sábado, 28 de outubro de 2017

AQUELA VOZ



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AQUELA VOZ

Por mim, teria um espetáculo daquele de mês em mês. Tá bom, tá bom, tô exagerando. De seis em seis meses, então.
Não me refiro a espetáculos teatrais, embora também goste desses. Refiro-me a espetáculos que chamam e prendem a atenção pela autenticidade. Refiro-me a espetáculos que expõem a vida real e não a ficcional. Estou falando do ajuntamento de humanos em que a voz de cada participante torna público precisamente o que a voz interior manda. Estou falando do espetáculo em que a barganha e a hipocrisia logo dele se afastam dando rabanadas e daquele onde a veracidade fica mostrando os dentes e batendo palmas. Estou falando do espetáculo a que assisti nesta semana, o da voz de mel, doce, imaginativa...
Porra, cara, deixe de enrolação. Vá direto ao ponto. Diga logo o que quer dizer e pronto. Voz de mel, doce. Que chavão! Gosta de adjetivos, não é, cara? Além do mais, espetáculo assim não existe. Até porque o ser humano é inconsistente. A consistência é ponto fora da curva, bicho.
Se assim está pensando, meu caro, é porque é novato por aqui. Confunde contexto com tapeação. De mais a mais, não escrevo dizendo logo, fique logo sabendo. Aliás, não escrevo dizendo, escrevo mostrando. Compare dizer com mostrar: “O homem tremia, estava nervoso, por isso o xixi não saia”. “Mãos entrelaçadas, o homem ia de um lado pro outro, precisou de um urologista”.
Entendeu, novato? Adoro fazer o leitor pensar. Caso não queira pensar, vá ler BO e bula. Detesta adjetivos, cara? A voz é de mel, sim, seu bucéfalo. Você não, novato, mas meus leitores (quatro) já sabem a que espetáculo estou me reportando. Presunçoso e coisas que tais? Eu? Pois diga! Se não estiver gostando do texto, preguiça mental, o del do computador é a serventia do blogue.
Bom, já que ficou, preciso lhe revelar uma coisinha. Tem a ver com a voz do espetáculo. De fingimento zero e de civilidade mil, o espetáculo - fruto de penosa construção e inúmeros ensaios - é, realmente, imperdível. Mas, confesso, nobre novato, poderia perdê-lo não fosse certa voz. Carente de defeito, excesso de feminilidade, despertadora de imaginação. Essa é a voz. Que voz! Um espetáculo de voz!
Deve estar agoniado, doido pra eu atingir o clímax, chegar aos finalmentes. Também deve estar matutando acerca do que eu quis dizer com voz despertadora de imaginação, não é verdade? Precisa pensar, meu. Nada aqui é de mão beijada. Mas vou abrir uma exceção. Antes, deixe-me fazer outra confissão. Gostei de sua fala sobre a inconsistência do homem. Agora, naquele espetáculo, o ajuntamento humano foi escolhido a dedo. Nele, a consistência moral tira fino na santidade. Mas há exceções, caro novato. Admito numa boa. Só não escrevo “honrosas exceções” porque você vai dizer que é chavão. É isso!
Veja a explicação sobre a voz do espetáculo, a despertadora de imaginação.
Escute só. Tudo na vida, mas tudo mesmo, nasce da imaginação. Essa voz interior faz a carruagem andar, entendeu? É por meio dela que as coisas, sejam do bem, sejam do mal, são concebidas.
Então! A voz que me faz querer ter espetáculo de seis em seis meses, meu nobre, despertou-me a imaginação literária e fez brotar este texto. Entendeu agora?
A imaginação é fogo, cara. Agora mesmo ela está me sussurrando. Já estou até me sintonizando com o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia.
Seguinte. Meus quatro leitores não o querem como colega, nobre novato, e pediram o seu afastamento do Pocilga de Ouro. Acontece que o relatório foi contra a pretensão dos imbecis, meu caro... Posso chama-lo de Bião? Pois! Então, meu caro Bião, vão votar o seu afastamento do blogue. Voto sim ao relatório significa a sua permanência. Voto não, o afastamento.
O presidente me chama para votar. Voto sim, é claro. Aquela voz anuncia:

ESCREVINHADOR TC VOTA SIM. SIM 69

Não é uma gracinha essa voz, nobre novato? É a glória.
É a voz da deputada Mariana Carvalho.

Outubro/17
TC
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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A CONSULTA DO SOBIÃO






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Olá, gente,
Leiam o quarto texto para o meu próximo livro. Sugestão das parteirinhas sacanas. Lembram-se delas? O primeiro texto foi escrito sem o “a”, o segundo sem o “e”, o terceiro só com monossílabos e dissílabos, o quarto... Bom, espero que descubram a atipicidade logo no primeiro parágrafo.
Um abraço,
TC


A CONSULTA DO SOBIÃO

Chega, faz que não me vê, entra de casa a dentro, não fala com ninguém, pega um litro de uísque, gelo, caju, vem pra área, fica de cócoras, toma um gole do uísque, dá uma dentada no caju e cospe o azedume:
Tá bom de lavar essa rede, TC. Tá fedendo pra burro.
Faz isso uma vez por semana. Dizem que é pinel. Não é verdade. Apenas dá uma de. Meu primo Bião – Bião S, como gosta de se apresentar - é muito é do sabido. Ontem, Bião não feriu a insanidade. Pelo contrário: acarinhou-a com tremenda gargalhada, seguida da ordem:
Tá vendo este celular, TC? Tem um troço inusitado aqui, mas você só vai ver se tomar uma comigo.
Coisa de mulher, pensei, indo pegar um copo. Emborquei uma dose sem gelo.
Ficasse todo assanhadinho, né, TC? Não é coisa de mulher, não, seu depravado. Escute, disse, ligando o áudio do celular:
Consultório do Dr. Pegado, bom dia.
Bom dia. Gostaria de marcar uma consulta.
Qual é seu plano, senhor?
Tenho vários, moça. Ganhar na Mega-Sena e pegar umas belas que não me saem da cabeça, por exemplo. Mas, no momento, meu plano é tirar um grilo da cabeça superior.
Nossa! Mas qual é seu plano de saúde, senhor? Informo que Dr. Pegado está com a agenda cheia até três meses na frente.
Nossa! Três meses na frente? Não podia ser... É muito, moça. Como lhe disse, meu plano de saúde é tirar o grilo da cabeça. Queria uma consulta particular pra hoje. Mas...
Deixe-me ver aqui. Ah, tem uma desistência. Duas horas e seis minutos da tarde. Como é seu nome?
Bião S.
O nome completo, senhor. S de quê?
De Silva.