amiga emendava:
Os suspeitos foram...
Caso os pestes trocassem tiros com os PMs, a danada suavizava assim:
Os supostos facínoras trocaram...
Isso quando não usavam “teriam trocado”. Jovens, suspeitos, supostos, teriam. Notaram a amaciada? Outra coisa. Podiam até ser jovens, sei disso, mas... Mas gastar termo tão suave com esse tipo de gente é demais, não acham?
Como disse, Dr. Arimã, fiquei atento. Até ria da situação, pra ser sincero. Mas a pestinha partiu pro marketing e iniciou um processo, vamos dizer assim...
De insegurança. Usou o marketing para injetar no povão a percepção de insegurança.
Isso, Dr. Arimã. Esse doutor! Mas a peste fugiu da percepção e está vindo pra cima do povo. Tá atacando, matando, furtando, estuprando. Tá com o cão nos couros.
Mas isso é ótimo, Dr. Jórinson. Deram um tiro no pé. Faremos uma campanha e traremos esses não segurados para a nossa empresa. Serão muitos 14%, Dr.Jórinson. Peça a sua gente que extermine essa raça e envie um memorando de atenção para os franqueados. Já imaginou se isso vai para outros estados? Ah, mande mensagem zap para os nossos protegidos. Informe que podem agir à vontade, pois estamos providenciando o extermínio da concorrência.
Pois não. Metida e mentirosa é o que essa insana é, Dr. Arimã.
Agora, não podemos enfrentar essa insana, não, Dr. Arimã. É poderosa demais.
Como ousa me dizer isso. Como se chama essa empresa, Dr. Jórinson? Quem é o dono dessa coisa?
O nome, nome mesmo, não sei não, Dr. Arimã. Só sei que a chamam de mídia.
Mídia, entendeu?

“Tá com o cão nos couros”. Li essa sentença no blogue do professor François Silvestre e comecei a coçar as teclas do notebook a procura duma prosa. O professor ironizava uma declaração do governador do Rio Grande do Norte, Robinson Faria, dada à 96 FM. Como o som da 96 é bom, posso dizer que o governador falou em alto e bom som, não? Com o “em”, sim:
“A mídia gosta de falar de segurança e isso provoca na população uma percepção de insegurança, porque a segurança também passa pela percepção das pessoas”.
Governador, governador, governador! Tenha fé em Deus, criatura. Não comento, não comento, não comento!
Quero apenas dizer que a minha percepção tem um medo da bexiga de bala. Da real, por óbvio. Nem gosto de redigir esse nome, a amante da mídia. Tanto não gosto que, para não formar “bala”, não digitei “B” nem “L” no texto acima. O senhor deve ter notado isso, bom de percepção que é. Mas digitou o ”A”. Digitei, sim. Digitei-o porque precisava dele a fim de escrever o nome do diabo, o Dr. Arimã.
Agora, se quiser um texto sem “A”, falemos de amor. Leia, abaixo, a Carta de Amor.

Com abraços reais e com todas as letras,
Julho/17
TC