sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A CARTA DO VELHO






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A CARTA DO VELHO

Querido TC de meu coração,
Espero que ao receber essas mal traçadas linhas esteja a gozar de perfeita saúde junto dos que com você labutam. Um beijo no coração de todos e de todas. Por cá, eu e os agregados vamos indo como Deus quer e consente. Desculpe, TC, esse todos e todas. Tenho lido suas prosas, sei que não gosta dessa expressão. Mas saiu, meu rapaz. E, como vai acabar descobrindo, não posso apagá-la. Não só por estar escrevendo de caneta, mas também por uma questão lógica, cósmica mesmo.
Ah, cara, é hora de lhe pedir duas desculpas. A primeira é por você estar quebrando a cabeça para saber quem é o maluco que jogou, sem assinatura, tão cafona carta na sua caixa de correspondência. A segunda tem a ver com a linguagem. Sabe, TC, fico meio confuso na hora de redigir. Ora uso termos antigos, ora modernos, ora gírias. As tais das redes sociais mexeram em meus parafusos literários, TC. Destarte e contudo, continuo caminhando, sem olhar para trás, senhor de mim, entende?
Escuta só, TC de meu coração. Sou tão velho quanto se queira. Não o Siqueira seu amigo de boteco, mas o da sua imaginação. Pois bem, apesar de matusalêmico, não vivo alquebrado. Tô novinho em folha, bicho. Por que escrevi pra vosmecê?
Fi-lo porque qui-lo. Brincadeira. Dir-lhe-ei no momento oportuno, mano. Mas esse é o momento oportuno de revelar o momento da carta: começo de ano, TC. Como foi o seu 2017? Começo de ano, TC, é a época do balanço da vida, do massacre ao ano finado, ainda que antecéu ele tenha deixado. O período da foice, no dizer de dois grandes amigos de copo, o Fernando e a Adriana. Falavam assim, um imitando o outro, balançando o copo de uísque, olhando pra cima, mas de través pra mim, como se culpado eu fosse das desventuras deles:
Foi-se mais um ano, foi-se alguns amores, foi-se vários amigos, foi-se parte do cabelo, foi-se nove vírgula seis dos neurônios, foi-se a barriguinha seca, foi-se meu açucareiro de porcelana, foi-se o brilho de meu saxofone. E assim, TC, de foi-se em foi-se eles iam se cortando de lembranças. Bom foi que anos atrás, eles fizeram o rosário do foi-se e terminaram a uma só voz: foi-se aquele antigo projeto.
Não sou de me estressar, quando muito me aborreço, mas tiro de letra tais aborrecimentos, caro TC. Ocorre mais ao caminhar no calçadão da vida. Sempre aparece um engraçadinho, ou engraçadinha, para comentar: “Custa andar mais ligeiro”? ou “Vai pegar o trem? Por que tanta pressa”? Às vezes, TC, em minutos, os mesmos personagens trocam de posição. O que estava com pressa quer que eu caminhe devagar e vice-versa. E versa-vice também. Aí me lembro do velho A E. Dizia Einstein: Sabe, Inflexível (era assim que ele me chamava), o homem é inconsistente. Falava, coçava o bigode e sorria com o canto da boca. Vou fazer um puxadinho, TC, para relatar um episódio ocorrido entre mim e ele. Sucedeu o seguinte.

Estávamos numa tabacaria, A E dando cachimbadas, o dono da tabacaria tentando acender seu cachimbo e o vento apagando a chama do fósforo. A E perdeu a paciência: só vai conseguir se mudar de posição, amigo. E no meu ouvido: pequena amostra da estupidez humana. E novamente alto: Meu caro Inflexível, você, viajor de nascença, senhor do mundo, me diga uma coisa. Será que o universo é mesmo infinito? É, respondi. Você tem dúvida, Bigodudo? (assim eu o chamava, TC). Tenho. Penso assim, Inflexível. Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta. Muito bom, muito bom, disse o dono da tabacaria.
Bem, naquele dia me estressei com os amigos F e A. Levantei-me e dei um murro na mesa:
Aguento tudo, mas nunca o foi-se do antigo projeto. Vai-se o ano, mas o projeto fica. O que de vocês se foi foi o interesse.
Dei-lhes uma lição de vida, ficaram emburrados, cortaram a relação, TC. Quer dizer, o Fernando, a Adriana me procurou no ano seguinte e derreteu o coração deste velho.
O interesse, TC, é a chave de tudo. Se você não o tem por alguma coisa, morreu maria preá. O danado é quando você está interessado em algo que é discorde com o de outras pessoas, porquanto o interesse convergente é um abraço. Aliás, aconchega-me uma ideia, TC de meu coração. Seguinte. Elabore uma equação que faça interesses antagônicos convergirem. Isole o xis da questão e passe para a história, homem. A Reforma da Previdência de vocês brasileiros poderia ser equacionada assim, ó: X é igual a atitude ao quadrado, menos mentira ao cubo, menos log de dissimulação, menos divergências conceituais, mais transparência elevada a dez, vezes a variância de... Ah, o mestre é você, TC.
A propósito, TC, tenho interesse em que você caminhe comigo, topa? Por quê? Porque você, TC de meu coração, é a única pessoa do mundo que não me usa como pretexto de nada. Daí essa carta-convite, entendeu?
Sim, antes de encerrar esta missivinha, devo informar o motivo pelo qual a Adriana derreteu meu coração. Falou-me com estas palavras:
Desculpe, TP, pelo ano passado, por tê-lo chamado de gagá. Bebi demais, meu velho. Sei do seu valor.
Não fosse você, não existiria saudade, retrato, suvenir, antiguidade, história, época, período, calendário, outrora, passatempo, novidade, creme antirrugas, disputa por pênaltis, antepassado, descendente, dia, noite, nada. Não existiria sabedoria, eu sei disso.
Só cabia a mim me derreter, concorda, TC de meu coração?
Tchau!

É claro que acetei o convite do TP, gente. Vou caminhar com ele.
Tudo tem seu tempo, não é verdade?

Janeiro/18
TC