segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A CONSULTA DO SOBIÃO






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Olá, gente,
Leiam o quarto texto para o meu próximo livro. Sugestão das parteirinhas sacanas. Lembram-se delas? O primeiro texto foi escrito sem o “a”, o segundo sem o “e”, o terceiro só com monossílabos e dissílabos, o quarto... Bom, espero que descubram a atipicidade logo no primeiro parágrafo.
Um abraço,
TC


A CONSULTA DO SOBIÃO

Chega, faz que não me vê, entra de casa a dentro, não fala com ninguém, pega um litro de uísque, gelo, caju, vem pra área, fica de cócoras, toma um gole do uísque, dá uma dentada no caju e cospe o azedume:
Tá bom de lavar essa rede, TC. Tá fedendo pra burro.
Faz isso uma vez por semana. Dizem que é pinel. Não é verdade. Apenas dá uma de. Meu primo Bião – Bião S, como gosta de se apresentar - é muito é do sabido. Ontem, Bião não feriu a insanidade. Pelo contrário: acarinhou-a com tremenda gargalhada, seguida da ordem:
Tá vendo este celular, TC? Tem um troço inusitado aqui, mas você só vai ver se tomar uma comigo.
Coisa de mulher, pensei, indo pegar um copo. Emborquei uma dose sem gelo.
Ficasse todo assanhadinho, né, TC? Não é coisa de mulher, não, seu depravado. Escute, disse, ligando o áudio do celular:
Consultório do Dr. Pegado, bom dia.
Bom dia. Gostaria de marcar uma consulta.
Qual é seu plano, senhor?
Tenho vários, moça. Ganhar na Mega-Sena e pegar umas belas que não me saem da cabeça, por exemplo. Mas, no momento, meu plano é tirar um grilo da cabeça superior.
Nossa! Mas qual é seu plano de saúde, senhor? Informo que Dr. Pegado está com a agenda cheia até três meses na frente.
Nossa! Três meses na frente? Não podia ser... É muito, moça. Como lhe disse, meu plano de saúde é tirar o grilo da cabeça. Queria uma consulta particular pra hoje. Mas...
Deixe-me ver aqui. Ah, tem uma desistência. Duas horas e seis minutos da tarde. Como é seu nome?
Bião S.
O nome completo, senhor. S de quê?
De Silva.
Só Bião Silva, moça.
Entendi. A consulta está marcada. Duas e seis da tarde. Trezentos reais, viu?
Vi. Obrigado, atendente.
Aqui Bião deu uma parada no áudio, deu uma golada no uísque (eu também) e deu uma risada:
Duas em ponto eu estava lá. Paguei no dinheiro. Peguei o recibo e sorri. Entrei rindo no consultório, TC, com o anúncio. Ouça, pediu, religando o áudio:
O Sr. Sobião Silva vai estar entrando, Dr. Pegado.
Quando vão deixar de perseguir o Lula, meu Deus. Ô povinho! Mas vão explodir com este comentário. Ah, como vai, Sr. Sobião?
Nessas alturas, TC, eu já estava aguando meu pezinho de raiva. Veja. A atendente preenchia o recibo com um olho no celular e outro no computador. Aí entro no consultório e me deparo com o psicólogo gastando a vista no celular, nele alisando os dedos e passando um tempão para mexer a língua no “Como vai, Sr. Sobião”. E ainda comentou o comentário jogado na rede. Ressabiado, falei assim:
Mais ou menos, doutor. Mas meu nome é Bião Silva. A atendente equivocou-se ao digitar o nome e botou esse “Só” antes do Bião.
Equivocou-se não. Ocorre que, na primeira consulta, alguns pacientes costumam vir acompanhados. Gosto disso, já que os íntimos me dão informações involuntárias. Naturalmente que se retiram na hora da consulta em si. A atendente, portanto, não se equivocou. Apenas informou que o paciente estava vindo só. Se viesse acompanhado, seria anunciado como Acobião Silva. Entendeu, Sr. Sobião?
Acredito não, Bião. O psicólogo estava brincando, não?
Pior que não, TC. Se não bastasse a imbecilidade da justificação do “só”, o cara permanecia com a atenção grudada no celular. O psicólogo tem um xodó com a idiotice, TC. É um mal-educado perfeito. Mas a prova das provas do xodó com a idiotice veio logo em seguida.
Falar em xodó, sabe o que penso, TC? As redes sociais vivem de xodó com a Educação brasileira. Pegou a capenga Educação e... Capenga, sim, TC. Certa turma – mas grande, por sinal – sai da escola não sabendo distinguir causa de consequência, confundindo deve com pode, embaraçando versão com fato. Analfabeto em leitura do mundo, esse pessoal cruza os dedos para a semântica, faz figa para contextos e estira a língua para entrelinhas. As redes sociais perceberam isso, foram se achegando, comendo pelas beiradas, e pimba. Hoje, TC, redes sociais e Educação dormem juntas, trocam cafunés, dão bananas à eficiente comunicação e distribuem maledicências.
Mas existe muita coisa boa nas redes sociais, Bião.
Tá vendo você! E eu disse que não? Disse apenas que a Educação é capenga, que aprova alunos bisonhos e que as redes sociais deitam e rolam em cima da capengante. Entenda, TC. Não generalizei. Falei de certa turma. Mas existe uma turma, principalmente das antigas, que conhece o poder das palavras. É a palavra o afrodisíaco entre a duplinha Educação e rede social. É por meio da palavra que se dá a troca de cafunés. Estimulada, por vezes, pelo caráter sacana do suposto educado. Palavras são como abelhas, TC. No devido lugar, bem aconchegadas, produzem o mel da meiguice. Agredidas, saem mundo a fora distribuindo o fel da ferroada. Entendeu ou quer que eu desenhe, TC?
Quero o desenho. Como gosto de rede, desenhe uma florida, pinte de vermelho os punhos da intriga e de verde os cordões da integridade. Mas antes de desenhar, TC, quero que deixe de arrotar asneiras. Arrote e cuspa a tais provas das provas da idiotice do psicólogo.
Pois então. TC, cara, em cima da mesa do idiota tinha uma revista. Eu lia que lia uma manchete e não entendia. A manchete era Ensino público religioso poderá ser confessional. O bicho percebeu a minha atenção na manchete e soltou o pecado, ainda me chamando de Sobião, pode? Escuta só:
Boa notícia, não é, Sr. Sobião? Os padres é que não vão gostar.
Padres? Não entendi essa chamada, doutor.
Ué! Decisão do Supremo Tribunal Federal, Sr. Sobião. Por seis votos a cinco, o STF permitiu que as escolas coloquem confessionários em suas salas. Daí que o aluno religioso deve se confessar com o professor da preferência dele.
Que é isso, Bião! Acredito porque ouvi. Pegasse ar e fosse embora, não?
Não, TC. Nessas alturas, estava adorando a conversa. Ele é que foi direto para a consulta. Veja:
Bom, o que o senhor está sentindo? O senhor veio se consultar...
Não é bem uma consulta, Dr. Pegado. Quero bater um papo com o doutor. Papo que podia muito bem ser com os colegas, numa mesa de bar, mas aí o pessoal iria levar na brincadeira, pegar no meu pé e coisa e tal. Então preferi bater esse papo com um especialista nas coisas da mente e da alma.
Fez o certo, Sr. Sobião. Quer que eu mande pegar uma cerveja?
Precisa não, doutor. Seguinte. De uns tempos pra cá, comecei a simpatizar com homens. Assim com outros olhos, achando-os interessantes, charmosos. Acho que estou me bandeando pra esse lado, se é que está me entendendo, doutor. Mas, em certos momentos, a minha vontade é de matá-los. Se tivesse uma arma nesses momentos... Assim, doutor, ora quero dar, ora quero matar.
Nisso, TC, o infeliz fecha a cara e começa a bater foto de mim. Escuta o final:
O que está fazendo? Pra que essa danação de fotos, doutor?
Pronto. Já botei no grupo. Entendi tudo, Sobião. É uma pegadinha. Você não vai pegar nenhum psicólogo com essa conversa mole. Você é um espião do Conselho de Psicologia. Não tem nada de gay. O que você está querendo é identificar os psicólogos dispostos a curar gay. Identificar e pedir a expulsão deles.
Cura gay, entendeu, Sobião?
Não sou espião de ninguém, Dr. Pegado. Agora, antes que me esqueça: vá tomar no fiofó, vá!
Nossa, que homem mais mal-educado. Vá você, Sobião. Vá, porque, no fundo, e se eu estiver enganado, isso é que o senhor quer.

Outubro/17
TC